
Fábia OliveiraColunas

Relato de cantora autista expõe violência e bullying nas redes sociais. Veja vídeo
Bea Duarte contou que internautas mandaram que ela se jogasse de uma ponte, após fazer um desabafo sobre suas reações a toques
atualizado
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O que deveria ser apenas um relato cotidiano virou um dos retratos mais duros da intolerância digital recente. A cantora Bea Duarte usou seu Instagram, recentemente, para contar que se sentiu desconfortável ao ser tocada repetidamente por uma pessoa na academia. Para ela, que é autista, o contato físico sem consentimento pode ser um gatilho sensorial intenso.
A publicação era direta, sem ataque, sem exposição de terceiros, apenas um alerta. Ainda assim, bastou para desencadear uma onda de ódio. O vídeo viralizou, ultrapassou 82,2 mil visualizações e foi tomado por comentários agressivos, invalidações e até incentivos à morte.
“Estou trazendo esse vídeo porque é exaustivo. Eu poderia relevar, como sempre fazemos, mas se vocês lerem os comentários, tem gente falando pra eu me jogar de uma ponte por um relato que foi tão simples”, desabafou.
Mês Azul de conscientização
O episódio vem à tona em abril, mês marcado pela conscientização do autismo, o chamado “mês azul”. Mas, na prática, o caso de Bea levanta uma contradição incômoda. Enquanto campanhas falam em inclusão, a vivência real de pessoas autistas ainda é atravessada por rejeição, violência e exclusão, especialmente quando elas ousam falar.
“Essa é a nossa vivência e não é justo que a gente tenha que ver isso calado e continuar excluindo posts, e nos excluindo dos ambientes todos os dias. Sem poder frequentar aulas, locais de exercício, festas, shows”, afirmou ela.
O vídeo
O mais alarmante é que o conteúdo original não tinha qualquer teor polêmico. A cantora apenas apontou um comportamento comum, tocar alguém enquanto conversa, e explicou que isso pode ser desconfortável para muitas pessoas, não apenas autistas. Ainda assim, foi tratada como exagerada, problemática e até como alguém que deveria se afastar da convivência social.
“Engraçado, dizem que TEA não tem empatia, mas o que eu vejo nesses comentários é o oposto. Pessoas que nem estavam envolvidas me xingando por um relato que não era nada demais”, observou.
Dificuldades de aceitação
O caso expõe um problema estrutural. A dificuldade de aceitar limites quando eles não partem do padrão considerado “normal”. Pedir para não ser tocada virou, para muitos, um absurdo. E isso revela mais sobre quem ataca do que sobre quem relata.
“Não estamos pedindo pra que neurotípicos mudem toda a sociedade, porque sabemos que isso não vai acontecer. Então por que pedem pra que a gente desapareça todos os dias?”, questionou.
Exclusão dos neurodivergentes
A fala da cantora também traz à tona um ponto sensível e pouco debatido. O quanto pessoas neurodivergentes ainda são empurradas para fora dos espaços sociais. Não de forma explícita, mas através de constrangimento, julgamento e hostilidade constante.
“A luta antimanicomial não acabou. Enquanto continuarem esses ‘conselhos amigos’ dizendo que é melhor a gente não estar na sociedade, a gente vai ter que continuar falando sobre”, reforçou.
Diagnosticada aos 26 anos, Bea Duarte representa uma realidade crescente, a descoberta tardia em mulheres. Durante anos, ela viveu tentando entender por que tudo parecia mais intenso, mais difícil, mais pesado: “Parece que todo mundo sempre teve o livro de regras, menos você”, pontuou.
A utilização da música
Hoje, a artista usa a música e as redes sociais como forma de expressão e também de resistência. Suas composições refletem experiências profundas, muitas delas ligadas à neurodivergência, criando identificação com milhares de pessoas.
O episódio que viralizou não é um caso isolado. Ele escancara o quanto ainda existe um abismo entre o discurso de inclusão e a prática social. Falar sobre autismo ainda incomoda, principalmente quando rompe com estereótipos e expõe limites reais.
No fim, a pergunta que fica é simples e desconfortável. Até que ponto a sociedade está disposta a respeitar o outro quando isso exige o mínimo de adaptação? Porque, no caso de Bea, não era sobre mudar o mundo, era só sobre não tocar.
Quem é Bea Duarte
Bea Duarte é cantora, compositora e criadora de conteúdo digital. Com uma base fiel de seguidores, a artista se destaca por letras intensas e pessoais, que abordam saúde mental, identidade e vivências relacionadas à neurodivergência.
Diagnosticada com autismo na vida adulta, ela também utiliza sua visibilidade para dar voz a experiências pouco discutidas e ampliar o debate sobre inclusão e respeito às diferenças.












