Mario Sabino

A polêmica das Havaianas é típica de um país quadrúpede

O Brasil, certamente, não tem nada de mais grave com o que se preocupar nestes estertores de 2025. As Havaianas são o problema

atualizado

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Havaianas/Divulgação
Havaianas e Fernanda Torres -- Metrópoles
1 de 1 Havaianas e Fernanda Torres -- Metrópoles - Foto: Havaianas/Divulgação

Havaianas, Fernanda Torres, pé direito, dois pés na porta, na estrada ou na jaca: certamente, este país quadrúpede não tem nada de mais grave ou de escandaloso com o que se preocupar nestes estertores de 2025.

Nem com a suposta participação do filho do presidente da República no esquema bilionário dos descontos fraudulentos do INSS, nem com a espetacular evolução patrimonial da mulher do ministro de Alexandre de Moraes, a advogada do contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master.

Explico: ontem, ficamos sabendo que a fortuna pessoal da doutora Viviane Barci de Moraes saltou de R$ 24 milhões, em 2023, para R$ 79,7 milhões, em 2024, segundo o jornalista Lauro Jardim.

Estava difícil me recuperar desse mais novo assombro, mas finalmente consegui — e deixei o Brasil de lado para continuar a leitura de Le Tchékiste, o romance não menos do que brutal que o russo Vladimir Zazoubrine escreveu sobre os horrores perpetrados pela Tcheka, a polícia secreta soviética.

O livro é de 1923, escrito (e censurado), portanto,  nos tempos do camarada Lênin, aquele sujeito que a esquerda ainda vende como “o homem mais humano de todos os homens”, jogando todas as culpas pelas atrocidades cometidas na Rússia e adjacências nas costas do camarada Stalin.

Não pense você que é fato empoeirado do passado. Da Tcheka, nasceu a KGB, e a KGB gerou Vladimir Putin, que, em prova da extrema coerência do Mal, trata os opositores à sua tirania exatamente como os bolcheviques tratavam os dissidentes.

Muito bem, estava eu às voltas com esse momento seminal da esquerda revolucionária do século passado quando cometi o erro de olhar o celular — e ser puxado pela direita bolsonarista para Havaianas, Fernanda Torres, pé direito, dois pés na porta, na estrada ou na jaca. Quatro patas.

O meu diagnóstico é que se trata da mistura de mais um comercial ruim da propaganda brasileira (festejada no exterior, sei disso, mas sou velho de convicções teimosas, não há o que fazer) com a paranoia clássica da direita bolsonarista.

A conclusão lógica do meu diagnóstico é que acho que a direita bolsonarista já  sofre o suficiente para ter de trocar de chinelo de dedo neste verão, sempre lembrando que Havaianas não deforma, não solta as tiras e não tem cheiro (concedo, vá lá, que a propaganda brasileira já fez coisa boa).

Antes de voltar à leitura do romance de Zazoubrine, só gostaria de transmitir uma informação adquirida quando eu morava vizinho à Assembléia Nacional francesa, em Paris.

Ao lado dela, há uma lojinha de souvenires da própria Assembleia, onde se vendem objetos associados à política, inclusive alguns que brincam com a clivagem direita/esquerda, nascida na época da Revolução Francesa.

Há, por exemplo, luvas de forno para destros, com a inscrição droite, e para canhotos, que trazem a palavra gauche. Ao que parece, ambas são de ótima qualidade.

Paris, Paris. Foi nessa época da minha vida, eu era feliz e não sabia, que resolvei me informar um pouquinho mais sobre como surgiu esse negócio de direita e de esquerda.

Eu sabia que havia sido por ocasião dos debates na assembleia constituinte de 1789, logo depois da Queda da Bastilha e antes que cabeças começassem a rolar. Os deputados favoráveis a que o rei Luís XVI mantivesse o poder de rejeitar leis em definitivo se colocaram à direita do presidente da Assembleia; os deputados que eram de opinião de que o rei só poderia exercer veto suspensivo ficaram à esquerda.

O fato que me admirou é que essa partição espontânea, que acabou facilitando as demais contagens de votos durante a assembleia constituinte, ocorreu por causa da estridência do que viria ser a esquerda. Um deputado proveniente da nobreza, Louis-Henri-Charles de Gauville, registrou nas suas memórias:

“Em 29 (de agosto), começamos a nos reconhecer: os que eram apegados à sua religião e ao rei se confinaram à direita do presidente a fim de evitar os gritos, os comentários e as indecências da parte oposta.”

Como não gosto de gritos, eu ficaria do lado de M. De Gauville.

Hoje, direita e esquerda se igualam no barulho e na sem-vergonhice. No Brasil, também se irmanam no quadrupedismo. Dois pares de Havaianas para cada um, por favor.

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