Não há inocentes na tragédia Yanomami
E está inserida no contexto de uma tragédia mais ampla, a brasileira, que não começou ontem e, infelizmente, está muito longe de terminar

Os nazistas só puderam perpetrar o Holocausto, porque o anti-semitismo na Europa foi alimentado nos séculos anteriores, estendendo-se, inclusive, aos Estados Unidos. O anti-semitismo americano, nas primeiras décadas do século XX, propiciou que o escritor Philip Roth escrevesse o romance The Plot against America, uma distopia na qual Franklin Delano Roosevelt é derrotado na eleição americana de 1940 pelo herói aviador Charles Lindbergh, notório antissemita. Na presidência, Lindbergh, que culpa os judeus pela entrada dos Estados Unidos na guerra contra a Alemanha, negocia um acordo com Adolf Hitler, para desespero da comunidade judaica americana.
Nunca teremos um Philip Roth para expor a nossa maneira primária e hipócrita de encarar as feridas nacionais. O problema desse primarismo e dessa hipocrisia é que, além de não curar as nossas feridas, elas abrem caminho para que demagogos as explorem politicamente.
Veja-se o caso dos Yanomamis. Se Jair Bolsonaro cometeu genocídio, caberá à Justiça decidir. Mas, da mesma forma que o Holocausto só foi factível por causa do anti-semitismo secular na Europa e adjacências, o que ocorreu em Roraima sob o ex-presidente da República só se deu porque desde sempre os indígenas vêm sendo tratados como se não fossem seres humanos — ou só o fossem quando isso é oportuno politicamente. Isso não diminui a culpa de Jair Bolsonaro nem a relativiza, mas a coloca num contexto no qual não há inocentes.
A desnutrição entre as crianças Yanomamis abaixo de 5 anos, por exemplo, não é um problema que surgiu de quatro anos para cá. Um estudo conduzido por mestrandos da Universidade Federal de Roraima,
O estudo traz a discussão de especialistas sobre possíveis motivos para a prevalência da desnutrição entre as crianças Yanomamis, inclusive o fraco vínculo entre mães muito jovens e os seus filhos. Ainda que exista esse problema endógeno, ele não exime as autoridades das suas responsabilidades. Também não apaga o fato de que o garimpo ilegal, impulsionado por Jair Bolsonaro, destrói a floresta e o solo de onde os Yanomamis tiram a sua sobrevivência, agravando o quadro geral de abandono perverso. Garimpo ilegal que, por sua vez, é levado a cabo, em grande parte, por brasileiros não-indígenas paupérrimos.
Repito e repito. Não há inocentes na tragédia Yanomami. E assim continuará a ser, enquanto os indígenas continuarem a ser tratados como se não fossem seres humanos — ou só o fossem quando é oportuno politicamente. A tragédia Yanomami está inserida no contexto de uma tragédia mais ampla, a brasileira. Ela não vem de ontem e, infelizmente, está muito longe de terminar.




