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Na 1ª entrevista após a cadeia, Sergio Cabral confessa. Chora. E acusa

Solto há menos de três meses, Sergio Cabral escrutina sua delação premiada, faz acusações, revela mágoas e confessa corrupção

atualizado

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Reprodução/Metrópoles
O ex-governador Sergio Cabral durante entrevista concedida em seu apartamento, no Rio de Janeiro
1 de 1 O ex-governador Sergio Cabral durante entrevista concedida em seu apartamento, no Rio de Janeiro - Foto: Reprodução/Metrópoles

Depois de seis anos e um mês preso, o ex-governador Sergio Cabral quebrou o silêncio e recebeu a coluna para uma entrevista no apartamento em que está vivendo na Praia de Copacabana há pouco mais de dois meses, desde que foi provisoriamente solto, em 19 de dezembro do ano passado. Clique aqui para assistir a íntegra da entrevista.

Neste domingo (5/3), numa edição especial, a coluna vai mostrar as principais partes da entrevista daquele que, segundo condenações da Justiça – nenhuma delas ainda definitivamente julgada – foi um dos políticos mais corruptos da história do Brasil.

Uma corrupção que o ex-governador tenta negar, chamar de outros nomes, enquadrar com cores mais suaves.

Cabral fez acusações, em especial a quem considera seus algozes: o juiz Marcelo Bretas, os procuradores da República que o investigaram, a imprensa, e policiais federais. Dizendo-se perseguido, também não comprovou como isso teria, de fato, acontecido.

Na entrevista, Cabral também escrutina trechos da sua colaboração premiada, fechada com a PF em 2019 e anulada em maio de 2021 pelo Supremo Tribunal Federal. Nela, ele havia delatado supostos crimes de figuras poderosas, como o ex-presidente do STF Dias Toffoli, e o atual presidente do TCU, Bruno Dantas.

Cabral também revelou mágoas: entre elas de seu sucessor, Pezão, e do atual prefeito, Eduardo Paes, que foram seu principais aliados no passado. A Lula mandou um recado.

E chorou. Chorou muito. Sim. Sergio Cabral Filho, embora até admita que errou, se vê como uma vítima.

Leia ou assista a trechos abaixo. Ainda neste domingo, a coluna publicará a íntegra em vídeo. 

Cabral admite corrupção, mas…

Você presidiu a Assembleia do Rio (Alerj), antes de ser governador. Havia rachadinha na Alerj naquele tempo?

Eu nunca pratiquei mesmo, nunca soube. Desse mundo aí eu nunca participei. Com 70 deputados estaduais, você tem ali o extrato da sociedade. Se aquele ou outro deputado faz algum esquema de dividir dinheiro, é um problema dele. Na presidência, nunca fiz. E já vou avançar. Eu nunca superfaturei. Quero dizer aqui para as câmeras que eu nunca superfaturei. Os próprios delatores da Odebrecht, da Andrade Gutierrez, da Carioca Engenharia… Quem resolveu falar nunca disse que eu superfaturei.

Eu queria entender por que você insiste em enfatizar isso?

Porque isso… Cadê a corrupção, se eu não superfaturei nada? Eu usei caixa 2.

Mas caixa 2 não é corrupção?

É um tipo de corrupção, mas não é corrupção de superfaturar contrato.

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Você está dizendo que moralmente há uma diferença?

É óbvio que há. Se eu faço uma licitação, eu não chego para você e digo: “Quero 3%”, como foi dito. Se ele está dizendo que eu tive 3% foi da empreiteira. Certamente foi o que eu usei em campanhas eleitorais.

Esses 3% a empreiteira tirou do faturamento dela e não era superfaturamento, a empreiteira abatia da margem de lucro e passava para caixa 2 seu?

Vou te dar um exemplo prático. É número, não é adjetivo, é puro substantivo, pura informação. 16 quilômetros de metrô. O Rio de Janeiro tem 40 e poucos quilômetros de metrô. Quase a metade foi feita por mim. Fiz a Estação Uruguai, a General Osório, a Nossa Senhora da Paz, a estação Antero de Quental, que a esquerda tola, ligada ao senhor Freixo, caiu na esparrela na campanha de 2022, de dizer que era pobre de… para rico. Ela não sabe que a empregada da gente pega o metrô, que o porteiro pega o metrô. E eu tive o absurdo de ouvir de uma presidente de associação de moradores pró-melhoramento de Ipanema: “Já que o senhor vai fazer o metrô em Ipanema, pelo menos fecha no final de semana”. Eu fiquei olhando para a cara da mulher e falei: “A senhora em Paris ou em Nova York quando pega um metrô e sai na Upper East Side gosta de chegar num domingo lá, né?”.

Mas voltando ao superfaturamento.

Então, voltando, eu gastei R$ 9,5 bilhões no metrô, são 16 quilômetros. Tem uns técnicos doidos do Tribunal de Contas que falam que eu superfaturei R$ 2 bilhões. O governo de São Paulo está fazendo a linha seis do metrô, que são 16 quilômetros. Custa R$ 15 bilhões. Não estou afirmando que o João [Doria], o Tarcísio [de Freitas], superfaturou. Só estou dando os números. E aqui o terreno é arenoso, é entre lagoa e mar. Tivemos que botar o tatuzão para envelopar o troço. Então, superfaturamento, nunca houve. Agora, houve, sim, recursos usados indevidamente por mim, eu reconheço, para as campanhas eleitorais e sobras de campanha.

Mas não foi só campanha eleitoral e sobra de campanha. A partir do momento em que você compra joia com dinheiro de caixa 2…

Sobra de campanha, caixa 2, é.

Mas a joia é para ser usada por você, não é para ser usada em campanha.

Mas eu reconheço que eu fiz uso desse dinheiro.

Para enriquecimento ilícito.

Para benefício pessoal. Era benefício pessoal, era base de campanha, sobrava um dinheiro, eu usava para um benefício pessoal, mas não era no superfaturamento, era caixa 2.

Eu entendo. Do ponto de vista criminal não muda, mas moralmente eu entendo seu entendimento.

Do ponto de vista criminal muda também, muito.

