John Galliano: relembre polêmicas do estilista que será tema do Met
John Galliano é homenageado pelo Met apesar dos ataques antissemitas de 2011 e se torna o 3º estilista vivo a ganhar uma exposição no museu

O Costume Institute do Metropolitan Museum of Art anunciou, em 31 de julho, que a exposição de 2027 será dedicada a John Galliano. Sob o título “John Galliano: Horizons”, o britânico se torna o terceiro estilista vivo a ganhar uma mostra individual na instituição, depois de Yves Saint Laurent (1983) e Rei Kawakubo (2017). Contudo, o anúncio gerou controvérsias em torno da celebração da genialidade de um criador que carrega um histórico de declarações antissemitas e racistas.
Vem entender!

O gênio antes da queda
Antes de se tornar sinônimo de escândalo, Galliano era sinônimo de espetáculo. Filho de um encanador gibraltino e de uma professora espanhola de flamenco, cresceu no sul de Londres cercado pelo gosto da mãe pela teatralidade e pelos vestidos. Segundo o próprio estilista relatou em entrevistas, essa convivência moldou sua estética desde cedo.
Sua coleção de formatura na Central Saint Martins, inspirada no hedonismo do período pós-Reinado do Terror francês, foi comprada integralmente pela loja Browns antes mesmo de sua graduação — um feito raro para um estudante.
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A partir daí, com o apoio de Anna Wintour, Galliano se firmou em Paris ao longo dos anos 1990 e foi nomeado diretor criativo da Givenchy, tornando-se o primeiro estilista britânico a comandar uma grande casa de alta-costura francesa. Permaneceu pouco mais de um ano na maison, período que funcionou como uma espécie de prova de conceito, suficiente para que a LVMH o realocasse para a Dior, em 1996, consolidando a fase mais celebrada de sua carreira.

À frente da Dior, onde permaneceu até 2011, Galliano transformava os desfiles em verdadeiros espetáculos. Em sua primeira temporada de alta-costura pela maison, apresentou uma proposta então revolucionária: uma coleção unissex, décadas antes de o conceito se tornar uma tendência de mercado. O estilista fundiu referências do militarismo napoleônico, do imaginário vitoriano e da cultura indiana à estética dos clubes londrinos dos anos 1980. Também é dele a criação da Dior Saddle Bag, uma das bolsas mais icônicas do mercado de luxo, popularizada por Carrie Bradshaw em Sex and the City.

2011: o início da queda
Por trás da teatralidade dos desfiles da Dior, no entanto, havia uma rotina de trabalho brutal. Relatos de colaboradores e o panorama da carreira do estilista apresentado no documentário Ascensão e Queda — John Galliano (2023) detalham noites inteiras no ateliê, com Galliano e seu braço direito, Steven Robinson, revisando looks até a exaustão antes de cada coleção.

Foi nesse contexto de privação de sono e pressão constante que Galliano começou a recorrer a diferentes substâncias para se manter de pé e também mergulhou no consumo excessivo de álcool, hábito que se tornaria recorrente ao longo dos anos seguintes. A morte de Robinson, em 2007, é apontada por muitos como o momento em que esse equilíbrio já frágil começou a desmoronar de vez, contribuindo para o estado em que Galliano se encontrava em 2011.

O ponto de ruptura ocorreu poucos dias antes da Semana de Moda de Paris, quando Galliano foi filmado no café La Perle proferindo a frase “Adoro Hitler” e dirigindo insultos antissemitas e racistas a um casal que estava próximo. O estilista foi demitido da Dior em março de 2011 e, naquele mesmo ano, condenado por insultos públicos baseados em origem, religião, raça ou etnia. A Justiça francesa rejeitou o argumento de que ele estaria emocionalmente fragilizado pela morte do amigo.

Reabilitação
Dois anos depois, em 2013, Anna Wintour foi responsável por emplacá-lo em uma residência temporária no ateliê de Oscar de la Renta. Já em 2014, Galliano assumiu a direção criativa da Maison Margiela, onde permaneceu por dez anos e voltou a ser aclamado pela crítica de moda por seus desfiles teatrais, que remetiam às criações apresentadas durante sua passagem pela Dior. Em 2026, o britânico firmou uma parceria criativa de dois anos com a varejista espanhola Zara.

