
Mario SabinoColunas

Desconstruindo Lula no New York Times
A entrevista de Lula ao New York Times reforça o enfrentamento com Trump. Perfeita para a sua imagem eleitoreira de nacionalista resistente
atualizado
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Essa entrevista de Lula ao New York Times, que foi publicada hoje, não é nada além do que ele já disse, só que traduzido para o inglês e com um título jornalístico que reforça o enfrentamento com Donald Trump.
O título é “Ninguém desafia Trump como o presidente do Brasil”. Perfeito para vender a imagem eleitoreira de nacionalista resistente; péssimo para negociar um acordo sobre o tarifaço que atenue o desastre para exportadores brasileiros, com todas as consequências que a paulada implica.
Aparentemente, o assunto Brics não estava na pauta dos jornalistas que o entrevistaram. Não há menção à provocação de Lula aos Estados Unidos, no âmbito do bloco que serve de instrumento à China e à Rússia, de substituir o dólar como moeda de referência do comércio internacional.
A entrevista se detém sobre a exigência de Donald Trump de que seja encerrada o que seria a “caça às bruxas” contra o aliado ideológico Jair Bolsonaro.
Lula, então, repete que se “se o ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio tivesse ocorrido no Brasil, Trump estaria enfrentando um processo judicial, assim como Bolsonaro”.
Tem-se, assim, o presidente brasileiro chamando praticamente o presidente americano de criminoso nas páginas do principal jornal dos Estados Unidos — com o qual, aliás, Donald Trump vive às turras.
Não parece uma boa forma de Lula mostrar a sua suposta vontade de negociar com o sujeito. É porque ela não existe. O título da entrevista é revelador do que Lula quer: explorar eleitoralmente a disputa com Donald Trump.
Na mesma edição, o New York Times noticia que o presidente americano anunciou que os Estados Unidos vão impor uma tarifa de 25% aos produtos importados da Índia por não estar satisfeito com o andamento das negociações entre os dois países.
Donald Trump também afirmou que os indianos pagariam uma tarifa adicional, ou secundária, por comprar petróleo da Rússia, sancionada pelo Ocidente por ter invadido a Ucrânia.
Isso porque o inquilino da Casa Branca está fulo com o tirano russo Vladimir Putin, que não dá a menor importância aos seus ultimatos para que cesse a agressão aos ucranianos, e as tarifas secundárias são uma forma de intensificar as retaliações econômicas e comerciais a Moscou.
Muito bem, se Donald Trump impuser tarifa secundária à Índia, deverá fazê-lo também em relação ao Brasil. Sob Lula, o país se tornou o maior importador de diesel da Rússia, o que nos coloca na honrosa posição de financiadores indiretos das barbaridades cometidas pelo exército de Vladimir Putin na Ucrânia. Lula renunciará a comprar diesel do companheiro de Brics?
Os esforços do presidente brasileiro para tentar impedir o tarifaço continuam a ser comoventes, e os prognósticos são excelentes como se vê.