Usina alvo da Carbono Oculto perde pedido para voltar a emitir nota fiscal
Itajobi diz que restrição impede faturamento na safra. Usina foi adquirida por grupo de Primo, suspeito de ligação com o PCC
27/10/2026 04:00

A Usina Itajobi, alvo da Operação Carbono Oculto, não conseguiu recuperar a inscrição estadual necessária para emitir notas fiscais. O cadastro foi cassado pelo Fisco de São Paulo.
Em documentos apresentados à Justiça, a empresa afirmou que a restrição impede o faturamento e a circulação de mercadorias, comprometendo suas atividades em pleno período de safra e moagem.
Conforme mostrou o Metrópoles na coluna de Ramiro Brites, a usina foi adquirida pelo grupo liderado por Mohamad Hussein Mourad, o Primo, foragido e investigado por um esquema de sonegação de mais de R$ 8 bilhões em impostos. Ele também é suspeito de ter vínculo com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
A usina alegou ter apresentado mais de 33 mil páginas de documentos para renovar o cadastro. Segundo a empresa, porém, o Fisco apontou pendências de forma genérica, sem informar quais documentos faltavam ou quais informações seriam incorretas.
Entre no canal de WhatsApp da Coluna Manoela AlcântaraA Itajobi sustentou que essa falta de clareza impediu a correção dos problemas e prejudicou sua defesa no processo administrativo.
Uma das pendências envolve a identificação dos investidores do fundo Celebration. A usina argumentou que o órgão desconsiderou uma orientação anterior da própria administração tributária sobre a documentação exigida do fundo.
Além da recuperação do cadastro, a empresa pediu a suspensão de medidas como a lacração de tanques e bombas e a comunicação de restrições à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
O pedido urgente foi negado. Na decisão, o juiz Marcelo Haggi Andreotti citou suspeitas de que a Itajobi esteja sob influência de uma organização criminosa e de que sua administração tenha sido repassada a Primo.
O magistrado também mencionou uma ação que envolve 54 empresas, fundos e usinas, entre elas a Itajobi, relacionada à cobrança de R$ 423,1 milhões em dívidas da Copape.
O juiz considerou que esses elementos justificavam manter a restrição nesta etapa, embora tenha reconhecido que ainda não se sabe exatamente a dimensão do envolvimento da usina nas possíveis irregularidades.
A decisão é provisória. A coluna não conseguiu localizar a defesa da Usina Itajobi.
Operação
A usina foi alvo de uma fase da Operação Carbono Oculto há um mês. Segundo os investigadores, ela foi utilizada para adquirir uma das principais distribuidoras de combustíveis do país, a Terrana.
Conforme mostrou o Metrópoles, os operadores, chefiados pelos empresários Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo, realizaram uma operação simulada de aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios da usina, mediante a transferência de cotas de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC).
Segundo a investigação, o dinheiro circulava entre estruturas do próprio grupo. A análise financeira mostrou que parte relevante dos valores destinados à compra das cotas do FIDC veio de fundos de investimento controlados pelos investigados.
Formalmente, porém, a titularidade da usina estava distribuída entre fundos de investimento e empresas aparentemente independentes, o que, segundo os investigadores, dava aparência de legitimidade ao esquema e ocultava os verdadeiros beneficiários.
Ainda de acordo com a investigação, a ocultação ocorreu em duas etapas, conduzidas por grupos de operadores do mercado financeiro e fintechs.

