Ronaldo Fraga se inspira em Portinari e faz desfile contra o ódio
O show emocionante do estilista mineiro encerrou o quinto dia do São Paulo Fashion Week N47, nessa sexta-feira (26/04/2019)

“Se Portinari pintasse a obra ‘Guerra e Paz’ nos dias de hoje, quais símbolos ele usaria?”, questionou o estilista Ronaldo Fraga no desfile que encerrou o penúltimo dia do São Paulo Fashion Week N47. Nessa sexta-feira (26/04/19), o designer mineiro preparou um show baseado na obra do pintor brasileiro, em tom de crítica ao discurso de ódio que permeia o país atualmente.
Violência contra minorias, desigualdade social, assassinato de Marielle Franco e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) estão entre os temas incluídos no contexto da apresentação e também nos looks exibidos na passarela.
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Nos murais originais de Portinari (1903-1962), a guerra é representada por meio da fome de retirantes nordestinos, mortalidade infantil e opressão dos políticos. Por outro lado, brincadeiras de crianças, cirandas e música simbolizam a paz. No desfile, Ronaldo Fraga materializou essas metáforas na forma de capacetes cheios de referências.
Criados por Marcos Costa, os adereços foram customizados com símbolos para passar uma reflexão social: bandeiras LGBT rasgadas, cabeças de animais, livros ensanguentados e armas atirando flores, além de pombas brancas. Para o estilista, todos os detalhes são elementos que o pintor levaria aos seus quadros nos dias de hoje.
O protesto também apareceu nos bordados e nas estampas das roupas: índios crucificados como Jesus Cristo, brinquedos destruídos e o rosto da ativista Marielle Franco desenhado em fios soltos. Para dar um contraste entre intensidade e sensibilidade às peças, o estilista empregou cores vibrantes e detalhes artesanais delicados.
Além dos acessórios artísticos, o crochê, os sapatos com solado de madeira e as matérias-primas dão um charme bastante brasileiro à coleção. “A fibra natural está ali, a textura de sacaria, a cultura do café. Você tem o linho, a seda, o algodão, tem uma coisa que parece um paetê e é plástico, [com a qual] foi feito um origami”, disse em entrevista coletiva.
Ronaldo Fraga adiantou ainda que, no dia 15 de maio, abrirá uma exposição nos Estados Unidos com a coleção Guerra e Paz.








Além de produzir as cabeças, Marcos Costa cuidou da beleza do desfile. Para a boca dos modelos, optou por um batom vermelho borrado, que conversa com o detalhe do sangue nos capacetes. A pele ganhou um pouco de óleo para dar brilho.



A passarela incluiu outra simbologia: um tapete de grãos de café. Além dos painéis expostos na Organização das Nações Unidas (ONU) e produzidos entre 1955 e 1956, Portinari costumava retratar a escravidão e o trabalho pesado dos negros no cultivo do fruto cafeeiro.
Para somar à emoção, a passarela foi embalada pelo som do grupo A Quatro Vozes. O projeto musical é formado pelas irmãs Jussara, Jurema e Doralice Otaviano, acompanhadas pelos instrumentistas do Trio Motim.
Esta não foi a primeira vez que Candido Portinari inspirou o trabalho do designer: em 2014, Ronaldo Fraga criou uma coleção baseada no processo criativo do pintor.

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Colaboraram Hebert Madeira e Rebeca Ligabue




