Com Bruna Lima, Edoardo Ghirotto, Eduardo Barretto e Naomi Matsui

Criticado por encontrar neonazista, Bolsonaro tem oposição na comunidade judaica desde 2017

“A vinda da Beatrix von Storch para o Brasil foi a gota d'água”, diz coordenador executivo do Instituto Brasil-Israel

atualizado 31/07/2021 10:00

Max Chlert/Getty Images

O encontro de Jair Bolsonaro com a neta de um ministro de Hitler na segunda-feira (26/07) colocou em evidência como é forte a rejeição de Jair Bolsonaro dentro da comunidade judaica, a despeito do apoio que muitos de seus integrantes deram ao presidente desde 2017.

Segundo Rafael Kruchin, coordenador executivo do Instituto Brasil-Israel (IBI), criou-se no imaginário popular que Bolsonaro tem apoio majoritário na comunidade judaica por o presidente e integrantes de seu governo terem se apropriado da bandeira de Israel e da simbologia judaica. “[Contudo], desde antes do governo, quem olhava e denunciava os comportamentos neonazistas de Bolsonaro eram os grupos judaicos”, disse o coordenador executivo do IBI, lamentando a falta de visibilidade que essa oposição recebe da imprensa.

“A vinda da Beatrix von Storch para o Brasil foi a gota d’água. Não tem mais como negar a aproximação e as referências aos neonazistas europeus”, criticou.

Um dos episódios que mais marcou a relação entre Bolsonaro e a comunidade judaica foi a recepção no clube Hebraica, no Rio de Janeiro. Foi neste encontro que o presidente disse que quilombolas não serviam para nada e a plateia riu.

“Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas [arroba é uma medida usada para pesar gado; cada uma equivale a 15 kg]. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais”, disse, em 3 de abril de 2017.

Entretanto, enquanto Bolsonaro palestrava dentro do clube, um protesto de representantes da comunidade críticos ao então deputado ocorria do lado de fora. A manifestação foi articulada por grupos judeus progressistas e reuniu cerca de 150 pessoas na frente do Hebraica.

Kruchin também chama a atenção para todas as vezes que a comunidade judaica mostrou apoio a Fernando Haddad em 2018 e esteve em manifestações contra Bolsonaro.

O presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj) pontuou que “os judeus estão tão polarizados quanto a sociedade geral”. Alberto David Klein explicou que a Confederação Israelita do Brasil e as federações estaduais são suprapartidárias e tentam priorizar o diálogo com os dois lados, com os judeus que são a favor e os que são contra o presidente.

Dizendo não acreditar que Bolsonaro tenha encontrado a deputada alemã sabendo que ela faz parte de um partido que defende ideias neonazistas, o presidente da Fierj afirmou que o fato representa um ápice na divisão política entre os judeus. “A polarização começou em 2018, o episódio da Hebraica fez um racha na comunidade e agora está pior, mas vamos continuar trabalhando para dialogar e voltar à normalidade”, disse Klein.

Kruchin discorda e diz que minimizar os flertes do chefe do Executivo com ideais neonazistas é uma consequência da concepção de que Bolsonaro defende a comunidade judaica para além de seus interesses políticos: “A sorridente recepção de Bolsonaro e sua base a Beatrix von Storch representa o último suspiro para quem ainda achava que o presidente e seus seguidores têm qualquer apreço pelos judeus”.

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