Fábia Oliveira

Por que Odete se tornou a vilã que amamos odiar (ou odiamos amar)?

A nova versão da personagem Odete Roitman, interpretada por Débora Bloch e grande vilã de Vale Tudo, da Globo, tem roubado a cena

atualizado

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1 de 1 Foto de Débora Bloch como Odete Roitman, em Vale Tudo - Metrópoles - Foto: Globo/ Fábio Rocha

A reta final do remake de Vale Tudo pode não ter parado o Brasil, como em 1988, mas há uma personagem que definitivamente parou a internet: Odete Almeida Roitman. A nova versão da vilã interpretada por Débora Bloch tem roubado a cena, os trends e os corações mais contraditórios da audiência.

Na nova versão, Odete mantém todos os traços que a consagraram: é declaradamente cruel, esnobe, ardilosa, elitista e politicamente incorreta. Em teoria, seria o tipo de personagem a ser odiado, especialmente num momento em que a sociedade discute empatia, inclusão e diversidade. Mas o efeito foi o oposto. A nova geração não apenas abraçou Odete como torce para que ela não tenha o mesmo destino trágico da novela original.

O que explica essa adoração por uma personagem tão controversa?

Talvez o segredo esteja justamente naquilo que deveria afastar o público. Odete tem uma língua afiada, frases que se tornaram “printáveis” e que viralizam nas redes sociais, sinceridade desconcertante e uma postura inabalável, resoluta e autoconfiante. Em tempos de discursos “higienizados” e opiniões filtradas pelo medo do cancelamento, a vilã encarna um tipo de liberdade que muitos não ousariam exercer: falar o que pensam, sem desculpas. É como se ela fosse a personificação de nossos “pensamentos intrusivos”, aquele lado secreto que critica, ironiza e desafia as convenções.

Além disso, há classe. Odete não é apenas maldosa; ela é elegante, articulada e inteligente. Não grita, não esperneia, responde com frases rápidas, frias e mortais. Essa combinação de sofisticação, poder e destemor a transforma em algo próximo de um anti-ícone feminista: uma mulher que se coloca no centro do tabuleiro, decide o jogo e não pede licença para existir. Para uma geração acostumada a vilões caricatos, histriônicos e unidimensionais, Odete soa moderna e, paradoxalmente, autêntica.

Essa identificação revela um dado curioso do imaginário coletivo. Quando torcemos pela vilã, não estamos, necessariamente, endossando suas ações. Estamos celebrando uma postura que gostaríamos de adotar, mas que raramente conseguimos: autoconfiança sem culpa, coragem sem medo do julgamento e astúcia sem pedir desculpas.

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Débora Bloch interpreta Odete Roitman em Vale Tudo
Debora Bloch interpreta Odete Roitman no remake de Vale Tudo
Odete Roitmann e Ana Clara
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Odete se tornou uma espécie de válvula de escape. A heroína dos nossos pensamentos mais sinceros, que a boa educação nos ensina a silenciar.

Se, no passado, Odete Roitman simbolizava o antagonismo puro e simples, em 2025 ela se converteu num espelho incômodo. Um reflexo dos tempos em que a fronteira entre vilania e protagonismo se embaralha e, muitas vezes, o público prefere a verdade cruel à hipocrisia confortável.

Talvez seja por isso que, nesta nova versão, a morte da vilã já não pareça um desfecho tão natural. O Brasil de hoje, ao que tudo indica, não quer ver Odete morrer. Quer vê-la continuar falando o que ninguém ousa dizer.

Esse novo olhar para a personagem, aliás, acabou ofuscando outras figuras centrais da trama. Personagens como Raquel e Maria de Fátima, que são pilares da narrativa, acabaram recebendo menos atenção do público. E isso não se deve, em absoluto, à performance das atrizes ¬- especialmente da espetacular Taís Araújo, que entrega uma Raquel cheia de nuances. A questão é que a nova Odete encontrou uma geração muito mais aberta ao contraditório. Uma geração que, em vez de rejeitar o vilão, se vê nele e até o admira, desde que ele tenha presença, personalidade e frases que viralizam.

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