Os procuradores dizem o seguinte: o crime, houve. Se o dinheiro que…

Os procuradores fizeram comigo algo que não fizeram com ninguém na Lava Jato. Foram mais de 700 presos na Lava Jato, em Curitiba e no Rio de Janeiro. O que a 7ª Vara e os procuradores fizeram comigo não foi feito com ninguém. Levanta os processos e você vai ver assim: ‘Fulano de tal tem um processo em que ele responde a situações de três, quatro companhias diferentes’. No meu caso não, eles fatiaram em 35 processos. E a 7ª Vara ficou a preventa do mundo. ‘Vi um problema aqui ligado ao fulaninho ligado ao Sergio’. É na 7ª Vara. E foram dividindo os processos de tal maneira que você inviabiliza a defesa. Não quero citar nome, mas pegavam um político importante do Rio, ele respondia no mesmo processo a seis circunstâncias diferentes. E 12 anos de prisão. Eu ganhei 400 anos desse cidadão.

Por que você considera que isso aconteceu?

Por conta da possibilidade de cidadão que fez um concurso público para ser juiz, ia ser mais um juiz em 10 mil juízes no Brasil, ganhar uns 15 minutos de fama que o Andy Warhol disse que todo mundo tem direito. Não sei se eram 15 ou três minutos.

“Vítima de Marcelo Bretas”

O que você achou da decisão que o CNJ tomou nesta semana para afastar o Marcelo Bretas?

Olha, eu sou vítima desse processo. O advogado Nythalmar Dias Ferreira Filho me chantageou em nome do Bretas. Fui obrigado a entregar um documento para ele de devolução de patrimônio meu e da Adriana. Pedi à Adriana, que estava em casa, em prisão domiciliar e sem comunicação. Tive de fazer uma carta para ela, porque nós não nos víamos, era 2018. Ele foi lá, em nome do Bretas, no processo do Eike Batista, me chantagear. Estou falando isso pela primeira vez. Ele pediu um documento de devolução de patrimônio meu e da Adriana. Eu falei: “Meu, tudo bem. Agora, pedir o da Adriana?”. A Adriana divulgou para a Amil, para o Bradesco, para a TV Globo…

Ele foi lá se dizendo mandatado pelo Bretas?

Mandatado pelo Bretas. E voltou três vezes, dando todo o follow up do processo. “Ele não gostou desse documento, o Bretas, e te mandou fazer outro documento”, disse ele.

Mas o Bretas não pedia alguma vantagem por meio do Nythalmar. Ele queria que você…

Era uma extorsão de devolução de patrimônio. “Passa o patrimônio aí.”

Era uma extorsão do acordo.

Sim.

Como era a sua relação com Jorge Picciani, presidente da Assembleia e seu parceiro em diversos episódios? Em vários momentos a Lava Jato se referiu ao Picciani como chefe de alguns esquemas, você como o chefe de outros. Existia algum tipo de subordinação entre você e ele? Ele foi o chefe de algum esquema que você participou? Você foi o chefe de algum esquema que ele participou? 

Nada. A Lava Jato quis dar um caráter mafioso à política.

Mas não havia esse caráter? 

Claro que não. Em política, você não lidera com dinheiro. Se você liderar com dinheiro, você tem uma vida muito curta. Ou você é líder, ou você entende a complexidade da política, as contradições… Na política você é o instrumento de mudança da vida das pessoas. Você não muda a política, não é líder político na base da grana. Se fosse assim, todos os empresários…

Mas isso é política. Você comprar bens com dinheiro vindo de caixa dois, como você falou, não é política, é corrupção. Aí é crime. E nisso não tinha um esquema mafioso?

Eu nunca tive fazenda, não tive TV, nunca fiz patrimônio com dinheiro de corrupção. Eu basicamente usei o dinheiro de caixa 2. 

Você não teve fazenda e TV, mas fez patrimônio com dinheiro de corrupção. Joia é patrimônio. 

Joia não é patrimônio, joia é consumo. Isso aí é outra coisa que o Bretas…

Mas é dinheiro. Você teve uma mansão em Mangaratiba. 

Eu nunca comprei joia para investimento, eu comprava nas datas festivas para a minha mulher. Um erro, já assumi isso, com dinheiro do caixa 2, da sobra de campanha. Agora, eu nunca pratiquei corrupção, isso é o que quero dizer claramente, eu nunca cheguei e disse assim: “Bota esse preço aí, você vai ganhar essa licitação”.

Compra das Olimpíadas

Você admitiu em depoimento ao juiz Marcelo Bretas, em 2019, que comprou por US$ 2 milhões votos para garantir a escolha do Rio como sede da Olimpíada de 2016. Você depôs voluntariamente e disse que o Carlos Athur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, indicou o presidente da Federação Internacional de Atletismo (IAAF), Lamine Diack, como intermediário da negociata.

Os Jogos Olímpicos. Você tem ideia do que é ganhar os Jogos Olímpicos com 40 votos? Você acha que eu vou corromper a princesa Anne, da Inglaterra? Era um africano que presidia o comitê de atletismo, que pediu um patrocínio e o [Carlos] Arthur [Nuzman, ex-presidente do Comitê Olímpico Brasileiro] deu. Mas vai tirar o brilho do meu trabalho, do Lula e do Eduardo Paes, que rodamos falando de Jogos Olímpicos, pedindo ao mundo que confiasse no Rio de Janeiro e que abrisse mão de Tóquio, Madri e Chicago, que eram três cidades prontas para realizar os jogos. Era a primeira cidade da América do Sul a realizar os jogos e a ganhar por 40 votos de diferença. 

Você está dizendo que não foram apenas os votos comprados por vocês que fizeram o Rio ganhar?  

Pelo amor de Deus, 40 votos de diferença, é a maior diferença da história dos Jogos Olímpicos de Inverno e de Verão numa disputa de anfitrião de cidade.

Mas você botou esse episódio na sua delação.

Cara, eu vou te falar, eu fui muito torturado psicologicamente nessa coisa. Essa delação foi usada… Em 2019, eu estava absolutamente em desalento, absolutamente perdido. Já eram quase três anos de prisão. Marco Antônio, meu filho, tinha acabado de não se reeleger. Eu estava na cela quando vi o anúncio de que o Marco estava inelegível, numa sexta-feira. As eleições eram no domingo.

A delação

Foi aí que caiu a ficha e que você percebeu que tinha que fazer delação?

