
Mario SabinoColunas

Os franceses botam para quebrar em Bruxelas: o diabo é o Mercosul
No exato momento em que escrevo este artigo, os agricultores da França botam para quebrar em Bruxelas. O diabo é o acordo com o Mercosul
atualizado
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No exato momento em que escrevo este artigo, o pau está quebrando em Bruxelas, sede da União Europeia. Agricultores da França protestam violentamente contra o acordo de livre comércio com o Mercosul, que estava previsto (apenas pelos otimistas) para ser assinado hoje pelos chefes de governo dos países do bloco.
O busílis mais estridente é em relação à carne do Brasil. Como escrevi há um ano, os agricultores franceses argumentam que a concorrência sem obstáculos alfandegários com os gigantes brasileiros, a maior preocupação deles, será desleal, visto que são obrigados a seguir uma série de normas sanitárias e ambientais impostas pela UE, que encarecem a sua produção, ao passo que os sul-americanos estão livres de segui-las, o que os torna muito mais competitivos.
Os agricultores são uma enorme força política na França, país que é celeiro da Europa Ocidental. O Salão da Agricultura de Paris, que ocorre todo final de fevereiro, tem uma importância surpreendente para os forasteiros. É acontecimento nacional e centro de peregrinação de políticos das diferentes correntes ideológicas. Serve como termômetro de popularidade tanto para o presidente da República, como para o primeiro-ministro.
Não é boa ideia brigar com esse pessoal do campo. Quando contrariados, eles bloqueiam estradas, fecham os acessos a Paris, invadem repartições, botam para quebrar em supermercados e, no limite, partem para cima da polícia, como se verifica hoje em Bruxelas.
Na época em que era correspondente em Paris, assisti a várias demonstrações de fúria dessa gente.
Certa feita, e já descrevi a cena aqui, acordei com uma movimentação em frente à Assembleia Nacional francesa. Assomei à janela e, para o meu espanto, a praça lá embaixo estava coberta de feno, despejado por agricultores encolerizados com algum projeto de lei do qual não me lembro. Para completar a confusão agrícola, policiais tentavam impedir que vacas fossem desembarcadas de um caminhão para pastar ali.
Ao tumulto de hoje em Bruxelas, ao qual se juntaram manifestantes de outros países da União Europeia, acrescente-se a contrariedade dos agricultores franceses com a gestão governamental da epidemia de dermatose nodular bovina, doença altamente contagiosa que acomete o rebanho do país.
O governo propõe abater uma grande quantidade de cabeças de gado para evitar a propagação da dermatose nodular e restringir a vacinação dos animais a zonas de maior risco; parte dos agricultores acha o abate geral desproporcional e quer que haja vacinação maciça.
Para assinar o acordo com o Mercosul, a França exige a inclusão de salvaguardas para o setor agrícola que praticamente liquidam as bases do que foi negociado. Uma delas é suspensão de reduções tarifárias quando houver aumento de importações de produtos sul-americanos, como arroz, açúcar, etanol, aves, além de carne bovina, é claro, acima de determinado patamar. Outra é o cumprimento da parte dos sul-americanos das mesmas normas sanitárias e ambientais da União Europeia, um emaranhado burocrático inviável nestas latitudes.
Há, ainda, a questão dos subsídios. Os agricultores europeus são fortemente subsidiados pelo bloco e temem perder esse dinheiro se forem solapados pelos competidores sul-americanos.
Emmanuel Macron, amigo de Lula apenas nas horas fáceis, reafirmou hoje que, sem as salvaguardas, nada feito. Ele obteve a adesão da Polônia e da Itália. No caso dos italianos, certamente não colabora para a ratificação do acordo com o Mercosul que uma das suas maiores empresas, a Enel, seja alvo no Brasil de uma campanha para que perca a concessão de fornecimento e distribuição de energia elétrica a São Paulo por causa dos sucessivos apagões que penalizam a maior cidade brasileira.
O jogo é bruto, nunca deixou de ser, e há mais um complicador: a eleição presidencial na França, em 2027. Descontentar os agricultores franceses significa alimentar ainda mais o Rassemblement National, partido da ultradireita já bastante nutrido pelos desastre ferroviário do governo de Emmanuel Macron.