Unhas naturais são apontadas como símbolo de status e geram debate
Reportagem da BBC que discutia a relação entre unhas naturais, classe e padrões de beleza gerou polêmica e foi retirada do ar
08/10/2026 02:00

O cuidado com as unhas e as chamadas nail arts, técnicas criativas de pintar, decorar e embelezar as unhas das mãos ou dos pés, viraram o centro de uma polêmica após a publicação, pela BBC, de uma reportagem que tratava a tendência das unhas naturais como uma questão de classe social.
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A reportagem que iniciou a polêmica
A emissora britânica BBC publicou a reportagem “Como a tendência das unhas nuas virou uma questão de classe” no fim de setembro. O texto tratava de um visual cada vez mais presente nas redes sociais, nas passarelas e nos tapetes vermelhos: unhas que parecem sem esmalte, mas cujos cuidados exigidos podem superar a técnica de esmaltação comum.

A reportagem destacava que a nail art tem raízes históricas em comunidades negras, latinas e asiáticas, e discutia se tratar a unha “natural” como sinal de status poderia estigmatizar manicures mais elaboradas.
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A frase que provocou o debate veio da jornalista de beleza Kristina Rodulfo. Segundo ela, termos como “elegante” e “de bom gosto”, usados para descrever esse visual mais “natural”, costumam ser eufemismos que reforçam padrões de beleza da supremacia branca.

Em seguida, outros veículos acusaram a BBC de politizar a beleza. A escritora Alexandra Wilson classificou a pauta como absurda, enquanto a colunista Celia Walden, do Telegraph, criticou a ideia de ser chamada de racista por não pintar as unhas. A BBC retirou a reportagem do ar e, segundo esses veículos, decidiu não republicá-la após uma revisão editorial apontar falta de contexto e de escrutínio sobre as críticas apresentadas.
Embora a associação feita entre a escolha estética e o racismo seja simplista, dizer que a discussão não é válida também ignora o que a própria imprensa de moda vem escrevendo sobre o tema.

A Marie Claire dos EUA aponta que as unhas “sem esmalte” viraram símbolo de status dentro da lógica do quiet luxury e do old money, com celebridades trocando manicures elaboradas e unhas longas por unhas curtas e nuas. A lógica é que com a popularização de técnicas de manicure, a unha “quase nua” se torna o luxo máximo.
Figuras influentes também aderiram à tendência. Hailey Bieber e Kylie Jenner apostaram em unhas nude, enquanto Kendall Jenner, Irina Shayk e Margot Robbie apareceram com as unhas aparentemente naturais no Met Gala deste ano.
Mulheres negras e latinas desafiaram padrões com unhas elaboradas
Quando o discurso da moda associa sofisticação ao minimalismo, escolhas mais elaboradas podem acabar sendo vistas como excesso. Nos Estados Unidos, esse julgamento tem um histórico racializado: por décadas, unhas longas e decoradas, comuns entre mulheres negras e latinas, foram classificadas como “ghetto”, cafonas ou pouco profissionais. Nos anos 1990, artistas como Florence Griffith-Joyner (Flo-Jo), Missy Elliott e Lil’ Kim ajudaram a popularizar esse estilo, que também foi alvo desse tipo de estigmatização.

Nos anos 1960 e 1970, unhas curtas rosa ou nude eram mais comuns entre mulheres brancas de classe média, enquanto mulheres negras experimentavam cor, comprimento e adornos como forma de expressão. Segundo alguns autores, unhas postiças chegaram a ser lidas como sinal de classe baixa, e que o estilo só virou tendência por volta de 2012, com o impulso das redes sociais e a apropriação por mulheres de outras classes e cores de pele.

A crítica levantada pela BBC, portanto, parece estar menos relacionada à estética das unhas em si e mais ao questionamento sobre quem define o que é considerado elegante na moda e até que ponto essas classificações carregam preconceitos. A discussão ganha outra dimensão quando se considera que as unhas também são uma forma de expressão e identificação para diferentes grupos.