Isso foi sacanagem. Ele era advogado e era meu filho. Ele me visitava na prisão como filho e, no parlatório, como advogado. Também me visitava como deputado federal, como eu vi vários deputados visitando presos da Lava Jato. Ele recebeu um processo e, na sexta-feira, o Ministério Público planta no jornal local da TV Globo. O jornalista tem a obrigação de anunciar, o jornalista tem que dar a informação. O cara do Ministério Público disse: “Marco Antônio Cabral está inelegível”. A eleição era no domingo, isso é notícia, ele está inelegível. Depois, o Boechat deu. Depois, o SBT deu. Depois, não sei mais quem deu. Eu não vi a GloboNews, porque não tinha acesso à TV a cabo.

Foi aí que você decidiu fazer a delação?

Aí eu fiquei assim: “Acabou”. Prende a minha mulher, processa minha ex-mulher, pega meu irmão, pega meu filho, pega… Eu falei: “Porra, esses caras querem o quê?”. E aí eu não enxerguei que a partir daquele momento, em 2019, o Brasil entrava nas trevas, num processo de combate à institucionalidade. Então, ao final de 2019 e início de 2020, eu comecei a enxergar o que eu estava sendo ali. Eu costumava sempre falar para as minhas equipes que eles tinham que olhar a floresta, e não a árvore. Eu estava olhando a minha árvore e não estava olhando a floresta. Tem um processo institucional de desmoralização da política e das instituições. Eu fui levado a distorcer, a falar coisas que eu não queria falar. Graças a Deus o Supremo invalidou. É um assunto que eu… é um saco de areia das costas que foi jogado ao mar. Não quero falar sobre isso. Não quero falar sobre esses assuntos. Aquilo foi invalidado, tenho que respeitar a decisão da Suprema Corte e louvá-la. 

Você se arrepende de ter feito delação?

Não, porque eu não fiz delação. Ela foi invalidada. Mas me arrependo da iniciativa. 

Por que o MPF não quis fazer?

Porque, naquele momento, estavam trocando o comando do MPF. O subprocurador que cuidava da Lava Jato, que era lavajatista, estava saindo. A Raquel Dodge estava colocando outra pessoa. Vocês registraram isso. 

Mas não foi por uma questão de eles quererem que você dissesse coisas que você não queria dizer?

Não, foi porque eles… Eu podia mentir dizendo isso, não vou falar que é mentira. Eu não sei o nome. Um subprocurador da República estava saindo, um que era pró-Lava Jato. Eles estavam trocando.

A acusação a Dias Toffoli e a Bruno Dantas na delação

Na sua delação, você fala que o escritório da advogada Roberta Rangel, casada com o ministro do STF Dias Toffoli, teria recebido R$ 4 milhões, que seriam pagamentos de favores que o ministro prestaria em decisões relacionadas a dois prefeitos que tinham processos no TSE, em um período em que o ministro estava na Corte. Essa acusação caiu, porque toda a delação foi anulada. Eu queria te dar a oportunidade de falar sobre esse episódio. Você falou a verdade, mentiu ou distorceu? Esse episódio aconteceu?

Eu li recentemente que o ministro Toffoli foi ao Lula, no dia da diplomação, e pediu desculpas a ele por uma atitude em relação ao velório do neto do presidente. Eu quero pedir desculpas ao ministro Toffoli. Quero pedir desculpas. Eu fiquei com raiva do Judiciário, eu achei que o mundo inteiro conspirava contra mim, e distorci uma história. Quero pedir desculpas ao ministro Dias Toffoli, que sempre me tratou com muita distinção, que nunca me pediu nada errado. Quero pedir desculpas a ele.

Você inventou essa história?

Não, ela foi completamente distorcida. 

O que aconteceu de verdade?

Era um julgamento no TSE, de uma questão de um político, que ele tratou como outro qualquer. Eu quero pedir desculpas. O meu ódio, a minha raiva, a minha frustração e a minha tristeza…

Não houve R$ 4 milhões?

Não houve. Eu peço desculpas, foi tudo distorcido por mim, imbuído por um grupo da Polícia Federal. Eu peço desculpas. 

De onde você tirou R$ 4 milhões? De onde você tirou esse valor?

Eu não vou entrar em detalhes do sofrimento dessa delação, porque isso foi uma tortura muito grande. Graças a Deus ela não está válida.

Você cita também na delação que o atual presidente do TCU, ministro Bruno Dantas, recebia, por meio de advogados, uma quantia de R$ 100.000 por mês para atuar em favor do empresário Orlando Diniz, da Fecomércio. O que você sabe sobre isso? Ou esse fato também foi distorcido?

Absolutamente distorcido. Eu quero pedir desculpas ao Bruno Dantas e ao Vital do Rêgo, porque são duas pessoas queridas. O Bruno eu não tinha a menor intimidade, o Vital, por ser companheiro do PMDB, eu já havia conhecido. É mentira. Isso foi induzido por aqueles agentes da Polícia Federal que estavam envolvidos na minha colaboração. Isso era um desejo do Ministério Público Federal desde o início. Desde que fui preso eu ouvia essa história, as mensagens chegavam a mim, porque o MPF queria que eu falasse do TCU. Os jornais davam matérias dizendo que eu ia falar, e isso era mentira, porque eu não ia falar. Em 2019 eles fizeram essa chantagem. O Bruno é um quadro que era do Senado, super-respeitado. Era um cara que eu não conhecia, eu estive duas vezes com esse cara na vida. E o Vital eu conhecia da política. Isso fez parte de um esforço brutal de não enxergar a floresta. Um esforço de desmoralizar o governo do Rio, de desmoralizar o Supremo, de desmoralizar todo mundo. Para acabar com rojão no Supremo, para invadir e para quebrar. Foi isso que foi o 8 de janeiro. A força-tarefa, o Dallagnol, o Moro, o El Hage, o Sergio Pinel… Essa gente odeia a democracia, eles são de direita, eles são preconceituosos. Eles têm horror à política de cotas, eles têm horror à vida progressista. Eles têm horror a isso. Eles são de direita e ainda usam o nome de Deus. Esse Bretas usava o nome de Deus, um falso evangélico. (A partir deste momento, Cabral começa a elevar a voz, a chorar e a depois soluçar, enquanto grita). Eu sei o que é Deus, porque se não fosse Deus eu não estava vivo hoje. Eu sei o que é Deus, numa cela 22 horas por dia sozinho. Esses caras não sabem nada do que é Deus. Esses caras são o anticristo. Quantas mulheres eu vi presas? Quantos filhos? Quantos irmãos? Um método fascista.

