Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Mario Sabino

André Mendonça quer apenas que a PF cumpra o seu dever

Se André Mendonça vier a se encontrar com o diretor da PF, deveria convidá-lo a assinar uma parte do texto divulgado contra o ministro

07/08/2026 11:15, atualizado 07/08/2026 11:29
Alice Rabello
Montagem com André Mendonça e uma visão noturna do prédio do STF -- Metrópoles

O ministro André Mendonça reuniu-se ontem com o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva. Solicitou ao titular da pasta que a PF tivesse atuação independente e técnica nos casos sob a sua relatoria. São os casos mais explosivas desta triste República: farra no INSS, tráfico de influência de Lulinha e Banco Master.

Principalmente no que se refere a Lulinha, André Mendonça concluiu que a PF vinha fazendo corpo mole e, por isso, determinou que todos os resultados das investigações em curso devem ser repassadas ao seu gabinete e que as trocas de delegados e peritos precisam lhe ser comunicadas.

Foi, então, acusado de interferir no trabalho da PF, e o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, resolveu pedir à Advocacia-Geral da União um “remédio jurídico” contra a atitude do ministro.

Nessa linha de confronto, os 27 superintendentes da PF divulgaram uma nota de apoio à direção da corporação, na qual afirmam o seguinte:

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

“A credibilidade construída perante a sociedade brasileira decorre da atuação técnica e independente de seus servidores, orientada exclusivamente pelos fatos, pelas provas e pelos mecanismos de controle previstos no ordenamento jurídico. A atividade investigativa da Polícia Federal não se submete a interesses políticos, ideológicos ou pessoais, mas ao estrito cumprimento da lei.”

A imprensa repercutiu a nota, mas se esqueceu de informar que todos os superintendentes da PF em atividade foram nomeados por Andrei Rodrigues. São, portanto, homens da sua confiança pessoal, quando não amigos.

A proximidade com Andrei Rodrigues talvez os tenha obnubilado para o fato de que, infelizmente, nem sempre a PF se manteve alheia a interesses políticos e ideológicos.

Exemplo eloquente é o do caso do dossiê com o qual uma quadrilha quis incriminar o tucano José Serra, em 2006, então candidato ao governo de São Paulo.

Como de hábito, o partido e o seu chefão disseram que não tinham nada a ver com a vigarice, e Lula chamou os integrantes de “aloprados”.

Enquanto o teatro petista era encenado, a PF tentou esconder a foto do dinheiro que havia sido usado para comprar o dossiê e permitiu que um segurança de Lula, então em segundo mandato, fizesse uma visita secreta ao chefe da quadrilha, que estava preso na carceragem da Superintendência em São Paulo.

Soube-se apenas em 2017, graças à delação de um ex-executivo da Odebrecht no âmbito da Lava Jato, que o dinheiro da compra do dossiê falso havia saído de um esquema envolvendo a empreiteira e a cervejaria Itaipava. Mais PT, impossível.

O encontro entre André Mendonça e o ministro da Justiça foi intermediado pelo Advogado-Geral da União, Jorge Messias. Como o AGU ficou amigo de André Mendonça, que apoiou a indicação do seu nome para o STF, o “remédio jurídico” deu lugar à diplomacia.

O ministro do STF, no entanto, não pode perder de vista que, do lado do Executivo, inexiste quem queira pôr o caso Lulinha a limpo, principalmente em período eleitoral.

Para complicar ainda mais a situação, há a encrenca envolvendo Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, que recebeu dinheiro da lobista Roberta Luchsinger, amigona do peito do filho do presidente. Por que ela pagou, ela pagou por quê?

Foi ela que apresentou Lulinha ao Careca do INSS, com quem está metida até o último fio da sua loirice de cabeleireiro, e era na casa de Roberta Luchsinger que o filho do presidente pousava quando vinha da Espanha, onde mora.

A amizade entre ambos é tanta que a ex-empregada da lobista cita, erroneamente, Lulinha como “marido” de Roberta Luchsinger, em processo contra a ex-patroa.

Agora, Roberta Luchsinger dá o ar da sua graça financeira na antessala do gabinete de Lula com os seus “empréstimos” a Marcola. Aliás, como é que o presidente soube antes de todo mundo sobre o dinheiro recebido pelo seu ex-chefe de gabinete?

A PF tentou retirar Lulinha da alçada de André Mendonça, desdobrando a investigação sobre as traficâncias de influência do filho de Lula em mais dois inquéritos.

Um foi sorteado para Flávio Dino, ex-ministro da Justiça de Lula e aliado histórico do PT; para azar da da PF, o outro caiu com o mesmo André Mendonça.

Ainda assim, três inquéritos é melhor do que um só, se a intenção for aliviar a barra do investigado: descentralizar atrapalha mais do que ajuda a conduzir as investigações.

Acresça-se ao medo do PT em relação ao ministro do STF o rolo de Jaques Wagner, petista-mor pego no propinoduto do Banco Master.

Depois da reunião com o ministro da Justiça, Jorge Messias procura convencer André Mendonça a conversar com Andrei Rodrigues para aparar as arestas.

No caso de haver um tête-à-tête, se eu fosse o ministro, leria para o diretor-geral da PF a nota que os seus superintendentes divulgaram. E o convidaria a assinar a parte do texto na qual está escrito sobre a corporação não se submeter a nenhum tipo de interesse espúrio. Afinal de contas, André Mendonça quer apenas que a PF cumpra o seu dever.