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Fábia Oliveira

Marina Ruy Barbosa: "Não tenho interesse em repetir o que já sei fazer"

Atriz falou sobre a nova fase da carreira, os desafios de interpretar personagens reais e a busca por papéis que a tirem da zona de conforto

01/10/2026 15:29
Reprodução/Instagram @marinaruybarbosa
Foto colorida de Marina Ruy Barbosa - Metrópoles

Marina Ruy Barbosa está vivendo uma fase de transformações na carreira. Aos 31 anos, a atriz acaba de estrear em Antártida, mergulha em uma nova personagem real ao interpretar Cleonice Rossi, a Nice, primeira mulher de Roberto Carlos, e já se prepara para uma sequência de projetos. Em entrevista exclusiva à coluna Fábia Oliveira, ela contou que, depois de tantos anos diante das câmeras, passou a buscar justamente o que ainda não domina.

“Não tenho muito interesse em repetir aquilo que já sei fazer só porque funciona. Depois de tantos anos trabalhando, o risco ficou mais interessante para mim do que a segurança. Quero me surpreender comigo mesma para assim, surpreender o público”, afirmou.

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Em Antártida, Marina vive Inês, uma personagem marcada por conflitos psicológicos e por uma violência que nem sempre aparece de forma explícita. Para a atriz, o trabalho exigiu principalmente contenção e a construção de sentimentos que não estão necessariamente visíveis. “A Inês me exigiu um lugar de contenção, de silêncio, de coisas que estão acontecendo por dentro antes de aparecerem por fora. E eu gosto muito desse tipo de personagem, porque nem tudo precisa ser explicado para o público”, contou.

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Marina Ruy Barbosa posa com um look preto
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Ao assistir ao longa pronto pela primeira vez, ela teve a sensação de se afastar da própria personagem: “Foi emocionante perceber que toda aquela experiência tão fragmentada de filmar tinha se tornado uma história inteira. E também foi estranho, no melhor sentido, olhar para a Inês e conseguir me afastar um pouco de mim”.

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Agora, a atriz encara o desafio de dar vida a uma mulher que ficou conhecida principalmente por ter sido a primeira esposa de um dos maiores ícones da música brasileira. Para Marina Ruy Barbosa, justamente o que existe além dessa definição é o que torna Nice interessante. “Quem era a mulher que viveu aquele período? Quem era Nice para além da definição de ‘primeira mulher de Roberto Carlos’? Esse ‘para além de’ é sempre onde começo a procurar uma personagem”, explicou.

Ela também falou sobre o cuidado ao interpretar pessoas que realmente existiram, algo que já havia enfrentado ao viver Suzane von Richthofen em Tremembé: “Existe uma responsabilidade adicional porque você não parte de uma página em branco. Há documentos, imagens, relatos, pessoas que conviveram com aquela mulher. Mas eu tento não transformar interpretação em imitação. A pesquisa é fundamental, claro. Observo voz, corpo, contexto histórico, relações familiares, ambiente social. Mas chega um momento em que preciso abandonar um pouco a pesquisa para encontrar humanidade.”

Mais seletiva após anos de carreira, Marina diz que não procura necessariamente personagens consideradas “fortes”, mas figuras complexas, contraditórias e capazes de tirá-la da zona de conforto.

“Quero encontrar alguma coisa que eu ainda não saiba resolver. Se eu leio um roteiro e imediatamente sei como faria aquela personagem, talvez ela não seja a personagem certa para mim naquele momento. Gosto quando existe uma pergunta antes de existir uma resposta”, afirmou.

Leia o papo completo com Marina Ruy Barbosa:

Você estreou recentemente em Antártida. Como foi gravar esse filme e como foi assisti-lo pela primeira vez?
Antártida foi um daqueles projetos que me lembraram por que eu escolhi ser atriz. Foi uma experiência muito imersiva, física e emocionalmente. A Inês me exigiu um lugar de contenção, de silêncio, de coisas que estão acontecendo por dentro antes de aparecerem por fora. E eu gosto muito desse tipo de personagem, porque nem tudo precisa ser explicado para o público. Assistir ao filme pronto foi quase conhecer uma outra obra. Durante a filmagem, a gente está muito perto de tudo: da técnica, da repetição, do cansaço, das decisões de cada cena. Quando você senta no cinema, existe uma distância que transforma aquilo. Foi emocionante perceber que toda aquela experiência tão fragmentada de filmar tinha se tornado uma história inteira. E também foi estranho, no melhor sentido, olhar para a Inês e conseguir me afastar um pouco de mim.

O filme mexe com temas psicológicos. Houve alguma cena ou situação durante as filmagens que ficou especialmente marcada para você?
Mais do que uma cena específica, ficou em mim a atmosfera do filme. Existe uma violência que nem sempre é explícita, mas que vai se instalando aos poucos… nas relações de poder, no medo, naquilo que uma mulher aprende a suportar ou silenciar. Isso me interessa muito como atriz. Às vezes, uma personagem não está sofrendo apenas pelo que está acontecendo naquele momento. Ela carrega tudo o que aconteceu antes, inclusive aquilo que o roteiro não mostra. O trabalho é construir essa espécie de memória invisível. E talvez tenha sido isso que mais me marcou na Inês: perceber o quanto uma pessoa pode parecer absolutamente funcional por fora enquanto existe um mundo inteiro desmoronando por dentro.