O Judiciário do Rio de Janeiro fora da festa

O Judiciário fluminense nunca foi convidado para essa festa da corrupção que aconteceu durante décadas?
Olha, eu primeiro quero discordar frontalmente da tua tese de caracterizar o estado do Rio dessa maneira. O estado do Rio, no meu período, foi o maior gerador de empregos do Brasil. Chega dessa autofagia fluminense e carioca. Chega dessa definição de Rio assim. O que fiz nos meus oito anos de governo foi levantar o astral do Rio. É muito gosto para esculhambar, é muito gosto para dizer que todo mundo aqui é vagabundo, que todo mundo aqui é corrupto. O que é isso, cara?

Sergio, desculpa te interromper, mas é um estado que teve praticamente todos os seus últimos governadores presos.

Em relação ao Judiciário, eu não sei. Não vou falar sobre o Judiciário. Uma coisa é o jogo do poder, outra coisa é o jogo da sacanagem. Eu não posso dizer que tenha tido nem que nunca houve. O que houve foi o jogo do poder.

O que é o jogo do poder?

São relações institucionais, em que você se relaciona com os Poderes, politicamente, institucionalmente. Agora, toma uma grana, aí ganha não sei o que, nunca houve isso.

Está no jogo do poder, por exemplo, indicar um desembargador e, em troca, ser favorecido com uma decisão? 

Não vou falar disso, não vou falar disso. O assunto está morto lá no STF e eu não vou falar sobre isso.

Você considera que, durante o seu governo, você foi protegido pelo Ministério Público do Rio de Janeiro?

Não, nunca fui. Pelo contrário. Houve situações de questionamentos, de críticas e de inquéritos que não tinham nada a ver. E eu respondi. Essa coisa do Cláudio Lopes vai cair, isso aí tem muita cascata. 

O Cláudio Lopes não era conivente?

Não era conivente. O Cláudio não era conivente. O Marfan não era conivente. 

Na sua ex-delação, você falou que o Marfan Vieira teria indicado um chefe de gabinete para ser desembargador em troca de enterrar uma investigação contra você. Você mentiu ali?

Nada, nada. Errado. Eu não menti, eu distorci. Foi tudo que eles fizeram comigo. Foi exatamente o que o Ministério Público fez comigo, que a força-tarefa da Lava Jato fez comigo.

Você distorceu. Mas o que era exatamente?

Na verdade, era uma conversa institucional. “Vão ter vagas, como é que você está vendo essa questão…”

Você distorceu por quê?

Porque eu estava acuado. Eu peço desculpas a essas pessoas. Graças a Deus não avançou. Eu me impressiono como a imprensa brasileira cagava para o método da Lava Jato. Cagava. Vocês cagavam para o método da Lava Jato. Porra, o cara está trancado numa porta lá, com luz 24 horas. Foda-se, deixa ele. Vocês gostavam. A imprensa vibrava com o sofrimento das famílias das pessoas que estavam sendo presas. É poderoso? Deixa ele se foder, mesmo. Vocês não denunciaram isso. Vocês trataram o Moro e o Bretas como ídolos. O Caetano Veloso foi para a porta da 7ª Vara defender o Bretas. Um bobalhão. Um dos maiores artistas da história da humanidade, mas um bobalhão.

Preso mesmo na pandemia

No começo da pandemia, vários presos da Lava Jato começaram a ser soltos devido ao risco sanitário que a Covid representava. Alguns tinham sido presos na mesma época que você. O Eduardo Cunha, por exemplo, foi preso um mês antes de você. Houve um tratamento diferente entre você e eles. Por que você acha que aconteceu isso?

Eu não sou magistrado, mas, de fato, houve. A Covid foi um momento muito difícil, porque eu tenho diabetes tipo dois, eu tomo Glifage XR 500 de manhã e de noite. Fiquei muito preocupado com a minha saúde. Eu vi todo mundo indo embora durante o ano de 2020. Eu fui o último preso da Lava Jato a ser solto no Brasil.

Você acha que pode ter sido uma retaliação por você ter citado integrantes dos tribunais superiores envolvidos em crimes?

Eu não vou interpretar isso, não vou interpretar. Se me permite, eu não vou interpretar.

Memórias do cárcere

Vamos falar um pouco do seu tempo na prisão. Você foi um preso como qualquer preso brasileiro. Você teve um tratamento melhor por uma necessidade de segurança física ou, talvez, por você ter curso superior em relação a grande maioria. Você não ficou em cela superlotada, por exemplo. Não teve que ficar em pé, dividindo um espaço que você não tem nem para deitar.

Eu fiquei cinco anos preso. Eram 22 duas horas trancado, com duas horas de banho de sol, numa cela de seis metros quadrados lá em Bangu Oito. Era muito barra pesada, muito barra pesada.

Conta um pouco sobre o episódio em que você foi algemado pelas mãos e pelos pés na transferência para Curitiba. Como foi isso para você?

Foi estranho. Quando eu fui depor em Curitiba, o tratamento daquele japonês era super-respeitoso. Era um tratamento de preso, mas tudo respeitoso. Aquela Superintendência é um horror. Aquilo foi feito para deixar as pessoas absolutamente humilhadas. Eu dormia no corredor com o Eduardo Cunha, com [Antonio] Palocci, era uma coisa horrorosa. A luz ficava acesa 24 horas, eu tinha que botar um tampão no olho para dormir. Era uma coisa degradante. Na terceira vez foi essa da transferência. Cheguei lá à noite, dormi, não entendi nada. No dia seguinte, eu ia fazer o exame no Instituto Médico Legal e segui para o CNP [Complexo Médico Penal], em Pinhais. Havia um policial penal me orientando enquanto eu estava me arrumando. Aí ele disse: “Agora, o senhor será algemado nos braços, nas pernas e na cintura”. Eu falei que nunca tinha sido, e ele respondeu que tinha que ser. Eu falei “Pô, o que é isso?”. E aí ele disse: “Aqui só quem é bem tratado é delator”.

Quem falou isso?

O chefe da carceragem. Depois eu soube que ele até ficou amigo do Lula. Um louro que até está adido em algum lugar.

[Jorge] Chastalo.

É isso aí.