Homenagem pelo Met
Antes de bater o martelo sobre o tema da exposição do Met Gala 2027, Anna Wintour e o curador Andrew Bolton consultaram lideranças judaicas, incluindo a Anti-Defamation League e a Union for Reform Judaism. As instituições deram aval ao projeto após reuniões diretas com o próprio Galliano ao longo do último ano. O museu garante que a mostra não vai romantizar a biografia do estilista: haverá uma seção dedicada ao episódio de 2011, e o curador afirmou que a exposição tratará de como o mérito artístico deve ser analisado ao lado da responsabilidade ética.

A escolha rapidamente causou comoção nas redes, com parte do público apontando um “timing ruim”, diante do aumento de episódios de antissemitismo na Europa e nos EUA. No debate, internautas questionam se é justo conceder a Galliano o mesmo tipo de honraria reservada a Saint Laurent e Kawakubo, os únicos outros estilistas homenageados pelo Met ainda em vida.

A jornalista Dana Thomas, em publicação no The New York Times, resgatou um histórico de comportamentos problemáticos que, segundo ela, foi ignorado pela imprensa de moda. Entre os episódios citados está a expulsão de Galliano do hotel Ritz, em Londres, depois de se despir dentro de um elevador e rosnar para os hóspedes, afirmando ser um “leão”.
Como o Met escolhe quem homenagear
Além de toda a controvérsia gerada pela homenagem a Galliano, outro ponto levantado é até que ponto a decisão do Met se baseia em critérios relevantes para a moda, a história, a cultura e a sociedade ou se existem influências comerciais por trás da curadoria. O Met Gala é, antes de tudo, um evento beneficente que financia a exposição do Costume Institute, departamento de moda do Metropolitan Museum of Art, e ajuda a levá-la às manchetes.

Desde 2006, Andrew Bolton é responsável pela curadoria do evento. Conhecido por costurar narrativas amplas sobre tempo, sustentabilidade, morte e arte, Bolton busca captar o espírito de cada época e transformá-lo em um tema relevante para o público contemporâneo do museu.

Historicamente, a maioria das exposições é temática, como Camp, Sleeping Beauties ou, neste ano, Costume Art, ou dedicada a estilistas já falecidos. Dedicar uma mostra a um criador vivo é uma decisão rara justamente porque expõe o museu a outro tipo de risco: quando o homenageado já morreu, a instituição lida com seu legado; quando está vivo, também precisa lidar com sua reputação em tempo real.

O Met ainda não revelou os patrocinadores da edição de 2027, e alguns já questionam se as marcas vão querer se associar a Galliano. A Zara já é um dos nomes cogitados: a parceria de dois anos firmada com o estilista em março estreou no tapete vermelho do evento em 2026, com Stevie Nicks vestindo a primeira peça da colaboração. O movimento faz parte da estratégia da Inditex para sofisticar a imagem da varejista e ajudou a normalizar o retorno de Galliano um ano antes de ele se tornar tema oficial da mostra.


Separação entre artista e obra
A polêmica também expõe um problema maior da indústria cultural. A linha entre “artista imperdoável” e “artista redimido” nunca foi consistente, mas costuma acompanhar o quanto o mercado ainda depende daquele talento. Chris Brown é um paralelo fora da moda: após agredir Rihanna em 2009, foi condenado e passou anos sob forte desconfiança pública, mas continuou lançando álbuns e manteve uma base de fãs fiel o suficiente para lotar estádios. Nos dois casos, houve um período de pausa, silêncio estratégico e, posteriormente, reentrada no mercado.

A diferença é que, no caso do Met, a homenagem será acompanhada de uma abordagem institucional sobre as controvérsias envolvendo o estilista. A decisão coloca em debate como a instituição pretende conciliar o reconhecimento de sua contribuição para a moda com a responsabilidade de abordar seu histórico de declarações antissemitas e racistas.

Um baile que vem gerando polêmicas
O Met Gala também tem sido alvo de polêmicas recentes. Em maio deste ano, a edição de 2026 foi parcialmente ofuscada por um boicote motivado pelo patrocínio de Jeff Bezos e Lauren Sánchez Bezos. A reação se manifestou por meio de cartazes e projeções espalhados pelo entorno do museu, que pediam o boicote ao evento e associavam a Amazon ao financiamento de tecnologias utilizadas pelo ICE, a agência de imigração dos Estados Unidos, além de fazerem críticas às condições de trabalho na empresa.

O padrão observado nos dois episódios é a associação entre decisões relacionadas ao Met Gala e controvérsias que acabam integrando a repercussão do evento. A escolha de Galliano, por sua vez, amplia o debate sobre como o Met pretende conciliar o reconhecimento de sua contribuição para a moda com a abordagem de seu histórico controverso.





















