Saia Justa: de debate inteligente a conteúdo para render nas redes sociais
Coluna Fábia Oliveira analisa os rumos do programa e como a busca por repercussão nas redes acabou ocupando o espaço do debate e da reflexão

Saia Justa e ultrapassada. Houve um tempo em que assistir ao Saia Justa era quase um exercício intelectual. Você podia concordar, discordar, se irritar, mudar de opinião. Mas dificilmente terminava o programa exatamente como tinha começado.
O Saia Justa nasceu com uma proposta que fazia muito sentido: colocar mulheres diferentes ao redor de uma mesa para falar sobre comportamento, cultura, política, sexo, relacionamentos, sociedade e tudo aquilo que atravessava a vida contemporânea. E falar de verdade. Sem medo de desagradar.
Mônica Waldvogel, Rita Lee, Marisa Orth e Fernanda Young ajudaram a construir essa identidade. Eram mulheres com repertórios completamente diferentes, mas havia algo em comum entre elas: conteúdo.
Elas tinham opinião, e principalmente, não pareciam preocupadas em transformar cada frase em um corte para as redes sociais.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesRita Lee podia aparecer de pijama, fazendo tricô, porque a roupa era provavelmente a coisa menos interessante que ela tinha para oferecer naquela noite. O que importava era Rita Lee. Sua cabeça, sua experiência, sua ironia e sua visão de mundo.
Fernanda Young levava livros, referências, cultura e a inquietação. Era capaz de provocar desconforto porque não parecia calcular previamente se sua opinião seria bem recebida.
Marisa Orth talvez tenha protagonizado uma das imagens mais interessantes daquela primeira formação. Depois de anos associada à Magda, personagem propositalmente limitada de Sai de Baixo, mostrou semanalmente que por trás daquela personagem existia uma mulher inteligente, informada, curiosa e capaz de discutir assuntos complexos com profundidade.
Já Mônica Waldvogel fazia aquilo que bons jornalistas sabem fazer: conduzia, contextualizava, perguntava e ajudava a transformar conversa em debate.
O programa não precisava “lacrar”, precisava conversar e talvez seja exatamente aí que esteja o problema do Saia Justa atual.
Ao longo dos anos, suas diferentes formações foram se afastando daquele espírito original até chegarmos a um programa que parece cada vez mais preocupado com a embalagem e menos interessado no conteúdo. A saida de Astrid Fontenelle foi a ultimo sopro de um programa que vem agonizando.
Hoje, o entorno do programa muitas vezes parece dizer mais sobre aquilo em que o Saia Justa se transformou do que o próprio debate: maquiagem, looks, grifes, vídeos para as redes sociais, dancinhas, bastidores e produções cuidadosamente pensadas para repercutir no Instagram.
Nada disso é um problema isoladamente. Moda é cultura. Beleza é comportamento. Redes sociais fazem parte do nosso tempo.
O problema começa quando a embalagem passa a ocupar o espaço daquilo que deveria estar dentro dela.
Eliana, Tati Machado, Bela Gil, Érika Januza e Juliette são mulheres bem-sucedidas, populares e com trajetórias próprias. A questão não é diminuir nenhuma delas. A pergunta é outra: o que o programa pretende extrair dessas mulheres?
Porque reunir mulheres famosas em um sofá não transforma automaticamente uma conversa em relevante.
É preciso repertório. É preciso pesquisa. É preciso contraditório. É preciso disposição para dizer algo que talvez não renda aplausos instantâneos. É preciso parar de tratar toda conversa como potencial conteúdo de quinze segundos.
E chegamos ao ponto simbólico dessa transformação: um programa que já colocou grandes questões da sociedade brasileira no centro da mesa consegue gerar repercussão porque Juliette conta que come talco.
Talco? É esse o debate? Essa é a pauta que repercute? Esse é o assunto a ser trazido?
É essa a conversa que um programa com mais de duas décadas de história quer deixar reverberando no dia seguinte?
O problema não é Juliette contar uma história curiosa. Programas também precisam de leveza, humor e banalidades, mas é preciso senso. O antigo Saia Justa também ria, brincava e falava bobagem, mas fazia pensar, até nas piadas ácidas, nas quais Barbara Gancia se destacava.
A diferença é que a bobagem era intervalo, enquanto hoje, às vezes, parece ter virado a pauta central.
E talvez seja justamente por isso que o Saia Justa tenha se tornado ultrapassado. Não porque seja longevo. Ao contrário: ele ficou ultrapassado porque não percebeu que o mundo ao redor mudou. Em uma época em que qualquer pessoa abre o celular e encontra milhares de vídeos de maquiagem, “looks do dia”, dancinhas, confissões, trends e opiniões instantâneas, a televisão precisa oferecer justamente aquilo que as redes sociais têm dificuldade de entregar: tempo, conteúdo, profundidade, contexto e reflexão.
O Saia Justa tinha tudo isso antes mesmo de essas redes existirem… e abriu mão.
Talvez a maior ironia seja essa: o programa que um dia esteve à frente de seu tempo hoje parece correr atrás dele.
O Saia Justa não precisa de uma roupa nova, ele precisa voltar a usar a boa e velha roupa de ficar em casa e ter alguma coisa para dizer.












