
Fabio SerapiãoColunas

Propina era tratada como “bênção” em esquema no governo do TO
O governador do estado, Wanderlei Barbosa, foi afastado do cargo em operação que investiga fraudes em contratos para compra de frango
atualizado
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A investigação da Polícia Federal (PF) sobre fraudes em contratos para a compra de frangos congelados e cesta básicas no governo do Tocantins mostra que pessoas ligadas a uma esquema de propina tratavam as vantagens indevidas de “bênçãos”.
O apelido foi constatado na investigação por meio de mensagens obtidas pelos investigadores. que também apontam para a preferência dos envolvidos por dinheiro em espécie para os pagamentos indevidos, usados para camuflar e até mesmo impedir o rastreamento dos montantes.
“Em todos os envolvidos foi possível constatar a preferência pela realização de pagamentos mediante utilização de dinheiro em espécie, sendo comum o fracionamento e o provisionamento de saques em patamar inferior a cinquenta mil reais, muitos deles realizados em um mesmo dia, em prática conhecida como smurfing, para que fosse obstada a comunicação obrigatória de movimentação atípica para o COAF”, afirma decisão sobre o caso.
Como mostrou a coluna, o governador do Tocantins, Wanderlei Barbosa (Republicanos), foi afastado por seis meses do cargo por determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde tramita a investigação.
Em nota, o governador afirmou que seu afastamento se trata de “medida precipitada” e afirmou que o pagamento das cestas básicas sob suspeita se deram em 2020 e 2021, durante a gestão de seu antecessor (leia mais ao final da reportagem).
Os diálogos citados pela PF foram mantidos por Paulo César Lustosa Limeira, conhecido como PC Lustosa e ex-marido da primeira-dama do Tocantins, e seu irmão, Wilton Pires.
Em uma das conversas transcritas na decisão, Wilton afirma que alguém lhe disse que “amanhã já paga”, e ressalta: “É, agora tem que ser em espécie que
eles… até a própria empresa não tá pagando muito negócio de PIX, porque já tem outros rolos, né, outros trem lá….eles tão pagando em espécie irmão, esses caras, diz que tão esperto demais….”.
Já em outra mensagem, em julho de 2024, Wilton encaminha uma foto de uma pilha de cédulas de R$ 100 para PC Lustosa, combinando, segundo a investigação, a entrega da parte que lhe é devida presencialmente.
“Bom dia mano. Ta em novo acordo?”, questiona.

Propina como “bênção”
Segundo a decisão do STJ, em muitos diálogos é possível observar que os irmãos se referiam aos pagamentos como “bênçãos”, “confirmando o grande fluxo de
dinheiro em espécie pelos integrantes do esquema delitivo”.
Em um dos diálogos, Wilton pergunta onde PC Lusta está para lhe “passar sua bênção”. Lustosa afirma, então, que estaria em casa e pergunta: “Tá no centro??”. Ambos travam o seguinte diálogo:
Wilton: Mano, tá por onde? Passar sua bênção
PC Lustosa: Tô em casa irmão
PC Lustosa: Vc tá no centro??
Wilton: Tô
PC Lustosa: Vem pra esta região agora? Senão vou aí até vc
Wilton: Palmas Shopping
PC Lustosa: Tá passo aí já já. Te ligo
Em outra conversa, novamente o “apelido” aparece entre os dois irmãos.
Wilton: Boa tarde irmão. Tá por onde?
PC Lustosa: Boa tarde
Wilton: Quero te passar uma bênção
PC Lustosa: Almoçando aqui no 063 JK. Ouvindo um pagodinho
Wilton: Tô no Palmas Shopping. Pegar o Davi daqui a
pouco
PC Lustosa: Consegue vir aqui ou vou aí assim que sair daqui
Wilton: Mano. Se você puder passar aqui.
Defesa
Em nota divulgada após a operação da Polícia Federal, o governador disse que recebeu decisão do STJ com “respeito às instituições”, mas ressaltou que se trata de “medida precipitada, adotada quando as apurações da Operação Fames-19 ainda estão em andamento, sem conclusão definitiva sobre qualquer responsabilidade da minha parte”.
“É importante ressaltar que o pagamento das cestas básicas, objeto da investigação, ocorreu entre 2020 e 2021, ainda na gestão anterior, quando eu exercia o cargo de vice-governador e não era ordenador de despesa”, afirmou.
Segundo o governador, por sua determinação, a Procuradoria-Geral do Estado (PGE) e a Controladoria-Geral do Estado (CGE) instauraram auditoria sobre os contratos mencionados e encaminharam integralmente as informações às autoridades competentes.
“Além dessa providência já em curso, acionarei os meios jurídicos necessários para reassumir o cargo de Governador do Tocantins, comprovar a legalidade dos meus atos e enfrentar essa injustiça, assegurando a estabilidade do Estado e a continuidade dos serviços à população”, conclui a nota.
