Da arma de fogo ao crime virtual: os novos desafios da segurança pública

O enfrentamento ao crime contemporâneo exige que o Estado monitore, compreenda e se antecipe aos movimentos da criminalidade

atualizado

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1 de 1 Imagem de hacker em ação - Metrópoles - Foto: Seksan Mongkhonkhamsao/Getty Images

O crime acompanha a evolução social. À medida que as relações sociais, econômicas e comerciais migram para o ambiente digital, a criminalidade também se transforma. Se vivemos uma migração das relações humanas para o mundo virtual, seria ingênuo supor que o crime permaneceria restrito aos padrões do século passado.

Com a virtualização dos atos do cotidiano, tais como pagar contas, assinar documentos, trabalhar e estudar, os dados pessoais tornaram-se ativos valiosos, atraindo um padrão criminoso distinto, que se vale da engenharia social, de fragilidades tecnológicas e da exploração de grupos humanos mais vulneráveis.

Na prática, em muitos casos, a arma de fogo dá lugar ao crime virtual, praticado por meio da persuasão, do anonimato e da automação.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública corroboram essa percepção ao demonstrar que fraudes e estelionatos praticados no ambiente virtual apresentam crescimento contínuo e superior à média dos delitos patrimoniais tradicionais.

Esse movimento impõe um grande desafio ao Estado. Quando organizações criminosas operam em rede, atravessam fronteiras digitais e se sofisticam tecnologicamente, respostas baseadas exclusivamente em modelos reativos e fragmentados mostram-se ultrapassadas e, por consequência, ineficientes.

Estratégias

Nesse cenário, o enfrentamento ao crime contemporâneo exige que o Estado não apenas monitore, mas também compreenda e se antecipe aos movimentos da criminalidade.

Sob essa ótica, a modernização do aparato estatal deixa de ser uma conveniência e se consolida como um imperativo para a preservação da ordem pública e o fortalecimento da sensação de segurança da população.

É nesse contexto que a tecnologia se afirma como espinha dorsal das estratégias de segurança pública, por meio da utilização de soluções de Inteligência Artificial (IA) e da integração de grandes bases de dados (Big Data).

Tais ferramentas, contudo, somente produzem resultados consistentes quando inseridas em um ecossistema robusto, baseado em sistemas confiáveis e interoperáveis, capazes de viabilizar, por exemplo, a correlação de dados biométricos, registros criminais e informações operacionais.

No Distrito Federal, esse processo de transformação já está em curso. A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSPDF) vem avançando no desenvolvimento e na utilização de ferramentas inteligentes, como a leitura automática de placas (LPR) e o reconhecimento facial, permitindo a localização de pessoas desaparecidas e de indivíduos procurados pela Justiça.

A diretriz é criar um ambiente favorável ao desenvolvimento de soluções que auxiliem na análise dos fenômenos criminais, na melhor alocação dos recursos policiais e na melhoria da sensação de segurança da população. Trata-se de um modelo em que sensores, câmeras e sistemas de informação operam de forma integrada, viabilizando respostas mais rápidas e decisões mais qualificadas.

Automatização

Outro exemplo é a recente implementação de mensagens automáticas enviadas ao cidadão após o acionamento dos números de emergência 190 e 193, transformando uma simples chamada de voz em um fluxo estruturado de dados, com geolocalização precisa e maior nível de interação. O resultado é a redução do tempo de resposta e o aumento da eficiência no atendimento, com reflexos diretos na preservação de vidas.

Para os próximos anos, o desafio é desenvolver um projeto ambicioso, baseado no conceito de cidade inteligente, no qual a segurança pública atue como um de seus pilares.

O objetivo não se limita à integração das forças de segurança, mas envolve também a articulação com diversos órgãos governamentais, estruturando uma arquitetura moderna de proteção ao cidadão e posicionando o Distrito Federal na vanguarda da tecnologia da informação aplicada à segurança pública.

  • Thiago Frederico de Souza Costa é delegado da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), especialista em Altos Estudos em Defesa, pela Escola Superior de Guerra (ESG); em Direito Penal, pela Universidade Federal de Goiás; e em Gestão de Polícia Civil, pela Universidade Católica de Brasília e Academia de Polícia Civil do Distrito Federal; atualmente exerce a função de secretário-executivo de Gestão Integrada da Secretaria Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF)

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