O Chastalo falou isso?

Ele e as pessoas que estavam lá com ele. O Supremo depois tomou a decisão proibindo, dizendo que eu nunca mais poderia ser algemado.

E o que você sentiu naquele momento? Para quem não está associando uma coisa com a outra, essa era a forma como se algemavam os escravos fugitivos. Quando um escravo era recapturado, para inviabilizar qualquer tipo de movimento do corpo, você fazia o algemamento completo da pessoa.

Eu busquei muita força em Deus e na minha autoestima. Procurei lembrar quem eu sou, porque isso foi uma coisa que me nutriu muito. Não lá em Curitiba, que pouca gente me conhecia, mas no Rio de Janeiro. Eu recebia o depoimento permanente de pessoas, familiares de presos, policiais penais, policiais militares, policiais civis. “Pô, cara, você foi o melhor governador. Você pagava o salário em dia, você remunerava, você reajustava”, diziam eles.

Qual foi seu momento mais difícil na cadeia?

A prisão da Adriana, sem dúvidas, e no final, diante da expectativa de ir embora, quando eu não me controlei na frente do Zé Eduardo, o meu filho. Eu tive um AVC, segundo os médicos. Eu virei para o lado, comecei a passar mal e desmaiei. Minha advogada disse que bati com a cabeça. Eu fiquei com um olho roxo, evacuei. O médico me explicou que o esfincter solta, é como se um fusível fosse desligado. Meu organismo desligou o fusível para evitar o colapso. Fiquei desmaiado por quatro minutos. Fui carregado pelo sargento Portugal, por outros presos e pelo próprio efetivo, e já convocaram o médico do quartel central. Os bombeiros também enviaram um médico. Todos deram o mesmo diagnóstico. Foi um AVE, um AVC, mas o meu fusível desligou. Aquilo foi muito impactante.

As amizades valiosas de Sergio Cabral

Durante seu governo, nós víamos que era normal para você ser próximo de empresários. Era algo que você não via problema. Você não via problema de frequentar casas de empresários, de tomar aviões emprestados, de ter alguma coisa paga por algum empresário. Você nunca achou que isso era impróprio?

Sem dúvida, você tem toda a razão. Essa coreografia vai ao encontro do que eu havia dito antes. Essa baixa preocupação minha gerou todo esse aparato cenográfico sobre a minha imagem, de alguém ligado a esses esquemas e tal. Exatamente por esse convívio. Não pode ser assim se você está com mandato no Executivo, em que você licita. Você pode e deve conviver com empresários, obviamente. Sem empresários, você não tem uma sociedade democrática e próspera. Eles são grandes empreendedores. Você pode recebê-los no Palácio, você pode fazer eventos, você pode fazer uma palestra na casa de um empresário e na presença de outros. Tudo isso faz parte da institucionalidade.

Então você sabia que era impróprio ou você aprendeu o que era impróprio na cadeia?

Na cadeia. Reflexão da cadeia. 

Houve algum momento em que você percebeu que as coisas estavam saindo um pouco do controle? 

Muitas vezes, mas não que elas estivessem “saindo de controle”.

Você não conseguia sair disso?

Não.

Por que você não conseguia?

Você acaba entrando numa roda-viva de compromissos. Não é compromisso de custeio da tua vida, de consumo, não. Até porque eu, pessoalmente, não gosto de sair comprando. Eu gosto de viajar, mas eu não gosto de sair comprando. 

Você não é consumista? 

Não, não sou mesmo. Nunca fui. Não tenho o menor saco. Eu gosto de livros, de filmes, de beber, de comer, de conhecer lugares e de trabalhar. Mas é a coisa da engenharia política. Você começa a financiar todo mundo.

Sem deslumbre

Você é filho de um jornalista e de uma museóloga, nasceu no Engenho Novo, bairro de classe média baixa da Zona Norte do Rio de Janeiro. Quando você ascende politicamente, você se torna uma das figuras mais poderosas do país e passa a conviver em espaços de riqueza e luxo. Você se deslumbrou com esse mundo?

Não, deslumbre eu nunca tive. Eu achava tudo muito natural. Da mesma maneira que eu estou conversando com você aqui, eu conversava com o [ex-presidente dos EUA Bill] Clinton em Davos, onde eu fui fazer palestra. Eu palestrei no MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts], eu palestrei na Escola de Economia de Londres, eu palestrei na Universidade de Columbia por duas vezes.

Isso não te deslumbrava?

Não. Isso me deixava muito feliz, não me deixava deslumbrado. Eu só achei, refletindo na prisão, que menos é mais. Você não deve nunca achar natural esse tipo de relação promíscua, porque vira promiscuidade. Mesmo que não tenha sacanagem.

A mágoa com Eduardo Paes

O Eduardo Paes cometeu alguma ilegalidade ao seu lado?

Não. Nenhuma. O Eduardo credita a derrota na eleição àquele depoimento do ex-secretário de Obras dele às vésperas da votação. Certamente colaborou, mas não foi decisivo. Falo como jornalista e como analista político: a razão para o Eduardo ter perdido aquela eleição foi porque ele deixou de construir uma história que podia ser mais verdadeira em relação a mim. Quando ele fala: “O Sergio era um personagem que eu me relacionava, assim como outros personagens, como o Dornelles e o Pezão”. Isso não é verdade. Ele é um amigo fraterno meu. A Cris era uma amiga minha. Isso me magoou. 

Você se refere à Cris que é esposa do Eduardo?

Isso. É uma coisa que me magoa muito, porque nós tínhamos uma relação de amizade, de carinho e de respeito.

Você o tinha como um amigo?

Um querido, amigo. E ele também me considerava assim, me cercava de todos os carinhos. Meus 50 anos foram comemorados na casa do Eduardo, numa festa surpresa em 2013, sabe? O meu filho Marco Antônio fez 15 anos na casa dele, na Gávea Pequena. O Eduardo fez questão de fazer a festa. O Matheus, meu filho que está com 16 anos hoje, fez um aniversário de 8 ou 9 anos na Gávea também. Ele não podia me tratar assim.

Por que você acha que ele te chamou de “personagem com quem se relacionava”? 

Eu acho que isso prejudicou o Eduardo na campanha, porque aí os líderes do interior falaram: “Que sacanagem é essa com o Sergio?”.

Ele foi uma pessoa com a qual você se decepcionou? 

