Com Bruna Lima, Edoardo Ghirotto, Eduardo Barretto e Naomi Matsui

Exclusivo. Número dois de Pazuello relata negociação com Precisa à PF

Élcio Franco confirmou que se reuniu com o dono da Precisa Medicamentos e falou sobre a alteração no preço da Covaxin durante as negociações

atualizado 03/08/2021 21:58

Elcio Franco_CPI da CovidIgo Estrela/Metrópoles

O coronel Élcio Franco, ex-número dois de Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde e atual assessor especial no Palácio do Planalto, detalhou em depoimento à Polícia Federal como foi a reunião que teve no ministério com representantes da Precisa Medicamentos, empresa no centro das suspeitas de pagamento de propina para a compra de vacinas. Conforme mostra o vídeo do depoimento, obtido pela coluna, Franco disse aos agentes que não haveria pagamentos antecipados pelos imunizantes. Assista ao final desse texto ao depoimento compartilhado pela PF com a CPI.

Segundo o ex-secretário-executivo, os contatos que manteve com a Precisa foram em sua maioria com a diretora técnica, Emanuela Medrades, e com um advogado que a acompanhava, cujo nome não soube dizer. O ex-secretário confirmou, no entanto, que esteve reunido em determinadas ocasiões com o dono da Precisa, Francisco Maximiano, que ainda prestará depoimento à CPI da Covid-19.

Élcio descreveu que, em reunião realizada no dia 20 de novembro do ano passado com representantes da farmacêutica indiana Bharat Biotech, um provável integrante da Precisa afirmou que havia uma previsão de preço de US$ 10 por dose da Covaxin. A informação consta de documento enviado pelo ministério à CPI, detalhando o encontro, mas a diretora da Precisa Emanuela Medrades negou em seu depoimento que qualquer oferta nesse valor tenha sido feita ao governo.

Segundo Franco, um dos representantes da Precisa pode ter se baseado nos valores de compra da CoronaVac pelo Instituto Butantan para apresentar uma oferta mais vantajosa naquele momento.

Vacina indiana Covaxin - Coronavirus - Covid19
Frasco da vacina indiana Covaxin

“O preço da Aztrazeneca, ninguém conseguiria concorrer, porque era ‘três e pouquinho’. Então, para concorrer com o Butantan, eles pegaram aquela faixa de 10,50 a 10,80 [dólares] e falaram alguma coisa em torno de US$ 10”, afirmou Franco aos policiais.

O ex-secretário, no entanto, destacou que em nenhum momento recebeu um documento oficial com esses valores e que não seria possível prever no momento da reunião com a Precisa qual seria de fato o preço final.

“O grau de indefinição era muito grande até para saber os custos com a fase 3 [de testes da vacina]. Era um momento bastante prematuro para se estimar um valor naquelas condições”, afirmou Élcio, que relatou à PF só ter recebido uma proposta oficial da Bharat em janeiro, com preços orçados em US$ 15 por dose.

O ministério havia concordado com os valores, mas as doses nunca foram entregues e o contrato acabou suspenso em junho, após uma série de denúncias de irregularidades.

A diretora técnica da Precisa Medicamentos, Emanuela Batista de Souza Medrades, em depoimento à CPI da Covid-19

As informações sobre as diferenças de preço são importantes porque a negociação para adquirir doses da Covaxin foi concluída em aproximadamente três meses – a transação mais rápida entre todos os outros imunizantes. O jornal O Estado de S.Paulo ainda revelou que um telegrama da embaixada brasileira na Índia informava ao governo que a Bharat, em agosto de 2020, estipulava o preço da Covaxin em cerca de US$ 1,34.

No depoimento, Élcio disse que em nenhum momento ficou acordado que haveria pagamento antecipado pelas doses e que os detalhes da documentação usada no processo de compra ficavam restritos à área técnica da pasta.

“Eu comecei a ouvir falar de “proforma invoice” quando o deputado Luís Miranda foi à CNN no mês de junho falar disso. Era uma coisa muito intestina da área técnica, não chegava na governança da secretaria executiva”, declarou Élcio. “Mas os próprios compliances do ministério fizeram adequar esses “proforma” para o que estava estabelecido em contrato. Não entendo aquilo como uma tentativa de antecipar o pagamento, porque o fiscal de contrato se baseou no contrato, e o contrato dizia que o pagamento só ocorreria depois de a Anvisa liberar.”

Élcio afirmou ainda que não tinha conhecimento da participação da Madison Biotech, sediada em Singapura, nas transações e que as pressões relatadas por servidores do Ministério para fazer avançar o contrato da Covaxin eram naturais por se tratar de uma emergência sanitária. “Nunca ouvi reclamação nem nunca ouvi falar de denúncias de assédio moral que poderiam ter ocorrido nem ouvi caracterização de pessoas pontualmente citadas por ter feito exageros ou pressões demasiadas para tratar qualquer um desses problemas.”

Assista à íntegra do depoimento abaixo.

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