Por Ilca Maria Estevão, Rebeca Ligabue, Hebert Madeira e Sabrina Pessoa

Brasileiros acusam grife Alexander McQueen de apropriação cultural

Roupas recentes da marca britânica têm detalhes semelhantes às xilogravuras da literatura de cordel, tradição no Nordeste

atualizado 31/05/2021 15:42

Alexander McQueen vestido do PreFW21 femininoChloé Le Drezen/Alexander McQueen/Divulgação

Na última semana, brasileiros acusaram a grife Alexander McQueen de fazer apropriação cultural em estampas e bordados semelhantes às xilogravuras típicas da literatura de cordel. Depois que a marca britânica divulgou um vestido estampado em seu perfil no Instagram, o post recebeu diversas críticas nos comentários, apontando a suposta cópia. Trazido pelos portugueses, o cordel é uma grande expressão popular da cultura brasileira, principalmente no Nordeste, com reconhecimento internacional.

Vem entender o caso!

Gyfcat/Reprodução

Supostas referências ao cordel

O vestido que mais gerou controvérsia no Instagram é um modelo branco com estampas pretas que lembram xilogravuras. A peça faz parte da coleção feminina de pre-autumn/winter 2021, revelada na primeira metade de maio. As principais críticas acusam a marca de apropriação cultural e cobram créditos sobre a suposta referência à cultura nordestina. Na legenda, não há menção ao Brasil ou ao cordel, detalhe que intrigou brasileiros.

A grife descreve as estampas do vestido branco como “London seals”, ou “selos de Londres”, e diz que foram feitas com uma técnica que usa corte em papel chamada papercut. Um vestido azul, da mesma coleção, apresenta bordados com essa pegada, assim como itens da coleção masculina de outono/inverno 2021.

Em alguns comentários, usuários do Instagram afirmam que os desenhos se assemelham ao trabalho do cordelista pernambucano J. Borges. A equipe do Memorial J. Borges informou à coluna que plágios do trabalho do artista são frequentes, mas não identificaram cópias nas peças da Alexander McQueen. A coluna também procurou a grife britânica para obter um posicionamento sobre o assunto, por e-mail, mas não obteve resposta até a última atualização deste texto.

Vale destacar que a marca já havia trabalhado com grafismos semelhantes à técnica papercut em linhas passadas, como mencionou o portal FFW. Inclusive, usando alguns elementos que aparecem nas peças mais recentes, a exemplo dos pássaros e corações. Segundo o site, o professor Francisco Maringelli, especialista em xilogravura, apontou que as figuras abordadas pela McQueen não parecem ser os elementos típicos do cordel brasileiro, apesar da similaridade.

Além disso, mesmo que o Brasil tenha um reconhecimento internacional pelo uso da técnica milenar, não é o único país a utilizá-la de maneira histórica. Ela também aparece na história do Japão e na Europa, a exemplo da Alemanha e França, como complementou o FFW.

Alexander McQueen vestido do PreFW21 feminino
No Instagram da Alexander McQueen, brasileiros apontaram as estampas desse vestido como apropriação cultural das xilogravuras do cordel

 

Captura de tela do Instagram
A publicação tem mais de 1 mil comentários comentários, incluindo diversas acusações de apropriação

 

Captura de tela do Instagram
Algumas pessoas elogiaram a suposta referência e viram como homenagem, mas a maioria dos comentários de brasileiros trazia críticas

 

Alexander McQueen vestido do PreFW21 feminino
Os bordados deste modelo em azul seguem a mesma estética da estamparia do outro vestido. Também foram alvos de críticas

 

Captura de tela do Instagram
Entre as reclamações, pedidos para os “devidos créditos” sobre a inspiração. Na legenda, a marca se referiu aos detalhes como referências a selos de Londres

 

Homenagem ou apropriação cultural?

Em uma reportagem do jornal Nexo, o antropólogo Rodney William definiu a apropriação cultural como “um mecanismo de opressão por meio do qual um grupo dominante se apodera de uma cultura inferiorizada, esvaziando de significados suas produções, costumes, tradições e demais elementos”. Dessa forma, esse processo funciona como uma estratégia de dominação, como explicou o doutor em ciências sociais e autor de um livro dedicado ao assunto.

Ao saber dos comentários a respeito da Alexander McQueen, o jornalista de moda Rener Oliveira, de Natal (RN), publicou um texto para abrir o diálogo sobre a linha tênue entre homenagem e apropriação cultural. Apesar de ter notado similaridades entre os detalhes da grife e a estética do cordel, como disse à coluna, acredita que é preciso investigar a origem das referências para afirmar se houve apropriação.

“A história da xilogravura vai muito além do Nordeste e precisamos entender bem de onde surgiu essa ideia, quais são os símbolos por trás”, recomenda. Para o comunicador, as marcas podem fazer homenagens tendo transparência. Como? Contando a história das referências e mostrando quem são os artistas por trás de determinado desenho, além de apoiá-los financeiramente. “A liberdade financeira é muito importante para que esses movimentos continuem em crescimento e atingindo mais pessoas”, defende.

Veja outras peças recentes da Alexander McQueen com detalhes similares aos que foram criticados no Instagram:

Alexander McQueen vestido do PreFW21 feminino
Detalhes semelhantes às xilogravuras do cordel, apontadas como supostas referências por brasileiros, aparecem em outras peças recentes da marca

 

Alexander McQueen FW21 RTW masculino
Este look é da coleção outono/inverno 2021 masculina

 

Alexander McQueen FW21 RTW masculino
Neste, é possível notar o mesmo pássaro que aparece nas peças acima

 

Alexander McQueen FW21 RTW masculino
O detalhe decora este suéter, por exemplo…

 

Alexander McQueen FW21 RTW masculino
E também o bordado deste casaco de alfaiataria

 

Outro caso

Em 2020, a grife italiana Prada também foi acusada de olhar para a cultura nordestina sem dar créditos, ao lançar sandálias de couro semelhantes a modelos comercializados por artesãos e feiras da região. A literatura de cordel, mencionada nas críticas contra McQueen, traz poemas ilustrados com xilogravuras. De maneira simples, as rimas abordam costumes regionais e histórias do folclore popular. Em 2018, o gênero literário foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Colaborou Hebert Madeira

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