Foi.

Você espera voltar a ter contato com ele?

Eu não tenho raiva dele, não. Eu gosto dele. Eu acho que ele é um cara que gosta do Rio, ele ama o que faz. Ele tem essa preocupação que eu não tive, que você me perguntou antes, do rito. Você vê que mesmo nesse jantar lá em Paris, quando ele percebe essa coisa de guardanapo para lá e para cá, ele fala para mim: “Isso vai dar merda, eu vou embora”. Ele estava lá, institucionalmente, como prefeito, em um grande momento de um governador do Rio, de um aliado dele. Quando recebi a Legião de Honra no Senado francês, ele foi lá como o meu amigo, prestigiou e foi embora. Eu respeito muito essa preocupação e esse cuidado dele. Mas aí ele exagera, porque vira um udenista bobo, que não precisa. Ele podia ter falado para o pessoal: “O Sergio é meu amigo e eu convivi com ele, sim. Fizemos grandes coisas juntos. Lamentavelmente, ele está respondendo a um processo”. Pronto, sabe? Eu acho que é muito mais digno, muito mais legal falar dessa maneira do que falar que eu sou um personagem.

Dito isso, você tem 92 cidades no estado, e são 92 cidades muito diferentes. O carioca não entende, mas o cara lá de Muriaé tem uma lógica, enquanto lá no Noroeste funciona de outro jeito. Em Paraty, que você vai visitar como turista, tem outra natureza. Conservatória, lá em Valença, funciona de outro jeito. Eu sempre gozei do respeito desses players. Eles ficaram se perguntando qual era a desse cara, como é que ele estava tratando o Sergio Cabral assim. A nossa amizade era tão flagrante, tão óbvia e tão verdadeira, que não tinha cabimento fazer isso comigo.

Beltrame, o poderoso xerife que não sabia de nada

O seu secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, alguma vez, participou de algum ato ilegal do seu governo?

De jeito nenhum, de jeito nenhum. Beltrame é uma pessoa séria, eu não o vejo há seis anos e um mês. Ele era um policial federal, agente, que fez carreira como agente, depois fez concurso, passou a delegado.

Beltrame, mesmo sendo a figura mais poderosa da Segurança Pública do estado, com acesso a todo tipo de informação de inteligência sobre o crime organizado, não sabia de nada que se passava de ilegal no seu governo?

Ele não tinha conhecimento de nada. Muito pelo contrário. Quando eu estava tentando montar a chapa do Pezão, houve um momento em que surgiu a ideia de colocar o Beltrame na vice. Isso foi antes de encontrar o Dornelles. Eu falei: “Beltrame, você não quer ser vice, não?”. Aí ele ficou meio assim. Um dia, ele chegou para mim e perguntou: “Governador, eu vou ter que lidar com X, Y e Z?”. Eu disse que sim, que eram pessoas aliadas, e ele respondeu que não estava achando isso uma boa ideia.

“O impeachment não foi golpe” e um recado a Lula

Qual foi a última vez em que você e o Lula se falaram?

A última vez em que eu falei com o Lula foi em 2015, quando ele me convidou para tomar uma cachaça na casa que ele estava em Portogalo (condomínio nobre em Angra dos Reis, no RJ). Quando o Pezão ganhou, ele me ligou para dar parabéns, porque ele tinha me dito que o Pezão não ia ganhar, que eu devia optar pelo Lindbergh. Eu falei que o Pezão ia ganhar, e ele ganhou.

Você saiu da cadeia e ainda não falou com o presidente? 

Não, não falei ainda não. Mas eu gosto muito dele.

Qual é o seu sentimento em relação a ele? 

É o maior presidente da história do Brasil.

E o impeachment? Foi golpe?

Olha, eu acho que o impeachment não foi golpe. O PT e o próprio presidente têm todas as razões para ficar repetindo isso. Uma vez eu fui fazer uma palestra no Insper e o Fernando Henrique Cardoso foi almoçar comigo. Ele me disse: “Olha, eu tenho mais razões para gostar da Dilma do que do Lula”. Isso em 2014. O FHC falou: “A Dilma me trata melhor do que o Lula”. Naquela ocasião ele disse isso, mas falou que a Dilma não daria certo, porque a Presidência da República é muito imperialista no Brasil. Ele disse que a força da Presidência é muito grande e que o humor do presidente contava muito. Por isso não daria certo. Acho que a presidenta gerou uma tensão desnecessária no país. E a questão fiscal, apontada pela razão do impeachment, foi apenas um pretexto para um ambiente político completamente degradado. O presidente da Câmara, o Eduardo Cunha, era uma pessoa muito difícil e ela também era muito difícil. Era o chefe de um Poder e o outro chefe de Poder batendo o bico o tempo inteiro.

Mas não foi golpe?

Não. Foi um processo legítimo, democrático e votado.

Se o Lula te ligasse hoje, teria alguma coisa que você gostaria de dizer a ele?

Primeiro, dar parabéns por essa vitória. Acho que o Brasil tomou a decisão mais correta, independentemente do que ele for fazer. A institucionalidade do país voltou para onde nós estávamos.

O abraço que Bolsonaro mandou para Cabral na cadeia

Você teve contato com o Jair Bolsonaro durante sua vida política?

Quando eu era deputado federal, eu briguei por algumas teses com o Bolsonaro. É uma coisa que ninguém sabe o que é, porque não foi divulgado. Eu fui o presidente que aprovou as cotas raciais na Alerj. Quando eu cheguei ao governo, a remuneração para os cotistas estava congelada, era muito baixa e só valia para o primeiro ano. Eu peguei e elevei a remuneração. Dobrei o valor e levei para todos os cursos da UERJ. O Flávio Bolsonaro entrou na Justiça contra isso e ganhou uma liminar. Depois, nós recorremos e ganhamos, era sempre assim. A luta era na política. Eu fazia umas críticas a ele, por essas coisas de defender a ditadura. Quando eu fui preso, o Marco Antônio, meu filho, tinha gabinete no mesmo corredor que o Bolsonaro. Isso antes de o Bolsonaro disputar a Presidência. Ele [Bolsonaro] fazia questão de perguntar ao Marco Antônio como eu estava. [Bolsonaro] Dizia para mandar um abraço para mim. Poucos fizeram isso, e o Bolsonaro fez. Mas, em termos de governo, eu torci muito pelo Lula. E graças a Deus o Lula ganhou. O Lula é uma pessoa que tem espírito público. O Lula quer acertar, ele gosta do povo, tem a alma do povo. E o Lula gosta de projeto.

