Mario Sabino

O problema não é o comunismo, Alckmin, mas o autoritarismo no PT

Se eu pegasse no braço do vice eleito, seria para recomendar que ele convencesse petistas a substituir Stalin e Trotsky por Montesquieu

atualizado

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Matheus Veloso/Metrópoles
Foto colorida mostra vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB), dando entrevista coletiva. / Metrópoles
1 de 1 Foto colorida mostra vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB), dando entrevista coletiva. / Metrópoles - Foto: Matheus Veloso/Metrópoles

Ao encontrar-se no Palácio do Planalto com Geraldo Alckmin, vice-presidente eleito que comanda a transição de governo do lado do PT, Jair Bolsonaro teria pegado no seu braço e pedido: “Nos livre do comunismo”. O episódio foi relatado à Folha de S.Paulo e entrou imediatamente para a galeria das situações entre ridículas e grotescas protagonizadas pelo atual presidente da República.

Foi uma cena ridícula, sem dúvida, mas não se deve esquecer que o PT, como partido de esquerda latino-americano, conserva integrantes com um ideário próximo do socialismo mais retrógrado. Ainda há gente no partido que acredita que a democracia é um “valor estratégico”, para chegar ao poder e nele se perpetuar, e não um “valor universal”, que prevê a alternância. Como escrevi seis anos atrás, o PT apenas “raspou os bigodes stalinista e trotskista para tascar um bigodão sarneyzista no seu discurso socialista”. A generalização não elimina fatos.

Jair Bolsonaro e os seus aloprados confundiram tudo numa mixórdia ideológico-religiosa, colocando a direita civilizada brasileira numa posição de fragilidade, e isso está sendo usado pela esquerda para deslegitimar o espectro político oposto, bem como os valores que ele representa. O episódio com Geraldo Alckmin veio, portanto, a calhar, como se já não houvesse o suficiente para alimentar os esquerdistas.

Na verdade, precisamos tomar cuidado não com o “comunismo”, mas com o autoritarismo insidioso que, em nome da democracia, quer regular os meios de comunicação, eufemismo para amordaçamento da imprensa. Que pretende transformar o Poder Judiciário num braço informal do Executivo. Que usa do discurso igualitário para tolher a livre-iniciativa. Que acha coisa muito natural aparelhar a máquina pública, porque, afinal de contas, o futuro está no Estado todo-poderoso e no seu capitalismo de compadrio, apesar de todos os fracassos sobejamente conhecidos nesse sentido.

Anda-se falando muito em Montesquieu, autor da teoria da separação dos Três Poderes, que embasa a Constituição brasileira, para criticar a intromissão recorrente do Judiciário em assuntos do Executivo e do Legislativo. Seria bom lembrar de Montesquieu também quando ele fala sobre liberdade, no seu O Espírito das Leis: “Num Estado, isto é, numa sociedade onde há leis, a liberdade só pode consistir em poder fazer o que se deve querer e em não estar obrigado a fazer o que não se deve querer”.

Esqueçamos Jair Bolsonaro. Se eu pegasse no braço de Geraldo Alckmin, seria para recomendar que tentasse convencer certo pessoal do PT a substituir Stalin e Trotsky por Montesquieu.

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