Com Bruna Lima, Edoardo Ghirotto, Eduardo Barretto e Lucas Marchesini

Justiça do RJ determina despejo de projeto social de surfe da Rocinha

A PGE do Rio de Janeiro alega que a Rocinha Surfe Escola não tem permissão para ocupar o local onde funciona há dez anos

atualizado 27/06/2021 3:23

Reprodução

No ano em que o surfe faz sua estreia nos Jogos Olímpicos, a Rocinha Surfe Escola, o primeiro projeto social de surfe da Rocinha, no Rio de Janeiro, recebeu uma ordem de despejo e terá que deixar a sala que ocupa há dez anos no Complexo Esportivo da comunidade. O governo do Rio de Janeiro tenta acabar com uma iniciativa que oferece treinamento de surfe para crianças da maior favela da América Latina e já formou atletas profissionais, como Gabriel Popó. A decisão do despejo foi noticiada pelo repórter Michel Silva, do jornal comunitário Fala Roça.

Em outubro de 2017, a Rocinha Surfe Escola recebeu a primeira notificação extrajudicial da Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (SUDERJ) para desocupar o local, mas não cumpriu a determinação. A Procuradoria Geral do Estado ajuizou então uma ação de desocupação e restituição da propriedade ao legítimo titular, que é o governo do Rio de Janeiro, resultando assim na ordem de despejo atual. 

A decisão foi tomada pelo juiz André Pinto, da 16ª Vara de Fazenda Pública do Rio, que considera que José Ricardo Ramos não possui um documento que comprove a concessão do espaço por parte do governo. Bocão, como é conhecido o surfista e morador da Rocinha, tem até o dia 29 de julho para entregar as chaves. “Infelizmente, quem perde é a comunidade, são as crianças, não só eu”, lamentou Ramos.

O surfista, que era baloeiro de traficante e afirma ter sido salvo pelo esporte, decidiu criar um projeto social de surfe para que outras crianças não se envolvessem com o tráfico na comunidade. Ele se dedica à Rocinha Surfe Escola desde 1994, quando o projeto ainda funcionava junto com um ferro velho e um estacionamento no terreno onde foi construído o Complexo Esportivo da Rocinha, inaugurado em 2010 por incentivo do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). 

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Ramos chegou a receber uma indenização de R$ 9 mil pela desocupação do terreno, mas o documento de cessão do novo local nunca chegou às mãos do surfista. Segundo o jornal comunitário, Ramos foi à Empresa de Obras Públicas (EMOP) durante oito anos para obter o documento, que segundo ele foi feito pelo assistente da Diretoria de Planejamento e Projetos da EMOP, Adilson Torres, nomeado em 2008. A pasta com documentos desapareceu com as sucessivas trocas de administradores do complexo esportivo. 

A coluna entrou em contato com a EMOP, mas Adilson Torres não é mais funcionário da empresa. Quando questionada sobre o documento de cessão do espaço, a assessoria informou que a Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro é a responsável pelo caso. Em nota, a PGE informou que a SUDERJ solicitou a intervenção da Procuradoria para despejar os ocupantes do imóvel, mas que a nova gestão da Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude solicitou uma reunião entre as partes na semana que vem para ver se há possibilidade de uma composição. O encontro acontece na próxima terça-feira (29/06).

Cria da Rocinha Surfe Escola desde os seis anos de idade, Popó acumula prêmios regionais e nacionais e hoje é instrutor de surfe na Praia de São Conrado e referência no esporte na comunidade. “Se não fosse o surfe, eu poderia ter ido para a vida errada”, contou Popó, que estreou na série documental “Onde o Surfe Me Levou”, do Canal OFF, em abril deste ano. “A Rocinha Surfe Escola estar fechando significa que uma porta está sendo fechada para muitos jovens da comunidade que têm aquilo ali como carro-chefe na vida deles”. 

Cristiano Gomes, de 24 anos, é outro surfista que teve a vida salva pelo surfe. “Eu jogava bola no sinal, eu poderia ter seguido para o caminho errado”, lembrou, em conversa com a coluna. Quando o surfista tinha oito anos de idade, José Ricardo Ramos, criador da Rocinha Surfe Escola, passou por ele na rua e o convidou para pegar onda. Gomes se dedica ao esporte até hoje, já participou de um campeonato no Peru e fez campanha, ao lado do surfista havaiano John John Florence, bicampeão da Liga Mundial de Surfe, para a organização Salvemos São Conrado. “É muito triste estarmos passando por isso, através dessa escolinha o surf mudou minha vida”, disse.

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