Com Bruna Lima, Edoardo Ghirotto, Eduardo Barretto e Natália Portinari

Bolsonarismo e Evangelho são incompatíveis, diz pastor de “Marighella”

Em entrevista, Henrique Vieira afirma que "presidente é amante da ditadura"; ator detalha rotina no set de Wagner Moura e cenas improvisadas

atualizado 19/11/2021 17:50

Henrique Vieira Reprodução

De pastor a frei, Henrique Vieira voltou 60 anos no tempo e se transformou nas telas dos cinemas. Em entrevista à coluna, o ator de Marighella, filme brasileiro mais visto na pandemia, criticou Jair Bolsonaro, que já exaltou torturadores da ditadura militar brasileira, e fez um alerta aos evangélicos que seguem o capitão.

“O Evangelho tem cheiro de amor, acolhimento. O bolsonarismo tem cheiro de ódio, violência. É um filme que fala da luta contra a ditadura. E temos um presidente que é amante da ditadura”.

Aos 34 anos, Vieira detalhou como seu personagem tornou-se seu xará, a rotina no set do diretor Wagner Moura e como duas cenas fundamentais foram gravadas de susto, no improviso.

Leia os principais trechos da entrevista.

Como foi a experiência de gravar “Marighella”?

Foi uma das experiências mais bonitas da minha vida. Faço teatro desde 2015, já fiz vários espetáculos, mas foi minha primeira experiência no cinema. Houve uma entrega muito grande de toda a equipe para contar essa história. Havia compromisso com o cinema, mas também com Marighella, com a luta pela democracia. Cresci muito como artista e cidadão. Fiquei muito emocionado com o resultado do filme, que fala da década de 1960, da luta contra a ditadura, mas também do Brasil de hoje, da necessidade de resistir ao autoritarismo crescente que vem governando nosso país.

O diretor Wagner Moura acusou ter sido vítima de censura na Ancine. O ator Humberto Carrão relatou que uma gravação precisou ser adiada por causa de protestos contra o filme. Como você lidou com essas dificuldades?

É um filme que fala da luta contra a ditadura. E temos um presidente da República que é filhote da ditadura, amante da ditadura, apoiador da ditadura, exalta ditadores e torturadores. Uma parcela da população brasileira hoje está tomada pelo ódio, pela lógica da violência, não tem mais apego pela democracia, pelo diálogo, pelo respeito às diferenças. Quer resolver tudo na base da violência, da imposição, da censura. Um filme que fala sobre democracia nesse contexto enfrenta problemas, né? Tanto da parte da população que se incomoda com esse debate quanto do governo, que através da burocracia atualizou o sentido de censura. Pode não ter sido a censura da década de 1960, mas o governo usou meios burocráticos para deliberadamente atrasar a estreia do filme no Brasil. O filme foi aplaudido no mundo inteiro e demorou quase três anos para circular por aqui.

Alguns personagens, como o seu, têm o mesmo nome dos atores. Como chegaram a essa solução?

Isso começou na preparação de elenco. Fazíamos dinâmicas de atuação antes mesmo de saber os nomes dos personagens ou de ler os roteiros. Chamávamos uns aos outros pelo nome: ‘Humberto, Henrique, João’. Isso gerou uma conexão muito afetiva entre os atores. O filme fala sobre resistência à ditadura, mas também sobre amizade, companheirismo, sobre ir perdendo os amigos para a violência do Estado. E foi uma decisão do Wagner (Moura) acolher esse processo. Como todos estavam muito engajados com a mensagem do filme, o nosso nome no personagem fica algo assim: ‘Eu assino embaixo nessa resistência. Não estou fazendo apenas um personagem. Estou colocando minha vida, meu nome’. Fica a nossa assinatura nesse engajamento contra o que acontece hoje no Brasil, que tem um governo com características autoritárias e fascistas.

Como foi ser dirigido por Wagner Moura?

Hoje posso dizer que somos amigos. Isso tem muito a ver com a delicadeza, a sensibilidade, o respeito que ele tem por cada pessoa da equipe. Ele criou uma energia no set de filmagem, tem paixão pela história de Marighella e pela justiça social. Wagner foi nos cativando. Quando uma pessoa é muito apaixonada pelo que faz, isso irradia. Não era uma relação hierárquica, mas de troca de ideias.

