Do roubo à fraude eletrônica: como a PCDF se reinventou para enfrentar uma nova epidemia

O crime mudou – e mudou de endereço. Hoje, o maior risco para o cidadão brasileiro não está no semáforo fechado, mas na tela do celular

atualizado

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Rafaela Felicciano/Metrópoles
Sede da PCDF
1 de 1 Sede da PCDF - Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

Nos anos 1990, crimes cinematográficos ocupavam as manchetes. O empresário Abílio Diniz e o publicitário Roberto Medina foram sequestrados por quadrilhas que agiam com violência e precisão. Assaltos a bancos dobravam de um ano para o outro na Grande São Paulo.

Brasília, em 1995, registrou um recorde histórico de nove ataques a agências bancárias.

Era um país refém de armas, cativeiros e confrontos.

Essa época não volta mais. O crime mudou – e mudou de endereço.

Hoje, o maior risco para o cidadão brasileiro não está no semáforo fechado, mas na tela do celular. Enquanto os roubos diminuem ano após ano, as fraudes eletrônicas explodem.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, em 2024 as Polícias Civis registraram 745 mil roubos (queda de 15,2%), mas 2,16 milhões de estelionatos, num salto de 7,8%. Nas fraudes praticadas por meios eletrônicos, o crescimento chega a 17%.

Entre 2018 e 2022, os golpes aumentaram 326%, tornando-se o crime de maior expansão no país.

O fenômeno tem uma lógica simples, descrita pela Teoria Econômica do Crime de Gary Becker: o criminoso calcula riscos e benefícios. Se o retorno é alto e a chance de punição é baixa, o crime se torna atraente. 

E é exatamente esse o cenário revelado pelo Anuário: apenas 2,4% dos estelionatos registrados chegam ao Judiciário. Quase todos morrem na fase policial. Para o autor, a punição é improvável; quando ocorre, muitas vezes se resume a devolver o prejuízo. É a equação perfeita para a expansão da fraude. É o crime que compensa.

O desafio: investigar fraudes como se fossem roubos não funciona

Delegacias especializadas em roubos a banco tendem a desaparecer; em seu lugar surgem as unidades de crimes cibernéticos. Mas a transição não é simples e as Polícias Civis ainda carregam modelos de atuação construídos na era dos sequestros e dos assaltos a bancos.

Fraudes eletrônicas se multiplicam com velocidade, atravessam Estados, usam contas-laranja, aplicativos, rastros digitais complexos e escondem autores que raramente tocam na cena do crime. Nesse cenário, a investigação tradicional – caso a caso – simplesmente não dá conta do volume.

É como tentar apagar vários incêndios espalhados pelo DF com um único balde d’água.

A virada da PCDF: investigar em lote, não em fila

Diante desse cenário, a PCDF adotou um plano estratégico que rompe com o modelo antigo. Em vez de investigar cada golpe isoladamente, a polícia passou a vincular ocorrências que compartilham o mesmo DNA digital: conexões de internet, contas bancárias, números telefônicos, rastros financeiros e outros vestígios cibernéticos.

É a investigação em lote – uma metodologia que agrupa dezenas ou centenas de casos conectados, permitindo atacar a estrutura criminosa e não apenas o efeito final sobre cada vítima.

O impacto é imediato. Em um teste de calibragem, a Divisão de Inteligência Policial (DIPO) partiu de uma única ocorrência registrada na 12ª DP e identificou 190 casos relacionados espalhados por várias delegacias. Todos apresentavam o mesmo conjunto de vestígios. Todos eram praticados por uma célula do Comando Vermelho atuando a partir do Mato Grosso.

No modelo antigo, esses 190 crimes seriam tratados como pequenos incidentes isolados – muitos jamais investigados; outros, investigados em paralelo, sem coordenação e com gasto redundante de recursos. No modelo novo, transformam-se em um único bloco investigativo, com alcance muito maior.

Outro teste da investigação em lote, indicou mais de 100 ocorrências policiais, registradas em diversas delegacias, que se uniam por vestígios eletrônicos e financeiros em comum. Por trás delas, uma única organização criminosa (Orcrim) sediada em um país no sudeste asiático.

Essa mudança na forma de investigar só foi possível graças ao investimento anual de cerca de R$ 3,5 milhões que a PCDF faz em soluções tecnológicas de análise de vínculos gerenciadas pela Agência Inteligência e ao alcance de todas as Delegacias.

Modernização real da investigação policial

A iniciativa da PCDF coloca em prática diretrizes da Lei Orgânica Nacional das Polícias Civis (Lei 14.735/2023), as quais determinam o uso intensivo de tecnologia e a atuação especializada para aumentar a eficiência da investigação criminal.

Em termos simples: é polícia do século XXI enfrentando crime do século XXI.

O modelo já apresenta resultados concretos: economia de recursos públicos, maior número de autores identificados e investigações mais robustas contra Orcrims que operam golpes em massa.

O que ainda falta

Apesar do avanço metodológico, há gargalos que ficam fora da esfera policial. Investigações que tratam da mesma organização criminosa ainda são desmembradas com frequência por definições de competência para processamento e julgamento baseadas no domicílio da vítima, local da lavagem de dinheiro ou sede da Orcrim.

Além disso, legislações ultrapassadas limitam a capacidade de resposta rápida das Polícias Civis.

O resultado é um sistema que modernizou a investigação, mas ainda processa e julga fraudes com lentes do século passado.

Um alerta necessário

A epidemia de fraude eletrônica está longe de acabar. Mas o caminho para enfrentá-la está mais claro. Quando investigação deixa de ser artesanal e passa a ser estratégica e tecnológica, o crime perde terreno.

A reinvenção da PCDF mostra que inteligência, tecnologia e método são armas tão importantes quanto viaturas e algemas. E, num país onde o golpe se reinventa a cada semana, não há outro caminho possível.

*André Santos é delegado da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), foi perito criminal da PCDF, é especialista em Perícia Criminal pela Universidade Católica de Brasília (UCB), bacharel em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), formado em Física pela Universidade de Brasília (UnB); atualmente exerce a função de diretor da Divisão de Inteligência Policial da PCDF.

*Maurílio Coelho é delegado de Polícia na Polícia Civil do Distrito Federal. Atualmente exerce o cargo de Coordenador de Inteligência. Especialista em Investigação Policial pela Universidade Católica de Brasília. Especialista em Inteligência Estratégica pela Escola Superior de Defesa. Mestre em Segurança e Defesa Hemisféricas, pelo Inter-American Defense College (EUA). Mestrando em Gestão Pública pela Universidade de Brasília (UnB).

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