A decadência do Rio e “o erro Pezão”

Seu governo levou o Rio de Janeiro para um patamar de animação, de entusiasmo. Em um certo momento, as pessoas que moravam no estado acreditavam que o Rio daria a volta por cima. Qual é o grau de responsabilidade que você tem diante da situação de decadência em que o Rio de Janeiro se encontra hoje?

Você foi na essência do que a 7ª Vara me creditava. Olha, eu não sou de fugir das minhas responsabilidades, mas eu entreguei o governo com um padrão investment grade. Todos os recursos em caixa, o salário dos professores e os salários dos policiais em dia, todos os servidores ganhando em dia, ativos e inativos. Tanto que o meu sucessor assumiu em abril de 2014 e foi até o final do ano sem nenhum problema. O que aconteceu, no final do ano de 2014, foi um grave problema institucional com a Lava Jato, envolvendo a Petrobras e o governo federal. Além disso, houve uma maré difícil no mundo, com a recessão econômica internacional. E aí o gestor, quem está com a caneta na mão, tem que responder a partir de janeiro de 2015. 

O Pezão? Você o apresentou para o eleitor como um grande gestor.

Sem dúvida. A responsabilidade é minha.

Você errou?

Errei. Foi o maior erro político da minha vida. Ainda tive a oportunidade de, em abril de 2015, chamar o meu sucessor [Pezão], a pedido do prefeito Eduardo Paes, a pedido do presidente da Assembleia do Rio de Janeiro, para fazer uma reunião. Eles estavam sentindo que o rumo do estado não estava bom. Estou contando isso em primeira mão. Fiz um jantar na minha casa com o Pezão, com o Eduardo e com o Picciani. Só nós quatro. E eu disse ao Pezão: “Olha, o vento é muito ruim. As empreiteiras estão num processo autofágico no Brasil, vai haver uma queda, uma depressão econômica violenta, a presidenta Dilma inaugurou o governo dela lançando um pacote de concessões, a credibilidade do governo federal está fragilizada. Ano que vem teremos os Jogos Olímpicos, então podemos fazer a concessão da Cedae na exploração da água e do esgoto de Jacarepaguá, do Recreio e da Barra da Tijuca. Podemos chamar de concessão olímpica e vendemos esse produto no mercado nacional, internacional. Você pode fazer um roadshow de cinco, seis praças financeiras, e vendemos por uns R$ 10 bilhões, R$ 12 bilhões.

Ele não seguiu o seu conselho.

Ele me deu um fora.

O que ele disse?

“Ô Cabral, muito fácil para você aí sentado com a bunda na piscina…” Ele tinha passado o final de semana na minha casa em Mangaratiba e ficamos na piscina tomando uma cerveja. No final de semana, claro, eu não toquei em assunto de política. Bati papo com ele, fraterno. “Foi muito fácil você dar esse palpite da piscina”, disse ele. O Picciani pediu a palavra e falou: “Olha, você não fale assim com ele porque você era um prefeito de Piraí, jamais seria vice-governador e muito menos governador”. O Pezão respondeu: “Não, eu sei e tal, mas é que não é hora de vender…”. Eu tinha dito: “Pezão, nós pagamos R$ 7 bilhões, R$ 8 bilhões de dívidas da Cedae”.

Mas por que a escolha do Pezão?

Quando eu cheguei em 2014, falei: “Eu vou mostrar ao Lindbergh [Farias], que era candidato, ao [Marcelo] Freixo, que tinha lançado o Tarcísio [Motta], ao Garotinho e ao [Marcelo] Crivella que eu posso fazer o meu sucessor. O [Carlos Alberto] Montenegro, então presidente do Ibope, tinha dito que eu não tinha a menor chance, que eu estava acabado. Eu falei: “Pezão, você vai sentar aqui e passar a ser o sinônimo de UPP, de UPA, de salário em dia, de Olimpíada, de Pan-Americanos, de Copa do Mundo, de Copa das Confederações, da revista The Economist botando o Rio para subir, de terceiro lugar no Ideb no ensino médio”. Ao mesmo tempo, chamei o Renato Pereira, que era o meu marqueteiro e que trabalhava comigo desde 1998. Eu falei: “Renato, sou jornalista, conheço comunicação, e nisso o Pezão é o Shrek, um homem comum, grandão e bom”. Até porque ele é um homem bom. É uma pessoa bacana para tomar uma cerveja.

Você já falou com o Pezão depois que saiu da cadeia?

Não. Eu fiquei muito magoado. Você está me provocando aqui a falar coisas… Eu vou falar uma coisa pessoal. A Adriana ficou três meses presa, foi o maior impacto, e depois o meu filho. Ela ficou no nível superior das mulheres, que era uma coisa muito ruim, no presídio J.F. Eram cinco ou seis celas, eram poucas mulheres de nível superior presas. E era bem em frente ao meu presídio. Então, no pátio de visita, eu encontrava com ela toda quarta-feira. Ela era a primeira a chegar, eu era o primeiro a chegar, e ela saía dali muito humilhada, porque na cela nem vaso sanitário tinha.

Mas o que o Pezão tinha a ver com isso?

Ele era o governador [risos]. O secretário da Seap (Secretaria de Estado de Administração Penitenciária) era o coronel Erir Ribeiro Costa Filho, que foi meu comandante da PM. Eu mandei recado pelo meu advogado: “Pelo amor de Deus, só um vaso sanitário…”. Não é privilégio, porque a mulher ao lado tem, as mulheres ao lado têm. Era ela que não tinha. Tinha que ficar usando boi, pô.

O que é o boi?

Em Curitiba também fiquei usando o boi. Você não tem um vaso, você se agacha, você se agacha para evacuar. E aquilo me deixou… Se você me perguntar se eu fico magoado porque o Pezão não foi um bom governador, posso ter ficado. Mágoas, tenho, mas isso é inconcebível. Então prefiro não revê-lo.

Sergio Cabral vai voltar para a política?


Você pensa em voltar para a política?

