Mario Sabino

Odete Roitman não morreu. Quem morreu de novo foi o Brasil

Odete Roitman é imortal no país da canalhice que ampliou o seu vale-tudo, perdeu a vergonha e se tornou ainda mais feroz e voraz

atualizado

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Debora Bloch, em cena da novela Vale Tudo, o remake -- Metrópoles
1 de 1 Debora Bloch, em cena da novela Vale Tudo, o remake -- Metrópoles - Foto: Reprodução

Na minha semana de alguma folga, resolvi assistir a Vale Tudo, o remake da novela que galvanizou o Brasil, em 1988, e que obteve praticamente 100% de audiência no capítulo em que a vilã, Odete Roitman, foi assassinada.

Revivi, assim, os começos da minha carreira profissional infausta. Era jornalista que cobria a área cultural, mais especificamente a editorial, quando livros tinham uma importância insignificante.

Em seguida, fui obrigado a me pautar sobre outros temas, como cinema e televisão, e continuei a diminuir os meus horizontes, até chegar a essa indecência cotidiana que chamamos de política nacional.

Muito bem, Odete Roitman morrerá hoje novamente. A pergunta sobre quem a matou não intrigará tanta gente como 37 anos atrás, mas ainda servirá para que se jogue muita conversa fora.

O tema da Vale Tudo do passado, escrita por Gilberto Braga, era o país da corrupção, da lei do mais forte, do desdém pelo povo trabalhador, do cinismo das elites — de um Brasil no qual ser honesto era sinônimo de otário.

A novela deliciava os espectadores, catarticamente, por causa da personagem interpretada por Beatriz Segall, que sabia representar uma rica que desprezava o país — et pour cause:  a atriz conhecia esse tipo de gente de perto, assim como o seu autor, Gilberto Braga.

Na Vale Tudo de hoje, o francês de Odete Roitman é uma caricatura do que era, e as atuações mais críveis ocorrem quando os atores se dedicam ao merchandising nunca antes tão explícito na história da TV brasileira e quiçá mundial. O ator que faz o personagem que está com câncer, por exemplo, foi bastante convincente nas suas linhas de comercial de sabão em pó.

O remake da novela perdeu a sua carga sociológico-política, e certamente não porque o caráter nacional tenha mudado para melhor de 1988 para cá.

Ao contrário, a canalhice brasileira ampliou o seu vale-tudo, perdeu qualquer resquício de vergonha, tornou-se ainda mais feroz e voraz depois da extinção da Lava Jato, classificada obliquamente por certo jornal de “moralismo militante”.

Quem matou Odete Roitman?  Tenho uma revelação a fazer: ela não morreu de novo, é imortal.  Quem morreu de novo foi o Brasil, agora sem aquela esperança de vida que existia há quase 40 anos, com a redemocratização.

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