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Mario Sabino

André Mendonça dá o troco ao jogo sujo do qual é vítima

Ao afastar o diretor-geral da PF e o diretor da inteligência da corporação, André Mendonça mostra que não tem medo na defesa da legalidade

08/09/2026 10:45, atualizado 08/09/2026 16:00
Gustavo Moreno/STF
André Mendonça -- Metrópoles

O presidente do STF, Edson Fachin, acha que pode empurrar com a barriga a definição sobre o que fazer com Alexandre de Moraes após André Mendonça expor a relação promíscua entre o colega e Daniel Vorcaro, autor da maior fraude financeira da história do país.

A realidade desmente ruidosamente Edson Fachin a cada dia que passa.

Hoje, André Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e de Leandro Almada, diretor de inteligência da corporação. Ele pediu a Luiz Fux, presidente da Segunda Turma, que submetesse a sua decisão, tomada no âmbito de uma ação impetrada pelo Partido Novo, a referendo do colegiado.

Como era de se esperar, Gilmar Mendes pediu vista. Mas Luiz Fux e Kassio Nunes anteciparam os votos favoráreis à determinação do ministro, formando maioria, uma vez que Dias Toffoli se absteve.

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No seu despacho, André Mendonça diz que vem sendo monitorado ilegalmente pela PF há mais de trinta dias e que o afastamento de Andrei Rodrigues e Leandro Almada é necessário para que integrantes do STF, o advogado-geral da União, Jorge Messias, e agentes da PF “exerçam suas atribuições sem constrangimentos ilegais”.

Na semana passada, o ministro foi alvo de relatórios apócrifos, provenientes da PF, que embasaram aquela vilania, para dizer o mínimo, perpetrada por Alexandre de Moraes de tentar incluir o colega no inquérito das fake news, acusando-o de abuso de autoridade, crime de responsabilidade e improbidade administrativa como relator dos casos Master e INSS.

Ao determinar o afastamento de Rodrigues e Almada, o ministro ordenou também à corregedoria da corporação que abrisse investigacão para apurar “graves fatos identificados” na confecção dos relatórios apócrifos.

“A par de existirem outras questões em torno das inadequações, disfuncionalidades, irregularidades e potenciais ilicitudes na conduta do Senhor Andrei Augusto Passos Rodrigues, a superlativa gravidade e ilicitude na produção dos ‘relatórios de inteligência’ publicizados pelo Ministro Alexandre de Moraes impõe a adoção de providências imediatas para evitar que as prerrogativas da magistratura, da advocacia pública e da própria atividade policial continuem sendo vilipendiadas”, diz André Mendonça no seu despacho.

O ministro centrou a sua argumentação no absurdo de uma corporação achar-se no direito de exercer vigilância clandestina e até de divulgá-la, por intermédio de um integrante do Supremo, como se nada de errado houvesse nisso tudo. A menos que se dê aval a monitoramentos ilegais em todas as esferas da vida nacional, fica difícil rebatê-lo.

Ele reproduziu, inclusive, o trecho do voto do próprio Alexandre de Moraes no julgamento da ADPF que questionou a legitimidade de o Ministério da Justiça investigar opositores e críticos ao governo de Jair Bolsonaro: “Não é permitido a nenhum órgão bisbilhotar, fichar ou estabelecer classificação de qualquer cidadão e enviá-los para outros órgãos. Relatórios de inteligência não podem ser utilizados para punir, mas para orientar ações relacionadas à segurança pública e do Estado”.

Questiona-se o afastamento do diretor-geral da PF com o argumento de que não há certeza de que foi Andrei Rodrigues o mandante dos relatórios. Mas, na sua decisão, o ministro afirma que “é imperioso realçar ainda que, no atual contexto, sua ascensão ascendência hierárquica tem grande potencial de influir nas apurações internas do órgão, notadamente quando são evidentes as irregularidades do referido material e o envolvimento do diretor-geral da PF na questão”.

André Mendonça, então, acrescenta:

“Nesse sentido, transcreve-se a fala da jornalista Mônica Waldvogel em programa veiculado pelo canal de notícias GloboNews, no dia 03/09/2026:

‘(…) o que eu consegui também apurar sobre como que se chegou a esse relatório é que durante muito tempo a Polícia Federal vem fazendo… Conversando com o diretor-geral, com o Andrei Rodrigues, ele disse que durante muito tempo a Polícia Federal vinha relatando, fazendo relatórios de inteligência para seu próprio consumo e acervo do que ela considerava ilegalidades no comportamento do ministro André Mendonça nas suas relatorias (…) e esses relatórios foram produzidos nas casas de 5 ou 6 relatórios, segundo ele, iam levantando tudo que eles consideravam de irregular no tratamento de André Mendonça de provas, de contatos e de condução e que esses relatórios foram solicitados pelo ministro Alexandre e são esses relatórios que embasam essa denúncia’.”

O ministro deu o troco, dentro da legalidade, ao jogo sujo do qual vem sendo vítima, mostrando que não se amedronta diante de uma gente barra-pesada.

O outro lado já começou a reagir, plantando notinhas junto a jornalistas amigos de que a decisão do ministro não tem fundamento, enquanto bolam uma estratégia para levar a coisa ao plenário do STF, onde acreditam ter maioria para reverter o afastamento do diretor-geral e do diretor de inteligência da PF.

Se Edson Fachin tem mesmo apreço pelo Estado de Direito, pelo tribunal que preside e pela decência das instituições, ele não pode adiar mais o inadiável, que é a defenestração de Alexandre de Moraes do Supremo. Porque não há uma disputa política entre dois ministros. O que há é um embate entre o crime e a lei.

André Mendonça dá o troco ao jogo sujo do qual é vítima