
Mario SabinoColunas

“Não era esta a república com que eu sonhava”
A frase de Benjamin Constant, dita em 1890, já apontava para o que seria o regime recém-proclamado: uma apropriação indébita do Estado
atualizado
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Dez anos atrás, eu morava numa praça, em Paris, que tem o nome do palácio da Assembleia Nacional: a Place du Palais Bourbon. Foi lá que escrevi, por encomenda de um editor libanês, um artigo literário sobre o significado das praças, tema da edição da revista que ele lançara em Beirute, a Portal 9, publicada em árabe e inglês. No artigo, dediquei apenas algumas linhas às praças brasileiras. Disse que “elas não passam de buracos mais feios que o horror circundante. São povoadas de mendigos, traficantes, drogados, ladrões, prostitutas. Fedem a urina”. Eu estava especialmente de mal com o Brasil, daí a generalização.
A praça que eu tinha em mente ao escrever o artigo era a Praça da República, no centro de São Paulo, minha cidade natal. Quando eu era criança, o meu pai me levava, juntamente com os meus irmãos, para ver patinhos no lago que existe lá. Estou falando da segunda metade da década de 1960. A Praça da República honrava o nome: era, de fato, uma res publica, a expressão latina que significa “coisa do povo” e, assim, dá nome ao regime cujo poder emana do povo — ou deveria emanar. O espaço bem-preservado tinha ordem, era comum a cidadãos das várias camadas sociais e também seguro para todos. O exato contrário do que se vê hoje.
A Praça da República paulistana é símbolo da situação em que se encontra o regime que faz aniversário neste 15 de novembro. Ele encontra-se mal-preservado nas suas instituições, sujeitas a voluntarismos e conveniências particulares, a desordem impera com golpistas de toda espécie, a divisão social é crescente e a insegurança é tamanha que assaltos e assassinatos viraram banalidades nos quatro cantos da nação.
Não estou idealizando o passado. O que ocorre hoje começou a acontecer lá atrás, com o patrimonialismo que, entranhado na nossa substância histórica, transformou a res pública em privada. Essa apropriação indébita do Estado só foi mudando de feições. Um otimista dirá que sou pessimista. Que o país se modernizou e os índices sociais melhoraram tremendamente. A questão, contudo, é que poderíamos estar muito melhor, na comparação com os países que fizeram tudo certo. Os nossos progressos se deram quase que por inércia, ou foram aos solavancos e de tal forma desarmônicos, que o resultado é essa paisagem de desolação com ilhas de opulência. Além disso, ou por causa disso, a ferocidade da nossa sociedade é sem paralelo no mundo que se pretende civilizado.
Na escola pública em que eu estudava, no início dos anos 1970, nós éramos obrigados a decorar as letras dos hinos brasileiros, que eram cantados regularmente no pátio de recreio, hábito que remontava a muito anos antes da ditadura militar, para que ninguém venha dizer aqui que os generais é que eram do balacobaco. Existe um Hino da Proclamação da República, do qual me lembro o estribilho e uma estrofe:
“Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!
Nós nem cremos que escravos outrora
Tenha havido em tão nobre País…
Hoje o rubro lampejo da aurora
Acha irmãos, não tiranos hostis.
Somos todos iguais! Ao futuro
Saberemos, unidos, levar
Nosso augusto estandarte que, puro,
Brilha, ovante, da Pátria no altar!”
Esse “ovante” aí estraga um pouco o verso, mas a mensagem republicana é bonita: “Hoje o rubro lampejo da aurora acha irmãos, não tiranos hostis”. É verdade que Dom Pedro II, coitado, nunca foi um tirano hostil. Mas era preciso ter um bode expiatório para exaltar a fraternidade. Já o Marechal Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente da República, tinha certa propensão tirânica e não foi nada alvissareiro. Ficou famoso o comentário de Benjamin Constant, primeiro ministro da Guerra do país, depois de ser destratado numa audiência com Deodoro, em 1890: “Não era esta a República com que eu sonhava”.
Nem nós, Benjamin.