Mario Sabino

Maquiadores: não, meus amores, Erika Hilton não representa uma minoria

O patrimonialismo é o nosso sistema e o nosso mal. Erika Hilton não é exceção. Somos criados para tratar a coisa pública como particular

atualizado

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Deputada Erika Hilton contrata maquiador com verba parlamentar - Metrópoles
1 de 1 Deputada Erika Hilton contrata maquiador com verba parlamentar - Metrópoles - Foto: Reprodução/ Redes Social

Érika Hilton. Nunca prestei atenção a essa deputada federal do PSol paulista. Aliás, para falar a verdade, presto muito menos atenção do que deveria a parlamentares federais e aos seus congêneres estaduais e municipais — esses, então, inexistem no meu universo cada vez mais restrito.

Como já disse no YouTube, eu só comento porque sou pago. Se não fosse pago, não comentava nada, em especial assuntos desse arremedo de política que temos neste arremedo de país.

Muito bem, feito o reparo, temos Erika Hilton. O Metrópoles publicou que ela emprega dois maquiadores no seu gabinete desde maio de 2024. Um recebe quase R$ 10 mil e o outro, pouco mais de R$ 2 mil.

Um deles acompanhou recentemente a deputada em uma viagem à Europa, onde aproveitaram para assistir a um show de Beyoncé em Paris. Quando li que a viagem foi a convite do Parlamento Europeu, fiquei duplamente amuado, visto que tenho dupla cidadania e paguei, portanto, duas vezes: pelos salários e benefícios de da deputada e do seu maquiador e pelo turismo de ambos.

Ao que parece, deputados não têm direito a manter maquiadores na sua equipe, o que talvez seja até injusto, dada a incrível mudança na aparência de Erika Hilton. Depois da publicação da notícia, a deputada fez o que julgou ser um esclarecimento nas redes sociais sobre os seus assessores de makeup.

Leia-se o que ela escreveu:

“O que eu tenho são dois secretários parlamentares que, todos os dias, estão comigo e me assessoram em comissões e audiências, ajudam a fazer relatórios, preparam meus briefings, dialogam diretamente com a população e prestam um serviço incrível me acompanhando nas minhas agendas em São Paulo, em Brasília, nos interiores e no exterior.

Tudo completamente comprovado por fotos, vídeos e pelo próprio trabalho cotidiano deles.

E sim, conheci eles como maquiadores, identifiquei outros talentos e os chamei para trabalhar comigo. Quando podem, fazem minha maquiagem e eu os credito por isso. Mas se não fizessem, continuariam sendo meus secretários parlamentares.

E a velocidade com que espalharam essa mentira ontem é desumana. Um tweet, que virou uma matéria de título tendencioso, que virou trending topic, que virou uma onda de tweets e postagens da parlamentares da extrema-direita e daquelas figurinhas de sempre.

Isso não são sintomas de uma reação por uma contratação vista como suspeita num gabinete. Isso temos dia sim, dia não, na política. E nunca acontece dessa forma.

Isso são sintomas de uma perseguição, de uma tentativa de desmonte generalizado de tudo que alguém faz e já fez.

São sintomas de uma revanche, daqueles eternos derrotados no debate público, que ainda não digeriram de tal PL que foi barrado, ou então porque tive sucesso em uma proposta ou denúncia que não queriam que avançasse.

De políticos e empresários que ainda não digeriram nem que a PEC pelo Fim da Escala 6×1 conseguiu as assinaturas necessárias pra tramitar. Que não digeriram o contato direto com a juventude capaz de, em duas semanas, barrar um PL que demoraram um ano pra escrever e articular. Que não digeriram um vídeo de denúncia de uma fake news ou o simples fato de que eu, Erika Hilton, existo e sigo viva.

Que a indigestão dessa gente comigo continue se acumulando. Que os exploda por dentro. Porque aqui, eu e meu gabinete continuaremos trabalhando.

Comigo, com Ronaldo, com Indy e com tanta gente extremamente qualificada. Gente que você vai fazer uma maquiagem e percebe que a pessoa faria um trabalho melhor do que equipes inteiras.”

Erika Hilton credita as acusações e indignações, portanto, a perseguições políticas e até mesmo existenciais, cujo subtexto é o fato de ela ser trans e defender as causas desse grupo de brasileiros. Ao contratar os maquiadores, Erika Hilton só teria descoberto talentos até então insuspeitos.

Eu vejo a situação de maneira simples, e espero não ofender a deputada: Erika Hilton ignora o fato, mas ela não é representante de uma minoria. É representante de uma maioria. A maioria patrimonialista.

Este é o nosso verdadeiro sistema: o patrimonialismo.  Nele, não há direita, esquerda ou centro. O que existem são indivíduos que, a pretexto de atuar em prol do país, apropriam-se do que é público para benefício privado.

Como a coisa pública é, afinal de contas, deles, não há necessidade nenhuma de prestar satisfação a ninguém. Que explodam de indigestão os que ousam cobrar explicações, como disse Erika Hilton na sua postagem nas redes sociais, com muita graça e elegância.

O patrimonialismo é o nosso sistema e o nosso mal. Erika Hilton não é uma exceção, é uma legião. Todos os brasileiros somos criados para, tendo oportunidade, tratar a coisa pública como particular.

Vemos até como direito natural do cidadão nem precisar parecer honesto, e a resposta inteira da deputada é bastante eloquente nesse sentido, não apenas quando ela deseja aos seus detratores que se explodam.

Os maquiadores de Erika Hilton fazem parte do mesmo fenômeno que engloba o jantar de Hugo Motta, revelado igualmente pelo Metrópoles, que reuniu 30 pessoas, em 2023, e que custou aos cofres públicos R$ 27 mil.

Tanto um caso como o outro, no entanto, são os amendoins do patrimonialismo. O aspecto mais grave do nosso sistema são o aparelhamento da máquina estatal, as grandes licitações fajutas, as emendas bilionárias, a balcanização do Judiciário entre clãs de juízes, o capitalismo de compadrio. Esse conjunto de excrescências drena imensos recursos ao Brasil, principalmente em vidas perdidas para a falta de saúde, de educação, de oportunidades iguais.

Não, meus amores, Erika Hilton não representa uma minoria, ao contrário do que ela própria acredita. Strike a pose.

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