No Cruzeiro, Ronaldo “pediu café quente e está deixando esfriar”

Após demitir o goleiro Fábio, ídolo da torcida, o Fenômeno vem sendo bombardeado nas redes sociais

atualizado 06/01/2022 13:12

Ronaldo FenômenoQuality Sport Images/Getty Images

Menos de um mês depois de confirmar a compra do Cruzeiro, Ronaldo Fenômeno já não é mais unanimidade no clube mineiro. Nesta quarta-feira (5/01), uma carta de despedida do goleiro Fábio foi parar nos trending topics do Twitter, e a torcida está revoltada com o Fenômeno.

Fábio, um dos maiores ídolos da história do clube,  não joga mais pelo Cruzeiro. O goleiro não chegou a um acordo para a renovação do contrato que se encerrou no último dia 31, e usou as redes sociais quarta-feira para se despedir (leia, ao final do comentário, o desabafo de Fábio e a reação do Cruzeiro).

Com contrato até o último dia 31 de dezembro, ele havia apalavrado uma renovação com a antiga gestão, mas, em moldes que o grupo comandado por Ronaldo Fenômeno considera ser acima dos padrões possíveis. 

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As negociações  se dariam em duas frentes: a primeira foi sobre uma redução salarial. A segunda e mais complexa de resolver era uma dívida milionária em relação a recentes repactuações salariais. O débito do clube com o goleiro era milionário e de responsabilidade do Cruzeiro associação, não da SAF. Assim, o jogador ficou sem garantias sobre o pagamento.

Fábio defendeu o Cruzeiro em 976 jogos, titular absoluto desde 2005, e foi o jogador que mais atuou pelo em toda a sua história. Foi certamente um desrespeito com um dos maiores personagens dos 101 anos do Cruzeiro. 

Ronaldo Fenômeno não se manifestou, nem apareceu no clube porque testou positivo para Covid. Na internet, há um clima de revolta e insatisfação com o Fenômeno.

Já há quem duvide que Ronaldo seja capaz de resgatar o prestígio e o bom futebol do Cruzeiro. Desde que assumiu e foi festejado como “salvador da pátria”, Ronaldo só fala em cortar gastos. Nunca disse qual é o seu planejamento para montar um time que seja, no mínimo, capaz de voltar para a Série A. Nesse ritmo, é arriscado que seja até rebaixado para a Série C.

É como diz uma frase famosa de Millor Fernandes: “Esnobar, é pedir café fervendo e deixar esfriar”. Parece que é isto que está acontecendo na relação de Ronaldo com a torcida do Cruzeiro.

O desabafo de Fábio
Querida Nação Azul,
 
Perdão por esses dias de silêncio. Tentei, com todo o meu coração, permanecer no Cruzeiro.
 
Sempre fui transparente e vocês saberão a verdade agora.
 
Meu desejo é permanecer até dezembro de 2022.
 
A renovação do meu contrato foi acertada com o Clube através do presidente Sérgio Rodrigues em novembro de 2021, que inclusive anunciou publicamente, faltando apenas as assinaturas dos documentos negociados.
 
Mas essa nova administração não me deu mais essa opção.
 
Quero deixar claro que aceitaria a readequação no novo teto salarial, mas essa nova administração também não me deu essa opção.
 
Sempre estive pronto para ajudar o Cruzeiro, inclusive me readequando à nova realidade, o que já fiz em outros momentos de dificuldade do Clube.
 
A minha relação com vocês será eterna e está gravada na minha memória e no meu coração.
 
O meu carinho por vocês é gigante é a maneira que tratam a mim e minha família é algo que levarei para o resto da vida com imensa gratidão.
 
Só Deus sabe o que estou sentindo nesse momento. O Cruzeiro sempre foi para mim muito mais que meu trabalho, foi minha casa, minha família, minha vida.
 
Estive com vocês em todos os momentos, desde os mais felizes, até os mais difíceis. Nos últimos anos trabalhei ainda mais duro, orava todos os dias entregando nosso Clube a Deus para que nosso Cruzeiro voltasse ao lugar onde vivi meus melhores momentos, com muita alegria, com muita paz, com muito prazer em trabalhar. Fiz de tudo dentro e fora de campo para que de minha parte não faltasse o empenho necessário no objetivo de retornar à Série A.
 

Sobre as informações que estão circulando, informo que, ainda nas minhas férias, no dia 28/12, recebi o comunicado da diretoria pedindo uma reunião assim que eu voltasse.

Compareci no dia 4 de janeiro no horário marcado para ouvir a diretoria: de todo meu coração, segui para o Clube feliz e tranquilo aberto a escutar e ajudar no que fosse preciso, mas, para minha surpresa, a atual diretoria foi clara que não desejava contar comigo desportivamente para 2022. Na reunião estavam presentes o diretor executivo, Pedro Martins, e Gabriel Lima, representando a atual gestão.

 
Paulo André, que estava na sala ao lado, não teve sequer a consideração de me cumprimentar, sendo ele um ex-companheiro de clube.
 
Em nenhum momento da conversa me deram a opção de continuar.
 
