Mario Sabino

Irã: a esquerda repete o erro de 46 anos atrás

O pretexto da esquerda para apoiar os aiatolás no Irã era o antiamericanismo; hoje é o antissionismo. O denominador comum: anticapitalismo

atualizado

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Imagem colorida de Ali Khamenei, lider supremo do Irã - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida de Ali Khamenei, lider supremo do Irã - Metrópoles - Foto: Anadolu Agency/Getty Images

O aiatolá Khomeini chegou ao poder no Irã, em 1979, apoiado pela esquerda, em especial a francesa, que o considerava expressão legítima da resistência ao regime ditatorial do xá Reza Pahlevi, apoiado pelos Estados Unidos.

Refugiado na França, depois de ter sido convidado a se retirar do Iraque, Khomeini encarnava aquela alquimia esquisita, tão ao gosto da década de 1970, que misturava marxismo e religião como poção mágica do antiamericanismo e do anti-imperialismo.

Os eflúvios dessa alquimia se fizeram sentir inicialmente na América Latina, como não poderia deixar de ser em se tratando de pioneirismo de ideias desmioladas, com a Teologia da Libertação, felizmente exorcizada pelo papa João Paulo II.

À época, pouquíssimos eram os jornalistas e intelectuais, na esquerda francesa, que enxergavam que a ansiada revolução iraniana, encabeçada pelo aiatolá, significaria trocar a brutalidade do xá por outra ainda pior, principalmente contra as mulheres.

Jean-Paul Sartre e Michel Foucault estavam entre os principais defensores de Khomeini. Eram personagens em busca de uma causa, dez anos depois da revolta estudantil de 1968 e três anos depois do fim da Guerra do Vietnã.

Causa ganha na totalidade, e esse é o perigo de desejarmos certas vitórias, porque o aiatolá fez exatamente o que disse que faria.

Um mês depois de instalado como líder supremo do Irã, Khomeini começou a impor, entre outras delicadezas que ofereceria ao seu povo, restrições à liberdade das mulheres no país. A primeira delas foi a obrigatoriedade do uso do véu em locais de trabalho.

Simone de Beauvoir, mulher de Jean-Paulo Sartre, correu a apoiar os protestos das iranianas, que ainda podiam gritar nas ruas: “Nem ocidental, nem oriental, a liberdade é universal!”, uma réplica ao slogan dos apoiadores de Khomeini: “Nem ocidente, nem oriental, viva a república islâmica!”.

Pode-se imaginar o clima pesado, de cortar com faca, no apartamento do casal, na rue Bonaparte, em Paris. Se havia alguém que podia chamar Jean-Paul de cretino, esse alguém era Simone.

Como a esquerda não aprende lição nenhuma, 46 anos depois, lá está lá ela defendendo outra vez o regime iraniano, comandado há mais de três décadas por Ali Khamenei, sucessor de Khomeini.

O agravante é fazer vista grossa, na melhor das hipóteses, para todos os crimes cometidos por gangue islâmica ao longo de quase meio século.

O pretexto agora é o antissionismo, cujo denominador comum com o antiamericanismo e com o anti-imperialismo é o anticapitalismo. Plus ça change, plus c’est la même chose.

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