Não, porque eu já ocupei os cargos mais importantes do Rio de Janeiro. Não quero ser presidente da República, não quero ser governador. Quero desenvolver a minha atividade. Eu sou jornalista, gosto de comunicação, fui gestor, fui chefe de dois Poderes durante 16 anos, fui senador da República e fui preso. Eu tenho uma vida e acredito que posso colaborar com as pessoas, com as empresas. Quero ser consultor em comunicação, em gestão.

No setor privado?

No setor privado.

Então não quer contato com setor público?

Se amanhã um partido político me contratar, como o João Santana foi contratado pelo PDT, eu irei trabalhar. Mas só se eu tiver afinidade com aquele candidato, com aquela proposta.

Você diria que hoje você tem um grupo político? 

Não, não, não.

Não pretende se filiar a um partido? 

A princípio, não quero.

Tem algum político que você considera um aliado?

Não.

Se você tivesse que dar um conselho a um jovem político, alguém que, como você, lá atrás, quer se tornar um político… Qual conselho você daria a essa pessoa?

Conhecer de fato o Brasil, conhecer de fato a necessidade de pessoas e a vida como ela é. A política brasileira precisa passar a cuidar mais da vida. A vida como ela é em todos os aspectos. Ficamos muito centrados na questão econômica, que é essencial, mas o país está muito atrasado. O Brasil impede o aborto legal da mulher. Ninguém é a favor do aborto. Como é que o país tem um sistema de ilegalidade onde você tem 1 milhão de mulheres que fazem aborto de maneira ilegal, sendo que 200.000 voltam ao SUS para reparar danos no seu corpo? A questão da maconha, a questão do jogo. O Brasil está cercado pelo Paraguai, pelo Uruguai, pela Argentina, por Cuba, pelo México, por Estados Unidos, por Canadá, pela Europa… Todos com o jogo legalizado. Por que o jogo é proibido no Brasil? Essas questões são a vida como ela é. Além da questão social, vai aprender com o povo, vai entender o que o povo está precisando, porra.

Você sentiu culpa em algum momento?

Você, em vários momentos, citou coisas que aprendeu na cadeia, que o fizeram mudar internamente. Vou perguntar com toda a clareza sobre a parte que você fez errado, sobre o que você fez de ilegal e que confessou ser ilegal. Você se arrepende disso? Você sentiu culpa no momento?

Claro. Claro que eu me arrependo. Claro que eu me arrependo. Eu não faria outra vez e digo para o meus filhos, que são as pessoas mais importantes da minha vida, como direi para os meus netos. Claro que eu me arrependo. Como eu disse, o financiamento público veio corrigir essa prática. Você não pode ficar nessa relação, porque ela acaba sendo promíscua. Ela acaba sendo ruim porque você altera a relação. Então é claro que eu me arrependo.

Um motorista de Uber

Ontem eu peguei um Uber no aeroporto e contei para ele que iria te entrevistar. Perguntei se ele gostaria de dizer algo ao governador Sergio Cabral, com a expectativa de que viesse uma pergunta bem do povo mesmo. E aí ele me falou: “Pergunta para ele onde está o dinheiro”. Se você entrar num Uber, e o motorista te perguntar isso, o que você vai responder?

Eu diria que eu não tenho dinheiro nenhum.

Existe uma lenda urbana sobre um apartamento que você teria no Rio de Janeiro, onde estaria todo o dinheiro escondido. Você já ouviu isso? 

Eu já ouvi que eu tinha apartamento em Paris. Eu ouvi que eu tinha apartamento não sei onde. É conversa fiada, eu não tenho nada. Existe uma solidariedade da minha família, uma luta difícil pra cacete para enfrentar a vida, e eu não tenho recurso em lugar nenhum do mundo, nem no Rio de Janeiro, nem em lugar nenhum. Isso é uma picaretagem que alguns procuradores picaretas plantaram, que esse juiz picareta plantou, e agora fica rodando pelo bom tráfego de fofocas do Rio de Janeiro.

O que dizem os citados

Procurado pela coluna, o MPF declarou que a sua “atuação em todos os casos, incluindo os que envolvem o ex-governador, se pautou sempre pela elucidação objetiva dos fatos, pelas providências adotadas pelas provas reunidas e pelos limites do ordenamento jurídico”.

“Esclarece ainda que o fato de o Poder Judiciário ter acatado as medidas requeridas pelo MPF provam que as providências e eventuais desmembramentos obedeceram à legislação. O MPF também sempre respondeu de forma técnica, no momento e nos foros oportunos, às alegações apresentadas pelo ex-governador no decorrer de todos os feitos envolvidos”, diz a nota enviada à coluna.

O advogado Nythalmar Dias Ferreira Filho disse que Cabral insiste em cometer erros. “Tem gente que não aprende. Mesmo depois de ter a sua delação cancelada por mentiras e por acusações falsas contra o Tribunal de Justiça do Rio, contra o STJ e contra o STF, [Cabral] novamente insiste em cometer os mesmos erros. Albert Einstein já dizia que o conceito de insanidade é esperar resultados diferentes de condutas iguais. Não à toa, ele foi o réu que mais tempo ficou preso e o último a ser solto”, declarou.

O ex-governador Luiz Fernando Pezão nega que tenha recebido qualquer pedido de mudança de cela da advogada Adriana Ancelmo, ex-mulher de Cabral.

“Nunca chegou a mim, nem por ele e nem por advogados”, afirmou Pezão, que também diz não falar com Cabral desde a prisão, por orientação de seus advogados e por determinação judicial.

Pezão afirmou que não irá se posicionar sobre as falas do ex-governador, de quem foi sucessor, sobre o insucesso de seu governo.

O prefeito Eduardo Paes foi procurado para comentar a acusação de Sergio Cabral de que ele havia fingido não ter sido amigo do ex-governador. Ironicamente, Paes respondeu que “estava emocionado” com o que Cabral dissera.

A Polícia Federal foi procurada para responder às acusações de que Cabral sofreu tortura psicológica para fazer delação e pela denúncia que o ex-governador apresentou contra o ex-chefe da carceragem de Curitiba, Jorge Chastalo Filho. Não houve resposta à coluna.

O juiz Marcelo Bretas foi questionado sobre as acusações de perseguir Cabral e de ter mandatado o advogado Nythalmar Filho para ir a Bangu Oito extorquir um acordo do ex-governador. O magistrado também não retornou o contato da coluna.

O espaço permanece aberto para manifestações.

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