Com Bruna Lima, Edoardo Ghirotto, Eduardo Barretto e Naomi Matsui

Diretor da Saúde e PM negociaram vacina para empresas e criptomoedas; veja zaps

Mensagens mostram que Marcelo Blanco e Luiz Paulo Dominguetti também conversaram sobre a venda de imunizantes para a rede privada

atualizado 07/07/2021 18:31

Dominguetti_CPI da CovidRafaela Felicciano/Metrópoles

Mensagens extraídas do celular do PM Luiz Paulo Dominguetti mostram que o então diretor de Logística substituto do Ministério da Saúde, tenente-coronel Marcelo Blanco, e o policial negociaram também a venda de vacinas para a rede privada. Um grande trecho de conversa entre os dois, obtido pela coluna, mostrou também a negociação do pagamento de uma possível propina, por meio de criptomoedas.

Em 9 de fevereiro, o agora ex-assessor do Ministério da Saúde perguntou a Dominghetti se o preço de US$ 12,51 por cada unidade de vacina, oferecido ao governo, poderia ser feito para a rede privada. Na ocasião, Dominguetti negou, afirmando que esse custo seria exclusivo para governos e que a AstraZeneca não estaria disponível para empresas. Blanco o chama – junto com Cristiano Alberto Carvalho, representante oficial da empresa Davati, para a qual Dominghetti também trabalhava – para uma reunião em Brasília. O aplicativo de mensagens registrou, naquele momento, várias trocas de ligações.

Dias depois, em 19 de fevereiro, em uma nova conversa, Dominguetti disse que as coisas evoluíram para outro caminho no Ministério da Saúde, e apontou dificuldades de negociação com a pasta federal. Em 22 de fevereiro, Blanco escreve que os dois precisam “desenhar uma estratégia visando esse mercado”. O tenente-coronel demonstrou, então, em áudios, novo interesse de levar as vacinas à rede privada. Dominghetti respondeu que conseguiria o mesmo preço para empresas, o qual seria o menor custo do mercado (US$ 3,97 a dose).

Na sequência, coronel Blanco perguntou se eles poderiam fazer o próprio preço. Dominghetti sugeriu, então, abrirem uma empresa, no que parece ser uma vinculação das vendas para o governo e para a rede privada, o que possivelmente pode caracterizar crime de advocacia administrativa, que é quando um servidor defende interesses particulares no órgão em que trabalha.

Com a liberação do governo, Dominghetti disse então que já poderiam rodar os contratos. O PM referia-se às 400 milhões de doses da AstraZeneca, que se encontravam na Índia, conforme documento que é carregado na conversa dos dois, e de responsabilidade de uma empresa americana.

Em 1º de março, Blanco se mostrou otimista. Em 8 de março, Dominghetti pediu uma conta para consolidar a transação. “Vamos depositar 1 milhão de dólares agora”, afirmou.

“Os operadores não estão confortáveis”

Dominghetti mencionou a concorrência de outros grupos, que seria necessário agir rápido, senão perderiam a oportunidade. Falaram em acertar com “Edinho e todo o grupo”. Há um “Eduardo” citado na conversa. Dominghetti perguntou se tiveram avanço no banco. O tenente-coronel Blanco responde que não, e que acredita que a negociação não vai andar, “por conta de informações que não deixaram os operadores confortáveis”. Na sequência, Blanco disse que “não sentiram firmeza”. Outra mensagem de Dominghetti indica que seriam usadas criptomoedas na transação, o que tem sido um método cada vez mais comum de movimentar dinheiro sujo.

(Atualização, às 18h30 de 07 de julho de 2021: o tenente-coronel Marcelo Blanco disse à coluna que a conversa travada com Dominguetti sobre criptomoedas não tem qualquer relação com a negociação sobre vacinas. Segundo Blanco, Dominguetti, sem motivo, perguntou-lhe se o tenente-coronel entendia de criptomoedas, ao que Blanco respondeu que não, mas que poderia indicar alguém que conhecesse. Dominguetti, então, teria falado que um amigo dele tinha uma conta bloqueada com um valor muito alto em criptomoedas e que, para desbloqueá-la, precisaria que alguém depositasse o valor de dois bitcoins. De acordo com Blanco, foi nessa hora que Dominguetti mencionou um possível depósito de US$ 1 milhão, que viria como uma “sinalização de boa fé” para que o depósito do valor das bitcoins não parecesse um golpe. Segundo o tenente-coronel, após consultar um outro amigo, Blanco voltou a Dominguetti, dizendo que aquilo era “furada”. “É alguém que usou o Dominguetti, ou ele está junto, que criou uma fantasia para tirar de alguém o valor de dois bitcoins. É tão somente um golpe”, afirmou Blanco. O tenente-coronel também disse que as conversas que travou com Dominguetti referiam-se a seu interesse em buscar dados para o desenho de um projeto para compra de vacinas pelo setor privado, uma vez que conhecia empresas que gostariam de obtê-las.)

 

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