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Mario Sabino

O STF salvou os civis sempre inocentes dos generais sempre malvados

Graças aos deuses do STF, criados em teogonia nacional que ainda precisa encontrar o seu Hesíodo, os civis foram salvos dos militares

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Presidente Jair Bolsonaro durante evento com militares brasileiros -- Metrópoles
1 de 1 Presidente Jair Bolsonaro durante evento com militares brasileiros -- Metrópoles - Foto: Igo Estrela/Metrópoles

A esquerda, praticamente todos os homens e todas as mulheres de bem, está em festa com o início da cana dura de Jair Bolsonaro e dos demais condenados do STF pela “trama golpista”. Eu também comemorei, mas por outro motivo: finalmente, deixarei de ouvir jornalista falar diariamente em “trama golpista”.

Todos estão alegres porque generais foram presos pela primeira vez na história do Brasil por planejarem um golpe — na verdade, por cogitarem em planejar um golpe, mas isso é de somenos, diante da grandiosidade do evento.

Entre os militantes da esquerda velha de guerra, alguns deles presos e torturados pela última ditadura, é indisfarçável o sentimento de revanche por 1964 (e que ninguém ouse, nesta hora tão feliz, tocar na verdade inconveniente de que os companheiros lutavam na época para colocar outra ditadura no lugar).

Fato histórico, considera-se, porque os militares, note você, são o grande mal nacional, talvez até o único, e nunca pagaram pelo que nos infligiram.

Houve quem elencasse, com ares de doutor, o que os malvados fizeram em quase 140 anos: deram um golpe na monarquia e instalaram a república; fizeram a revolução tenentista; foram parceiros do Vargas ditador; quiseram apear Vargas na sua incrível versão democrata; tentaram derrubar Juscelino; quiseram impedir a posse de Jango; e, cereja do bolo autoritário, deram o golpe de 1964.

Eu teria vergonha em ombrear a “trama golpista” de 2022 com todos os feitos aí em cima, mas a noção de ridículo ausentou-se do Brasil, e não se sabe quando voltará, se é que o fará. Na falta da noção do ridículo para supervisioná-lo, eis que o fato histórico se tornou um servidor comissionado que carimba qualquer papel que lhe aparece pela frente para se livrar logo do trabalho. O próximo da fila, por favor.

Os militares, então, retomo o fio, cometeram tudo o que cometeram sem ninguém a apoiá-los entre os civis, todos democratas desde o princípio dos tempos, principalmente os da esquerda, embora ela tenha nascido no Brasil, que ninguém nos escute, do ventre do tenentismo e tenha o seu grande espelho nas definitivas conquistas sociais do Vargas ditador. Detalhe, entendo.

Aprendam, meninos e meninas, que nunca houve necessidade, nos golpes promovidos por militares brasileiros, de apoio externo, da concordância de boa parte da classe política, do suporte de banqueiros, industriais e latifundiários, da aprovação majoritária da classe média e, desculpe incomodar, da propaganda da grande imprensa.

Bastava, digamos assim, um cabo e um soldado para virar o jogo. Os civis sempre foram espectadores impotentes ou meros figurantes na cena. À exceção dos bolsonaristas, claro, ela também histórica na sua excepcionalidade.

Desta vez, porém e felizmente, houve intervenção divina para evitar o pior. Graças aos deuses do STF, criados em teogonia nacional que ainda precisa encontrar o seu Hesíodo, os civis sempre inocentes foram salvos dos generais sempre malvados, no caso meia dúzia deles, trapalhões de enorme periculosidade, doidos o suficiente para cogitar planejar um golpe que nunca seria dado.

Comemora-se, assim, o fato histórico, inaudito, espetacular, exemplar para o restante dos generais, praticamente a totalidade, malvados que jamais pensaram em dar golpe nenhum, até porque nunca houve condição para tanto, e que se recusaram a tomar parte em qualquer cogitação golpista de Jair Bolsonaro. Mas vamos deixar o fato pouco histórico como nota de rodapé, porque, afinal de contas, este é um novo dia de um novo tempo que começou.

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