
Fabio SerapiãoColunas

Ex-diretor da PF preso usou cargo para afetar empresa concorrente
Investigação da PF também aponta que o ex-diretor da corporação atuou para trocar um investigador de caso que apurava crimes ambientais
atualizado
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A investigação da Polícia Federal (PF) sobre crimes ambientais e corrupção mostra que o ex-diretor da corporação, Rodrigo Teixeira, preso na quarta-feira (17/9) após ser alvo da operação, usou seu posto dentro da corporação para afetar uma empresa concorrente de seus aliados e tentou trocar um delegado da investigação de um caso de seu interesse.
A PF deflagrou três operações concomitantes na quarta-feira (17) para combater uma organização criminosa voltada para crimes ambientais e corrupção de servidores. Além de Teixeira, também foi alvo de mandado de prisão o diretor da Agência Nacional de Mineração (ANM).
Natural de Barbacena (MG), Teixeira ingressou na PF desde 1999, e foi nomeado como diretor da Polícia Administrativa em 2023, no início do governo Lula (PT). Ele deixou a função no final de 2024.
Segundo a PF, o ex-diretor da corporação teria “mobilizado o aparato repressivo do estado para fins particulares e escusos, visando prejudicar grupo concorrente de seus aliados”.
Isso se deu quando, em 2022, uma diligência foi realizada na empresa Green Metals Soluções Ambientais sem respaldo formal em procedimento investigativo previamente instaurado. Dentre as irregularidades apontadas pela PF, estavam a ausência de verificação prévia da denúncia anônima e a atuação atípica da delegada do caso, que não costumava participar de fiscalizações in loco.
A suspeita de influência de Teixeira na ação foi corroborada, segundo a PF, a partir de depoimentos coletados com delegados. A agente responsável pelo caso chegou a afirmar que recebeu a denúncia do próprio Rodrigo.
A partir de dados obtidos por meio do celular da delegada, a PF também identificou uma mensagem de Rodrigo, de 4 de novembro de 2021, informando a localização da empresa Green Metals, além da decisão judicial que suspendia seu funcionamento.
A PF ressalta que, à época, a Green Metals estava em conflito comercial com o grupo criminoso investigado, integrado por Alan Cavalcante Nascimento e João Alberto Paixão Lages – ambos alvo de mandados de prisão preventiva na quarta-feira (17).
O imbróglio se dava pela recusa da empresa em vender minério à Fleurs Global, pertencente ao grupo criminoso, “circunstância esta que se constitui forte indício de que a ação policial tenha sido utilizada como instrumento de intimidação para favorecer interesses econômicos espúrios do grupo investigado”, diz a decisão que autorizou as ações da PF.

“Ingerência” sobre saída de delegado de investigação
Outro uso “escuso” do cargo é narrado na investigação quanto à “ingerência” do ex-diretor da PF no afastamento de um delegado de investigação sobre crimes ambientais da qual Teixeira tinha interesse.
Os indícios se dão no âmbito do inquérito Poeira Vermelha, que investigou a extração de recursos minerais em Minas Gerais. O delegado que comandava o caso era Frederico Levindo, que ficou à frente da investigação até meados de 2023.
Durante a investigação, Levindo pediu o afastamento cautelar do então diretor da ANM em razão de supostas ilegalidades cometida no cargo e realizou sua oitiva em abril de 2023.
Dias depois da tal oitiva, dois dos investigados trocaram mensagem a fim de marcar um encontro com Rodrigo Teixeira. Um deles foi orientado a levar junto o diretor da ANM ouvido pelo delegado, para que “relatasse sobre o ocorrido com o delegado Frederico”.
Poucos meses depois da reunião, em julho de 2023, Frederico deixou a Delegacia de Meio Ambiente e, consequentemente, a presidência do inquérito. Neste momento, Rodrigo Teixeira já exercia o cargo de diretor da Polícia Administrativa da PF, em Brasília.
No ano seguinte, diz a PF, um dos investigados chegou a comentar com terceiros que Frederico foi “afastado em setembro do ano passado”, demonstrando conhecimento de informação interna da PF.
“Primeiro chama a atenção o fato de ter conhecimento de informações interna corporis da Polícia Federal, inclusive sobre lotação de um Delegado. Segundo, o uso da palavra ‘afastado’. Frise-se que Frederico presidia inquérito para apuração de organização criminosa integrada por Alan Cavalcante, João Alberto, entre outros, relacionada a crimes ambientais e corrupção na obtenção das licenças, de modo que são fortes os indícios do cometimento do crime de embaraço à investigação de organização criminosa”, conclui a investigação.
Operações contra crime ambiental
As investigações que culminaram nas ações da PF investigam uma organização criminosa que teria faturado cerca de R$ 1,5 bilhão por meio de crimes ambientais e corrupção de servidores públicos.
Segundo as apurações, o grupo teria corrompido servidores públicos em diversos órgãos estaduais e federais de fiscalização e controle na área ambiental e de mineração para obter autorizações e licenças ambientais fraudulentas.
Essas autorizações eram utilizadas para explorar irregularmente minério de ferro em larga escala, incluindo locais tombados e próximos a áreas de preservação. Segundo a PF, a s atividades teriam graves consequências ambientais e elevado risco de desastres sociais e humanos.
“A organização criminosa teria atuado para neutralizar a ação do Estado, dificultando as investigações e monitorando autoridades. Além disso, utilizou diversos artifícios para lavar o dinheiro obtido com as práticas ilícitas”, afirma a PF.
Os investigados poderão responder por crimes ambientais, usurpação de bens da união, corrupção ativa, corrupção passiva, organização criminosa, lavagem de dinheiro e embaraçamento à investigação de organização criminosa.