Wagner Moura e Henrique Vieira

Como avalia o apoio de uma parte dos evangélicos ao governo Bolsonaro, que exalta práticas mostradas no filme, como tortura e censura?

Obrigado pela sua introdução, que reconhece a pluralidade do campo evangélico. Não dá para encaixar tudo no estigma do bolsonarismo. Mas vejo esse apoio com tristeza. Não há compatibilidade possível entre bolsonarismo e Evangelho. São antagônicos. Jesus nos ensinou que o amor é a marca principal de quem quer caminhar com ele. O bolsonarismo se alimenta o tempo inteiro do ódio. Jesus foi alguém que cultivou a paz: ‘Felizes os que promovem a paz’. O bolsonarismo, o tempo inteiro, tem a ver com violência para eliminar o outro. Jesus acolheu as diferenças, quebrou preconceitos, andou ao lado das pessoas mais marginalizadas, defendendo sua dignidade. Jesus foi vítima de tortura, alvo de violência do Estado. É só olhar o Evangelho, a Bíblia Sagrada, não é invenção minha. Jesus não morreu quentinho numa cama. O Evangelho tem cheiro de amor, acolhimento. O bolsonarismo tem cheiro de ódio, violência. Também não fico culpabilizando as pessoas. Muitos fatores podem ter estimulado o voto em Bolsonaro em 2018. Mas espero que os cristãos compreendam que o bolsonarismo é incompatível com a história de Jesus.

Em uma cena, você diz a Seu Jorge que Jesus era preto e foi escondido por Maria e José na África para fugir da perseguição de Herodes. Você já havia dito essa frase antes do filme, certo?

Sim. É uma frase minha. Foi uma cena de improviso. Às vezes acabava uma cena e o Wagner fazia uma proposta, com a câmera gravando. Depois de uma cena em uma igreja de São Paulo, do nada ele me disse: ‘Henrique, explica para o Marighella por que Jesus é preto’, e falou: ‘Ação’. E eu comecei a falar para o Seu Jorge de improviso. Só foi gravada uma vez.

Em outro momento, você telefona ensanguentado para Seu Jorge e seu personagem acaba ajudando na captura de Marighella. Como foi gravar esse trecho?

Foi muito difícil. Gosto sempre de exaltar a coragem desses freis dominicanos. Meu personagem é uma síntese dessas pessoas que, em nome da fé, não concordaram, não se omitiram e entraram em ação para resistir a um governo autoritário, que cometia torturas e desaparecimentos. Eu compreendi isso e quis trazer um personagem dedicado, que foi vítima de tortura. Naquela cena, o roteiro indicava que eu atendia o telefone ensanguentado, ferido, falava: ‘Confirmo’, e chorava. A parte seguinte, em que eu dou uma porrada na mesa e reajo, ali já não é o roteiro. Não consegui só atender o telefone e chorar, como estava previsto. Me veio o grito, a vontade de reagir, de partir para cima dos policiais e dizer que eu era alguém corajoso, comprometido com meu país, com a democracia.

Marighella

Na faixa de abertura de AmarElo, álbum de Emicida em 2019, você defende o perdão. Esse recado se mantém necessário no filme?

Sim. Para mim, perdão não é esquecimento. E é o que meu personagem defende. Perdão é interromper a violência. É a possibilidade de abrir as portas para um futuro alternativo que não seja mediado pela vingança, mas não às custas do esquecimento. O esquecimento abre espaço para que o passado se repita. Esquecer o que foi a ditadura é abrir espaço para que ela se atualize. Lembrar é importante para que não aconteça novamente. Em vários países do mundo há lugares com alertas: ‘Aqui teve tortura, aqui teve censura’. O Brasil é um fracasso nisso.

O filme também traz uma discussão sobre a luta armada naquele período da ditadura militar. Qual é sua avaliação?

A tática de resistência dos oprimidos não pode ser julgada pela moralidade dos opressores. Debater se a luta armada foi certa ou não na década de 1960, sinceramente, é um debate menor. O terrorismo era operado pelo Estado. Não posso comparar a violência operada em nome do Estado com a tática de defesa de grupos comprometidos com a superação da violência e com o resgate da democracia. Posso debater essa questão, mas sempre com muito respeito e sem tirar o foco do terrorismo do Estado. O filme é um convite. Não à luta armada, mas para que a gente perceba a gravidade do que está acontecendo hoje no Brasil, e se organize em prol da democracia. O filme é para causar incômodo e senso de urgência.

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