Agora você está mergulhada em outro universo completamente diferente, vivendo Cleonice Rossi, a Nice, primeira mulher de Roberto Carlos. Como foi receber esse convite?
Foi uma mistura de felicidade e responsabilidade. Estamos falando de uma história que faz parte da memória afetiva brasileira e de uma figura que todo mundo acredita conhecer porque, de alguma maneira, Roberto Carlos atravessou gerações e entrou na casa das pessoas. Mas justamente por isso me interessou olhar para uma história que existe ao lado desse grande ícone. Quem era a mulher que viveu aquele período? Quem era Nice para além da definição de “primeira mulher de Roberto Carlos”? Esse “para além de” é sempre onde começo a procurar uma personagem. E tem algo muito bonito em mergulhar em outra época, entender os códigos sociais, a maneira como as pessoas amavam, se comportavam, se comunicavam. Você percebe que contar uma história de amor também é contar um pouco a história de um país e de uma geração.

Você também fez muito sucesso como Suzane em Tremembé. Ela e a Nice são duas mulheres reais, mas com histórias completamente diferentes. O que muda na sua preparação quando você precisa entrar na pele de pessoas que realmente existiram?
Existe uma responsabilidade adicional porque você não parte de uma página em branco. Há documentos, imagens, relatos, pessoas que conviveram com aquela mulher. Mas eu tento não transformar interpretação em imitação. A pesquisa é fundamental, claro. Observo voz, corpo, contexto histórico, relações familiares, ambiente social. Mas chega um momento em que preciso abandonar um pouco a pesquisa para encontrar humanidade. Suzane e Nice exigem movimentos quase opostos. Em Tremembé, havia uma quantidade enorme de material público, julgamentos e uma imagem cristalizada no imaginário coletivo. E tentar compreender mecanismos humanos sem confundir compreensão com justificativa. Com Nice, existe outro desafio: recuperar uma mulher que ficou muito menos registrada pela história do que o homem ao lado dela. E isso também diz alguma coisa sobre como, durante muito tempo, nós contamos histórias.

O que ainda vem mais por aí da Marina para 2026/2027 e o que pode adiantar para a gente?
Estou vivendo provavelmente um dos períodos mais intensos da minha carreira. São projetos muito diferentes praticamente em sequência, ainda esse ano estou gravando 3 projetos e já tem um quarto pra ser anunciado. E gosto dessa sensação de não saber exatamente qual será a próxima versão de mim que um personagem vai exigir.

Para 2027, quero continuar fazendo escolhas que provoquem algum deslocamento. Não tenho muito interesse em repetir aquilo que já sei fazer só porque funciona. Depois de tantos anos trabalhando, o risco ficou mais interessante para mim do que a segurança. Quero me surpreender comigo mesma para assim, surpreender o público. Mas a gente só consegue isso dependendo do personagem. Também quero estar cada vez mais próxima das decisões criativas dos projetos. Tenho curiosidade não apenas pela personagem, mas pela obra inteira: por que contar essa história agora? Quem está contando? Qual é o ponto de vista? Acho que essa é uma evolução natural da minha relação com o audiovisual. E estar à frente da maioria dos projetos que tenho me envolvido como produtora também, vai me trazendo um outro tipo de experiência e de escolha.

Depois de tantos anos trabalhando, você está mais seletiva com os projetos que aceita? O que precisa existir em uma personagem para você dizer “quero fazer”?
Muito mais. Quando comecei, eu era uma criança. Durante muitos anos, minha carreira também foi construída a partir das oportunidades que apareciam e do aprendizado de estar trabalhando. Hoje existe uma escolha muito mais consciente. Não procuro necessariamente personagens “fortes”. Acho até que essa expressão ficou um pouco esvaziada. Uma mulher contraditória pode me interessar muito mais do que uma mulher aparentemente forte. Procuro complexidade. Quero encontrar alguma coisa que eu ainda não saiba resolver. Se eu leio um roteiro e imediatamente sei como faria aquela personagem, talvez ela não seja a personagem certa para mim naquele momento. Gosto quando existe uma pergunta antes de existir uma resposta. E existe também uma vontade minha de falar com diversos públicos, escolher projetos e ir em busca de projetos que alcancem faixas etárias e públicos diferentes. Não ficar em um só formato me impulsiona.

Você também construiu uma trajetória forte na moda e nos negócios. Hoje você se enxerga primeiro como atriz ou gosta justamente de não precisar caber em uma única definição?
Eu sou atriz. É a minha profissão desde criança e provavelmente é a linguagem através da qual eu aprendi a observar o mundo. Mas não acho que isso precise diminuir todas as outras coisas que construí e que descobri amar no meio do caminho. Durante muito tempo existiu uma ideia de que, para uma mulher ser levada realmente a sério em uma área, ela precisava quase pedir desculpas por se interessar por outras. Nunca concordei muito com isso. A curiosidade não deveria comprometer a profundidade. Moda, negócios, produção, comunicação… tudo isso desenvolveu outras partes de mim e, de alguma maneira, também voltou para a atriz. Então não tenho problema nenhum com múltiplas definições. Só não gosto quando uma definição tenta anular a outra.