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Comunicação Periférica: arma de engajamento para transformação social
Diretor da Proativa Comunicação, Flávio Resende aborda a importância da modalidade para mostrar temas de interesse das comunidades
atualizado
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Promover transformação social, usando recursos que tornem a mensagem mais interessante e palatável para o público final, é a proposta da Comunicação Periférica, conhecida também como “Jornalismo das Periferias” ou “Jornalismo das Quebradas”. Trata-se da comunicação desenvolvida por indivíduos da própria periferia – não necessariamente profissionais de Comunicação – sobre questões que afetam, em cheio, as suas comunidades.
Normalmente, são pessoas que vivem o dia a dia desses espaços periféricos, compreendendo suas dores, necessidades e temas de interesse da coletividade. O diferencial é que acabam usando uma linguagem mais próxima desses públicos, formados prioritariamente por populações de baixa renda ou em situação de vulnerabilidade.
Em geral, os conteúdos produzidos acabam fomentando a necessidade de compreensão dos direitos dessas comunidades no que se refere à educação, cultura, saúde, meio ambiente, infância, equidades racial e de gênero, desenvolvimento comunitário, entre outros temas.
Nesse sentido, acaba dialogando muito com um outro conceito: o de Comunicação de Causas, que pode ser definida como o trabalho de posicionar um tema na agenda da sociedade, mobilizar os convertidos, conquistar os indiferentes e influenciar os tomadores de decisão. No fim das contas, o objetivo é mudar a realidade social, cultural, econômica e ambiental por meio da sensibilização do público e de mudanças nas políticas públicas. Na prática, é usar diferentes estratégias de comunicação para gerar mudanças positivas na sociedade.
Outra forma de enxergar a Comunicação de Causas é associando-a a ações de comunicação voltadas para o social, apoiadas por empresas como forma de dar concretude ao compromisso dessas organizações com a sociedade.
É nessa encruzilhada que a Comunicação de Causas encontra a Comunicação Periférica, ainda que ambas atuem quase sempre pelo mesmo objetivo: melhorar as condições de vida das famílias de baixa renda, principalmente as que vivem na periferia de grandes centros urbanos, cujos direitos são raramente garantidos.
Há bastante história e estudos acerca desse tema, que envolve jornais impressos, sites, fanzines e rádios comunitárias, mas o que é importante destacar aqui cabe em uma única palavra: resistência.
Isso porque essas iniciativas se mantêm vivas como resultado de muita luta, persistência e trabalho voluntário, sobretudo de jovens estudantes e profissionais experientes, que emprestam seus talentos para a transformação social e que acreditam que a comunicação é, fundamentalmente, um dos direitos humanos. Resumindo, são comunicadores com legitimidade para mobilizar.
Mantidos por editais de cultura de prefeituras, cada vez mais raros, além de anúncios, esses meios de comunicação, embora não contêm com muitos recursos, são produzidos, na maior parte das vezes, por grandes talentos que têm criatividade e dedicação para produzir conteúdos capazes de engajar e mobilizar as comunidades, com grande poder de transformação.
Os comunicadores da periferia conhecem os problemas sociais porque eles vivem o drama em seus cotidianos. São eles e suas comunidades que sofrem com a baixa qualidade da educação, com a falta de saneamento básico, de creches para que mães possam trabalhar, com falta de espaços culturais, com desemprego, racismo, homofobia e por aí vai.
Para uma comunicação efetiva, a mensagem é melhor assimilada se produzida por alguém que vive essa realidade, possui domínio do vocabulário local e que sente a necessidade de produzir sua própria narrativa.
Cada vez mais, acredito na comunicação transformadora, que informa, inspira, empodera e instrumentaliza o público para a tomada de decisão e, principalmente, para a ação. Afinal, atitude e empatia são tudo o que o mundo está precisando.
Flávio Resende é jornalista, diretor da Proativa Comunicação e especialista em Comunicação de Causas.
