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Manoela Alcântara

Diretora do BRB sobre ativos do Master: “Em condições normais não passaria”

Diretora apontou falta de garantias e viabilidade em projetos. PF vê pressão do então presidente do BRB para concluir troca de ativos

09/10/2026 19:03, atualizado 09/10/2026 19:14
KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografo
fachada do BRB

A diretora de Controle de Riscos do Banco de Brasília (BRB), Luana Ribeiro, alertou o então presidente do banco, Paulo Henrique Costa, de que ativos analisados para substituir outros em operações com o Banco Master não passariam por uma avaliação em condições normais.

As mensagens constam em um relatório da Polícia Federal (PF) no âmbito do inquérito do Caso Master, que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF).

A conversa ocorreu em 15 de julho de 2025, meses antes da liquidação do Master por decisão do Banco Central (BC).

Segundo os investigadores, os diálogos mostram pressão de Paulo Henrique sobre a diretora para viabilizar as substituições, apesar de problemas apontados pela área técnica, como falta de garantias e dúvidas sobre a viabilidade dos projetos.

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“Acredito que essa será a última semana do Master como conhecemos”, escreveu o então presidente do BRB. Na sequência, acrescentou: “Ou sai a aprovacao ou dará ruim por lá”.

O trecho não esclarece a qual aprovação Paulo Henrique se referia. Logo depois, ele cobrou: “Precisamos concluir as substituições”.

Luana respondeu que encaminharia a lista dos processos finalizados naquele dia e informou que a equipe havia concluído a análise de dois projetos, identificados como Cumbuco e Laguna.

Em seguida, PH pergunta: “Eles passam?”. “Em condições normais não passaria, mas por ser troca…”, respondeu a diretora. 

“Nao tem viabilidade do projeto, nem garantia e nao conseguimos atestar capacidade. Todos tem o Cesar Ligeiro”, prosseguiu a diretora.

Logo em seguida, Paulo Henrique questiona: “Luana, precisamos do plano de capital hoje. Não temos margem de tempo. Perdemos o prazo legal e o processo pode ser cancelado sumariamente. Você precisa liderar o seu processo, sentar com o Diego e resolver”, iniciou o dirigente do banco distrital.

“Não temos prazo para revisar tudo agora. Precisamos fazer o cálculo do PR e colocar na planilha. Ver o resultado e se passa. Depois disso, vamos revisar a exigência de capital. O prazo é hoje. Precisamos ser objetivos e direitos”, prosseguiu Paulo Henrique.

Luana, logo em seguida, respondeu: “Paulo, ele precisa entender o que tem lá”.

Ao explicar os problemas detalhados, a diretora explicou ao chefe que, sobre Cumbuco, os recursos haviam sido liberados em junho de 2023, mas que ainda faltavam o projeto e a licença ambiental. 

No caso de Laguna, relatou que o dinheiro também havia sido liberado em 2023 e que a expansão ainda não tinha sido realizada, embora o empreendimento existisse.

Para a PF, a conversa mostra que havia uma pressão para aprovar ativos com inconsistências relevantes. Os investigadores também apontam a adoção de critérios excepcionais em razão da necessidade de substituição, com possível flexibilização indevida dos parâmetros de risco.

O trecho do relatório não informa se os ativos discutidos foram efetivamente aprovados ou recebidos pelo BRB.

Outros alertas da área de riscos

O relatório também reúne mensagens de fevereiro de 2025 nas quais Luana demonstrou preocupação com o ritmo de aquisição de carteiras pelo BRB e com a emissão de um parecer.

“Chefe, fevereiro tá péssimo também”, escreveu Luana em 11 de fevereiro. Paulo Henrique, então, respondeu: “Não entendi”.

“De verdade, estou com muito receio de passar esse parecer”, afirmou a diretora. “O volume de carteira que compramos em janeiro estava previsto pra agosto”, prosseguiu a diretora, indicando que as compras haviam avançado além do planejamento.

“Se resolver janeiro, fevereiro requer um esforço bem menor”, respondeu Paulo Henrique. Em outra mensagem, acrescentou: “Amanhã vamos fazer uma operação de revenda de carteira com ágio e gerar resultado”.

Ao longo da conversa, mesmo diante das ressalvas da diretora, Paulo Henrique apresentou a estratégia para recompor o capital do banco e afirmou: “Para mim esse é o plano”.

Em outro diálogo, de 19 de fevereiro, o então presidente questionou a dificuldade da análise técnica e pediu a seleção de uma carteira que não estivesse gerando receita, consumisse capital e tivesse provisão elevada, ou seja, recursos reservados para possíveis perdas.

Segundo a PF, a operação discutida combinava venda de carteira, aquisição de outra com menor risco e uma compra adicional de até R$ 750 milhões. Os investigadores apontam pressão sobre a área técnica e antecipação de uma avaliação favorável antes da conclusão da análise.

Já em mensagens de 24 e 25 de julho, dias depois da discussão sobre Cumbuco e Laguna, Luana apresentou diferentes cenários de provisão para perdas em carteiras de crédito.

O cenário identificado pela área técnica como o mais compatível com os apontamentos do BC previa despesas de aproximadamente R$ 131 milhões. Paulo Henrique, porém, defendeu outro cenário, com despesas estimadas em R$ 84 milhões, uma diferença de R$ 47 milhões.

“Acredito que o cenário 3 é o mais adequado”, escreveu. Em outra mensagem, afirmou que o cenário 1 não refletia adequadamente as compras e que seria necessário observar o comportamento real para ajustar os modelos.

Ao rejeitar o cenário 4, Paulo Henrique argumentou que não fazia sentido dar o mesmo tratamento a um parcelamento de cartão e a um parcelamento consignado.

Luana informou que seguiria a orientação, mas manteve a ressalva: “Vou seguir com o 3, mas na minha opinião o 4 seria o mais adequado”.

Segundo a PF, o episódio sugere interferência na definição dos parâmetros de risco e provisão, com a prevalência da decisão da presidência sobre a avaliação técnica.