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BRB adquiriu ativo de R$ 341 milhões do Master com garantia de R$ 30 milhões e avalista no Serasa
O Metrópoles obteve, com exclusividade, acesso aos documentos internos do BRB e do Master sobre negócios suspeitos e de alto risco
atualizado
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O Banco de Brasília (BRB) aprovou a compra de carteira de R$ 341,7 milhões do Banco Master um dia após parecer que apontou para risco elevado do negócio suspeito, sem garantia suficiente e avalista com nome sujo. A empresa, que agora deve ao BRB, tem capital social de apenas R$ 10 mil.
A Diretoria Colegiada e o Comitê de Crédito do BRB deram o aval para a aquisição menos de 24 horas após a Diretoria de Controles e Riscos (Dicor) emitir documento que indicou dificuldade na recuperação do dinheiro em caso de inadimplência.
Os documentos do BRB e do Master foram obtidos com exclusividade pelo Metrópoles com base na Lei de Acesso à Informação (LAI).

As seis cédulas de crédito bancário (CCBs) compradas pelo BRB são referentes aos empréstimos cedidos pelo Master, no valor de de R$ 341,7 milhões, para o empreendimento Península Cidade Jardim, da RZK Empreendimentos Imobiliários, em 2024. Posteriormente, as CCBs foram transferidas para a Esfera Aquisições Imobiliárias, do mesmo grupo – essa empresa, segundo parecer da Diretoria de Controle e Riscos do BRB, tem apenas R$ 10 mil de capital social.
O empréstimo seria utilizado para construir torres empresariais e residenciais em terreno de 49 mil metros quadrados ao longo da Marginal Pinheiros e Avenida dos Tajurás. Um dos riscos identificados pela área técnica do BRB é que não há sequer comprovação de que a Esfera é dona de imóvel deste tamanho na região.

“Não há a confirmação de que toda a área necessária para o empreendimento já foi adquirida. A ausência de aquisição de uma área poderá impactar em realização de ajustes de projetos”, destacou a Diretoria de Controle e Riscos do BRB.
A área técnica apontou que as garantias imobiliárias do negócio são “bastante inferiores” ao crédito concedido. A empresa deu como garantia imóveis que, segundo ela, estariam avaliados em R$ 100 milhões, o que representa apenas 26,4% da dívida. Mas uma gerente da Diretoria de Operações e de Negócios (Diope) do BRB que analisou os laudos indicou que os terrenos valeriam menos da metade desse valor.
Isso significa que, se a empresa não pagar o empréstimo ao BRB, o banco terá que pegar os imóveis dados como garantia e vendê-los para tentar recuperar o dinheiro – nesse caso, a estimativa é de que receba aproximadamente R$ 30 milhões, o que não representa nem um décimo do valor do negócio.
O parecer da Diretoria de Controle e Riscos do BRB foi emitido 1as 18h50 de 26 de junho. Menos de 14 horas depois, em 27 de junho, a Diretoria Colegiada do banco aprovou a aquisição das operações de crédito, com as mesmas garantias pífias dadas ao Master.
Negócios em Brasília
As empresas pertencem ao empresário José Ricardo Rezek, que é avalista dos empréstimos milionários, feitos junto ao Master, entre janeiro e agosto de 2024, em São Paulo. Ao analisar o negócio oriundo do Master, a Diretoria de Controle e Riscos do BRB destacou que o nome do avalista do negócio está sujo no Serasa, com dívidas de R$ 14,6 milhões.
Pouco depois de obter as CCBs com o Master, em outubro de 2024, a empresa de Rezek fechou contrato de concessão da Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília. A RZK Concessões integra o Consórcio Catedral, que administrará o terminal por 20 anos.
Outro interesse do grupo em Brasília era justamente o BRB. O filho de Rezek, José Ricardo Lemos Rezek, chegou a assinar contrato de compra de 49% da Financeira BRB, subsidiária do banco, em março de 2025.
O negócio acabou barrado pelo Banco Central, que apontou “atuação sem diligência e prudência”, além de indicar que o BRB elevou o patrimônio líquido de forma artificial ao contabilizar esse venda em data anterior à realização do negócio.
O Banco Central disse, em documento enviado ao Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), que, “em razão do não atendimento do requisito previsto” em resolução que exige origem lícita de recursos utilizados na aquisição de participação qualificada, “a operação foi posteriormente desfeita por determinação do BC”.
Negócios bizarros
Como revelou a coluna de Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, o BRB adquiriu R$ 30 bilhões em carteiras de crédito do Banco Master – há confirmação de que quase todos os ativos não têm lastro ou são fraudados.
O BRB enfrenta crise após os negócios bizarros com o Banco Master. Inicialmente, estimava-se que o prejuízo seria de R$ 2 bilhões, valor que subiu para R$ 6 bilhões e posteriormente foi a R$ 8,8 bilhões. Com a revelação de que o BRB adquiriu R$ 30 bilhões em ativos do Master, quem acompanha o caso acredita que o buraco será ainda maior.
