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Condomínio no DF se divide sobre bandeira do Brasil instalada por general

O Condomínio Vivendas Bela Vista fez assembleia para discutir futuro da bandeira. A disputa terminou com 96 votos a favor e 85 contra

atualizado 25/06/2021 20:31

Bandeira do Brasil divide condomínio no DF onde moram general e ex-deputadoMaterial cedido ao Metrópoles

A instalação de uma bandeira do Brasil em um condomínio do Distrito Federal dividiu a opinião de moradores. O símbolo nacional de 1,80m x 2,56m foi hasteado em um mastro de 12m, em frente à entrada do Vivendas Bela Vista, no Grande Colorado, no último dia 2 de junho. O residencial tem 727 lotes.

O general reformado Haroldo Assad Carneiro teve a ideia de colocar a bandeira no local, com apoio de outros moradores. O militar disse à coluna Grande Angular que gastou R$ 2,7 mil, valor que foi dividido com 30 pessoas. Mas a medida não agradou outros residentes, que acreditam que a iniciativa revela apoio ao presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido). A bandeira do Brasil é um símbolo usado por bolsonaristas em manifestações pró-governo.

A divisão de opiniões ficou clara na terça-feira (22/6), quando foi realizada uma assembleia sobre o tema. O placar foi apertado: 96 votos a favor da bandeira e 85 contra.

A história do estandarte em frente ao Vivendas Bela Vista começou em maio, quando Haroldo e outros moradores decidiram colocar a bandeira no local. Eles já tinham feito a fundação para o mastro. Um grupo de residentes soube da iniciativa e questionou o condomínio, que decidiu pela assembleia.

Mas, antes da reunião entre os moradores, Haroldo conseguiu autorização da Administração Regional de Sobradinho II para a instalação do mastro e concluiu a obra.

“A autorização foi deferida mediante ratificação da Superintendência do Patrimônio da União no Distrito Federal (SPU), que ao analisar a aludida demanda autorizou a instalação da bandeira nacional em área da União em frente ao citado condomínio”, disse a administração à coluna.

Em protesto, alguns residentes instalaram faixas no condomínio pedindo “vacina, paz, justiça e liberdade acima de tudo”. “Nossa bandeira não pode ser usada como símbolo do genocida Jair Bolsonaro e seus milicos de pijama, responsáveis pela tragédia que já matou mais de 460 mil brasileiros”, dizia uma das faixas, já retirada.

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Posições

Contrário à bandeira na entrada do residencial, o servidor público Cláudio Valério da Silva, 52 anos, disse à coluna que um morador “não pode fazer uso das áreas comuns como se estivesse na casa dele”. “Houve clara violação à convenção do condomínio, e não tínhamos sequer estar discutindo isso. Teríamos apenas que sanar a violação”, afirmou, em texto que preparou para a assembleia e o qual enviou à reportagem.

Segundo Silva, a questão é que a bandeira levanta discussões políticas dentro do residencial. Ele afirmou que o grupo contrário vai enviar ao condomínio uma carta em repúdio à condução do tema e questionar sobre eventuais consequências, “pois a autorização foi dada a um particular e, de certa forma, poderá ser entendido que o condomínio tenha passado a ser corresponsável”.

“Chegamos a levantar, inclusive, questões de segurança devido ao mastro poder funcionar como um receptor de raios, pela altura e localização. Existe uma norma técnica que dá essa compreensão”, pontuou Silva.

O general Haroldo disse à coluna que está na reserva do Exército há 10 anos, não tem nenhum vínculo com o quartel nem com o governo. “A bandeira é nossa, de todos os brasileiros. Não pode ser de A ou B. Eu sei que o negócio não é contra mim, é contra Bolsonaro, governo. É disputa envolvendo PT e PSDB. Houve uma conotação política”, afirmou.

A discussão invadiu os grupos de WhatsApp do condomínio nas últimas semanas. Em uma mensagem enviada aos vizinhos, o general reformado chegou a dizer que Bolsonaro iria fazer a inauguração solene e “hastear a bandeira, ao som do Hino Nacional, executado pela Banda de Música do Batalhão da Guarda Presidencial”.

À coluna Haroldo explicou que é amigo de Bolsonaro e não há “nada que impeça que ele pegue a motocicleta e vá passear pelo condomínio”. Mas pontuou que não conversou com o presidente sobre a bandeira e que a última vez que se viram foi há dois anos.

O general reformado contou que chegou a falar com a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) para hastear a bandeira, “não como deputada, mas como mulher, amiga e personalidade”. Porém, segundo Haroldo, a parlamentar não conseguiu ir em razão de compromisso na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputadas, da qual é presidente.

“Vício de iniciativa”

Também morador do Vivendas Bela Vista, o servidor público Gregório Lopes, 53 anos, disse que a instalação do mastro e da bandeira nacional na entrada do condomínio “teve um vício grave de iniciativa, pois deveria ter partido do próprio condomínio”.

“O general não poderia ter atropelado a administração do condomínio nem a sua convenção. Deveria era ter aguardado a decisão da assembleia. Em vez disso, resolveu fazer uma solicitação à Administração Regional de Sobradinho II e à SPU em seu nome, sobre um espaço que não lhe pertence e que também não é área pública, mas sim de uso comum do nosso condomínio e que foi construída por nós para servir de acesso às nossas cancelas de entrada”, afirmou.

Segundo Gregório, o síndico do residencial apresentou um recurso, em 8 de junho, ao administrador da região, solicitando a revogação do termo de autorização de uso precário que autorizou a colocação do mastro: “Mas até a data da assembleia, dia 22 de junho, nenhuma resposta havia sido dada por aquele órgão. Para piorar a instrução dos fatos à assembleia, o general Haroldo também obteve, no mesmo dia da assembleia, outra autorização em seu nome, desta vez emitida pela SPU, após ter informado erroneamente àquela Secretaria que o mastro não seria instalado em terras do nosso condomínio, mas em uma rotatória da via pública, o que não condiz com a verdade”.

Lopes disse que ele e “muitos outros condôminos reprovam esse falso patriotismo eleitoreiro, ainda mais no triste momento em que vivemos todos”. “Antes de comemorar o hasteamento da bandeira nacional e fazer qualquer festa ou propaganda do presidente, deveríamos era estar todos manifestando o nosso luto pelas vidas que têm sido desnecessariamente perdidas, em boa parte devido às imprudências cometidas por um govermante que, ao contrário de seus pares do mundo inteiro, tem desdenhado da “gripezinha”, incentivado aglomerações e o não uso de máscaras protetoras. Em meu entendimento, nada disso condiz com quem quer se dizer ‘patriota'”, afirmou.

Ex-deputado

Outro morador do Vivendas Bela Vista é o ex-deputado distrital e atual presidente da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do DF (Adasa), Raimundo Ribeiro. À coluna ele disse que a bandeira foi instalada com autorização da Administração de Sobradinho II, órgão regulador da utilização de áreas públicas de uso comum, e com permissão da proprietária da terra, que é a União.

“Eu já fui delegado de patrimônio da União e não tive dificuldade de entender o assunto. Participei da assembleia e, evidentemente, por ter formação jurídica, me pauto pela legalidade. Procurei esclarecer esses fatos e de que não caberia à assembleia decidir o que cabe aos órgãos responsáveis”, assinalou.

Por enquanto, a bandeira do Brasil permanece na entrada do condomínio.

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