Não fico triste pela minha história e amor ao clube, pois sei que meu amor e respeito ao Cruzeiro Esporte Clube nunca se apagarão, mas fiquei triste porque me sinto pronto para trabalhar e ajudar ainda mais o Cruzeiro.
 
Lutei, insisti e tentei, infelizmente em vão!
 
Deixei claro que sempre estive disposto a receber dentro do teto salarial, inclusive aceitando reduções do novo contrato acertado para 2022 com o Presidente Sérgio Rodrigues e ficar dentro do novo teto estipulado, mesmo assim, em vão.
 
Meu único pedido foi que meu contrato se encerrasse em Dezembro de 2022 dentro do teto que está sendo praticado.
 
Sei o que passo em cada jogo, em cada volta pra casa, em cada lágrima de dor em ver nossa luta em voltar para a Série A. Não me deram nem a opção de receber dentro do teto e muito menos ajudar o Clube no Campeonato Brasileiro. Não me deram outra opção que não fosse finalizar minha vida no Cruzeiro ao final do Campeonato Mineiro.
 
Me disseram que qualquer outro cenário estava inviaibilizado e que eu não faço parte do planejamento esportivo para 2022.
 
Os 3 meses que me ofereceram de contrato só aumentaria a minha dor da despedida. Ajudar a levar o Cruzeiro de volta à Série A era meu maior sonho, queria muito tentar, muito mesmo, dói escrever isso, me perdoem de coração por não ser possível, sei a dor que eu e 9 milhões de torcedores passamos, dando nossas lágrimas nosso suor e nossa torcida e dedicação para voltarmos no lugar de merecimento da grandeza do Cruzeiro.
 
A SAF do Cruzeiro quer encerrar minha carreira imediatamente, mesmo estando em plenas condições físicas e técnicas para continuar jogando em alto nível e ajudando o Cruzeiro.
 
Somente Deus pode determinar nosso tempo.
 
Em 2021, fiquei fora somente de um jogo. Durante 18 anos, podem pesquisar quantos jogos fiquei fora, nunca pedi pra me ausentar, nunca faltei treino, sempre dediquei meus dias com suor e amor, não se deram ao trabalho de buscar informações sobre meu histórico como atleta.
 
A história que construí no Cruzeiro foi repleta de títulos, mas sobretudo de respeito à instituição, de muito trabalho e suor.
 
São 976 jogos pelo clube.
 
Dito isso, informo a vocês, com o coração apertado, com lágrimas e dor, que eu preciso aceitar que não contam comigo no clube, mesmo sabendo que fiz tudo que poderia, aceitando me enquadrar no novo patamar salarial e generosamente equacionando toda a dívida que o Clube tem comigo relativo a pagamentos atrasados.
 
Mostrei total disponibilidade em negociar o débito de anos anteriores, mas, infelizmente, não fui ouvido.
 
Deixo aqui meu agradecimento à Nação, a cada um dos funcionários do clube e a todos aqueles que, de alguma forma, fizeram parte dessa linda história.
 
Amo vocês!
 
Obrigado nação, obrigado Cruzeiro Esporte Clube por anos de muito carinho e respeito.
 
Estou torcendo e orando por vocês!!!
 
Meu amor e respeito pelo Cruzeiro e por vocês sempre permanecerá.
 
976 vezes, Obrigado!
 
Muito, muito obrigado!!!
 
Gratidão, Cruzeiro Esporte Clube e Nação Azul. Serão eternos na minha vida.
 
Eu e minha família choramos neste momento, mas gratos e confiantes que Deus nunca nos desampara.
 
Conto com o carinho e respeito de vocês nesse momento tão difícil.
 
Fábio
O outro lado

O Cruzeiro ignorou o desabafo e a revolta de Fábio e distribuiu uma Nota Oficial:

Chegou a hora de dizer adeus.

O ídolo que por tantos anos, tantos jogos e com tanta vida nos representou embaixo das traves, como se fosse cada um de nós da Nação Celeste, não estará mais ali, em campo.

Fábio tem sua trajetória indissociável da nossa história. Um capitão que honrou a camisa celeste, o que fez nossa torcida, com toda justiça, o idolatrar. Falar de Cruzeiro tem sido falar de… Fábio.

São títulos e números que falam por si só: 17 anos consecutivos no clube, o jogador que mais vestiu nosso manto (976 jogos), 13 títulos, entre eles o tricampeonato da Copa do Brasil (2000, 2017 e 2018), o bicampeonato brasileiro (2013 e 2014) e sete vezes campeão mineiro (2006, 2008, 2009, 2011, 2014, 2018 e 2019). Foram ainda 34 pênaltis defendidos e dois troféus como melhor goleiro do Campeonato Brasileiro. Uma história vitoriosa.

Fábio foi sinônimo de dia de jogo, de disciplina, trabalho e entrega para e pelo nosso clube. Um profissional exemplar, líder nato, respeitado dentro e fora de campo. Nossa gratidão será, como seu registro na história do Cruzeiro, eterna. E a Toca será, para sempre, a casa do Fábio. Assim como o coração de todos nós.

Vamos planejar uma série de homenagens ao ídolo nos próximos dias. Porque Ele merece e todo cruzeirense também.

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