Mario Sabino

Jair Bolsonaro não foi vencido por Lula, mas por ele próprio

Se houvesse agido com alguma racionalidade e empatia, ele estaria hoje reeleito. É o que mostra a impressionante votação que obteve

atualizado

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Hugo Barreto/ Metrópoles
fim da apuração dos votos os Apoiadores do atual presidente Jair Bolsonaro se oram e choram na esplanada dos ministérios eleiçoes 2022 14
1 de 1 fim da apuração dos votos os Apoiadores do atual presidente Jair Bolsonaro se oram e choram na esplanada dos ministérios eleiçoes 2022 14 - Foto: Hugo Barreto/ Metrópoles

Jair Bolsonaro não foi vencido por Lula na eleição presidencial brasileira. Foi vencido por ele próprio e por seus apoiadores mais fanáticos. Se houvesse agido, desde que foi empossado em janeiro de 2019, com um mínimo de racionalidade e empatia, ele estaria hoje reeleito. Lula obteve 60,3 milhões de votos (50,9% do total), enquanto Bolsonaro amealhou impressionantes 58,2 milhões (49,1%), apesar de ter feito quase tudo errado nos últimos quatro anos. Foi a primeira vez, desde a redemocratização, que um presidente não conseguiu ser reeleito. Mas foi também a disputa mais acirrada desde a redemocratização do país.

Ao votar em Jair Bolsonaro no segundo turno, praticamente metade dos brasileiros demonstrou não achar que a democracia estivesse em perigo com ele na Presidência. Fato é, contudo, que o atual presidente sonhou com um autogolpe e, para tanto, militarizou a máquina pública e deu generosos aumentos salariais aos integrantes das Forças Armadas. Também as poupou na reforma da Previdência. Mas nunca existiram condições objetivas para qualquer golpe.

Na história brasileira, todos os golpes contaram com a seguinte conjunção favorável: apoio da maioria da classe média, apoio da maioria do Congresso, apoio de banqueiros e empresários, apoio de potências estrangeiras e, por último, mas não menos importante, apoio das Forças Armadas. Bolsonaro jamais teve isso, apesar de todas as cenas teatrais de conteúdo golpista que protagonizou, juntamente com os seus seguidores mais fanáticos. É um caso singular de presidente que permaneceu durante quase todo o tempo de mandato sem partido político onde abrigar-se (fracassou ao tentar criar um para chamar de seu).

Lula fez um lacrimoso discurso de vitória, apresentado-se como o grande conciliador de uma nação dividida e o salvador da democracia. Disse que não existem dois Brasis. Existem, sim, como mostrou o resultado eleitoral, e são praticamente do mesmo tamanho.

O Brasil de Jair Bolsonaro é o do agronegócio, a força propulsora da economia brasileira, que relativiza a pauta ambiental. O Brasil de Jair Bolsonaro é conservador nos costumes. O Brasil de Jair Bolsonaro acha que ele agiu certo ao sabotar as medidas restritivas contra a Covid e não se importa com a sua falta de empatia para com os doentes e as suas famílias. O Brasil de Jair Bolsonaro quer menos Estado na sua vida — uma das promessas de campanha que o atual presidente cumpriu apenas em parte insignificante, seja por falta de crença verdadeira, seja por falta de condições políticas. O Brasil de Jair Bolsonaro acha que ele fez certo ao enfrentar a cúpula do Judiciário. O Brasil de Jair Bolsonaro não perdoa a corrupção gigantesca ocorrida nos governos do PT e considera a corrução bolsonarista um mal menor — e, quanto a esse ponto, muitos antipetistas votaram pela reeleição do inquilino do Planalto com o nariz tapado.

O antipetismo tem a mesma dimensão do antibolsonarismo, dizem os números da apuração. Jair Bolsonaro deve continuar a ser a principal face do Brasil de direita e antipetista, que é muito maior do que se imaginava. O bolsonarismo, no entanto, precisará adquirir consistência partidária.

Ao silenciar depois da divulgação do resultado e não reconhecer a vitória do adversário, Jair Bolsonaro se apequena como homem, mas talvez seja isto que os seus eleitores esperam dele: mais teatro antissistema. Vamos ver por quanto tempo dura a cena. Não, não haverá golpe.

(Uma versão do artigo foi publicada no site argentino Infobae)

 

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