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Após polêmica, Prada relança sandálias em parceria com a Índia
Acusada de apropriação cultural, a Prada agora foca na produção local das sandálias inspiradas na moda indiana
atualizado
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Em junho deste ano, o desfile masculino de primavera/verão da marca Prada repercutiu de forma negativa nas redes devido ao uso de sandálias inspiradas nas Kolhapuri chappals, calçado da cultura indiana de fabricação artesanal. Mesmo com a polêmica, a grife fará o relançamento, mas agora em conjunto com os governos locais dos estados Maharashtra e Karnataka, onde a peça original é tradicionalmente feita.
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A decisão ocorreu após as negociações do Fórum Empresarial Itália-Índia 2025, ocorrido no dia 11 de dezembro. A partir desse momento, ficou acordado que as sandálias Kolhapuri vendidas pela Prada serão produzidas na Índia e farão parte de uma linha limitada de calçados que contará com apenas 2000 pares.
A Prada destacou que esse trabalho faz parte de um novo capítulo do projeto Made In, uma iniciativa da marca que surgiu em 2010 e busca reviver técnicas de fabricação local e artesanal em vários países do mundo. Assim, a colaboração se chamará Prada Made in India – Inspired by Kolhapuri Chappals.

Além disso, o ministro de Justiça Social de Maharashtra, Sanjay Shirsat, afirmou que Prada fornecerá um treinamento especial para artesãos locais, enquanto cerca de 200 deles receberão um treinamento de três anos na Itália.
O lançamento da coleção está previsto para fevereiro de 2026, on-line e em quarenta lojas Prada pelo mundo. O par de sandálias deve ser vendido por US$ 939, o equivalente a mais de R$ 5 mil.

O desfile polêmico
Em 22 de junho de 2025, o desfile da coleção masculina de primavera/verão 2026 da grife italiana Prada provocou reações negativas na internet, com internautas afirmando que a marca estaria se apropriando indiscriminadamente de sandálias tradicionais da cultura indiana.
O calçado em questão era de couro no estilo rasteira, com uma tira em formato de T, muito semelhante às Kolhapuri chappals produzidas na Índia. No desfile, as sandálias foram creditadas apenas como calçados de couro, sem menção a sua origem de fato. Posteriormente, a marca reconheceu a inspiração indiana no design das mesmas.

As Kolhapuri chappals têm sua origem do século XII e receberam esse nome em homenagem à cidade onde são fabricadas. Sua importância cultural é tão grande que receberam a Indicação Geográfica Protegida, uma forma de preservar o processo de fabricação e autenticidade. Confira mais imagens da peça apresentada pela Prada:
A linha tênue entre inspiração e apropriação
A polêmica da Prada não é um caso isolado da indústria da moda. Em agosto de 2025, a marca das irmãs Mary-Kate e Ashley Olsen, a The Row, lançou um chinelo muito semelhante às Havaianas do Brasil. Intituladas Dune Sandal, o calçado logo adquiriu o status de luxo, tornando-se o item mais cobiçado de 2025, de acordo com a Lyst Index.
Não demorou para que a internet acusasse as irmãs Olsen de plágio. As críticas também giraram em torno do valor da peça, que custa cerca de R$ 5000, enquanto que uma Havaianas custa por volta de R$ 70.

A história é muito semelhante com o que ocorreu com as sandálias indianas, embora nem a Havaianas nem entidades brasileiras tenham se pronunciado sobre essa situação. No fim, ambos os casos demonstram como marcas de luxo ainda acreditam que têm o domínio sobre as criações, mesmo que essas não sejam totalmente autorais. Além disso, mostra que a prática de apropriar designs de países em desenvolvimento ainda é algo rotineiro na indústria.
A relação conturbada entre o Ocidente e o Oriente
O episódio ocorrido entre a grife italiana e as acusações de apropriação cultural revelam uma face da moda que tem se mostrado cada vez mais nos últimos anos: a conturbada relação entre o Ocidente e o Oriente.
Nos últimos anos, países como China, Japão, Coreia do Sul e Índia passaram a se destacar na mídia e principalmente no meio da moda, não só como consumidores, mas também como criadores de tendências. Sendo assim, marcas relevantes globalmente começaram a prestar atenção nessa parte do mundo, não apenas como um público que gera capital, mas que pode influenciar com novas modelagens e ideias inovadoras.
Um exemplo disso é a marca de peças esportivas Adidas, que lançou uma coleção exclusiva para o mercado chinês. Nela, as peças tem como inspiração as vestes tradicionais chinesas, combinadas com a estética tradicional da Adidas.

No caso da Prada, essa aproximação com o Oriente não se deu de formas tão positivas. A falta de comunicação e o preconceito ainda são barreiras que impedem que essa relação se consolide. Entretanto, da mesma forma que a polêmica impulsionou as vendas das sandálias feitas pelos artesãos indianos, o novo lançamento tem o potencial de alavancar cada vez mais o tradicional mercado de roupas e acessórios artesanais da Índia.

















