
Fábia OliveiraColunas

Marcas investigam contratos de famosos após falsa promessa de entrega
Especialistaa explica que o mercado da influência digital entrou em uma nova fase e promete deixar muita gente famosa desconfortável
atualizado
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Depois de anos pagando cachês altíssimos para celebridades, atrizes, apresentadores e influenciadores com milhões de seguidores, marcas começaram a fazer uma pergunta incômoda: essas pessoas entregaram mesmo aquilo que venderam?
O mercado começou a sair da sedução da fama para entrar na era da investigação da influência: “Durante muito tempo, o mercado confundiu fama com influência. Só que fama não paga conta, não garante venda e não sustenta ROI [Return On Investment, indicador usado para saber quanto dinheiro a empresa ganhou ou perdeu em relação ao valor investido numa ação]“, começou Marcelo Calone, CEO da empresa que fornece os dados para empresas interessadas em contratar as celebridades.
E deu mais detalhes: “Hoje, marcas estão descobrindo que pagaram caro por números que não necessariamente viraram resultado”, afirmou.
Número de seguidores é insuficiente
O número de seguidores deixou de ser suficiente para justificar cachês altos. Agora, marcas querem saber se houve entrega auditada, engajamento qualificado, conversão, impacto de reputação e cumprimento efetivo do contrato.
“Como uma negociação pode ser séria se quem vende a personalidade não consegue comprovar o comportamento do público? Não basta dizer que alguém é famoso. É preciso provar que essa fama move pessoas, gera resultado e entrega o que foi prometido”, explicou.
Irritação dos contratantes
Nos bastidores, há casos que já causam irritação em departamentos de marketing. Um deles envolve uma atriz global, contratada por representar maturidade, beleza e longevidade, com cachê próximo de sete dígitos.
A promessa era associar a marca a uma imagem aspiracional: uma mulher 50+ com aparência jovial, forte apelo comercial e grande reconhecimento público. Na prática, segundo relatos de mercado, a campanha teria se tornado um problema.
“Quando uma marca paga quase R$ 1 milhão por uma personalidade e depois enfrenta resistência para cumprir entregas básicas, dificuldade de relacionamento, baixa disponibilidade e resultado questionável, isso não é glamour. Isso é risco contratual”, analisou ele.
Investimento vira desperdício
Para especialistas do setor, esse tipo de situação pode rapidamente transformar investimento em desperdício quando não existe planejamento, métrica, responsabilidade e acompanhamento de entrega.
“Celebridade difícil, que não quer cumprir contrato, que trata entrega como favor e não como obrigação, custa muito mais caro do que o cachê. Ela compromete equipe, cronograma, reputação e resultado”, pontuou Marcelo Calone.
Cachês inflados
Outro ponto sensível envolve personalidades que inflam artificialmente os próprios cachês para parecerem maiores do que realmente são. Há casos de ex-apresentadores de TV que divulgam valores milionários no mercado, mas aceitam trabalhar por uma fração disso para fechar contrato.
“Existe gente vendendo uma imagem de grandeza que não corresponde à realidade comercial. Fala que cobra uma fortuna, mas fecha por 10% do valor que espalha nos bastidores. Isso distorce o mercado, prejudica negociações e engana marcas que não têm inteligência de dados para checar”, disparou.
Vaidade e ego
Ainda de acordo com CEO, esse comportamento das celebridades ajuda a criar uma bolha de vaidade em que fama, ego e aparência passam a valer mais do que entrega, reputação e resultado.
“O problema não é a pessoa ser famosa. O problema é vender uma promessa comercial que não se sustenta. Quando a fama vira argumento para inflar cachê, esconder baixa performance ou forçar uma negociação artificial, a marca precisa investigar”, observou.
Revisão de contratos
Empresas já começam a revisar contratos, relatórios e entregas de campanhas antigas. Em alguns casos, quando houver descumprimento de escopo, entrega abaixo do contratado, ausência de transparência ou promessa comercial sem base, a discussão pode chegar à renegociação ou até ao pedido de devolução parcial de valores.
“Se uma personalidade, agência ou empresário vende uma promessa sem lastro, sem métrica auditada e sem responsabilidade sobre a entrega, a marca tem o direito de questionar. Dependendo do caso, pode sim haver cobrança, renegociação ou pedido de devolução de valores”, relatou o especialista.
A discussão, segundo ele, não é uma caça às bruxas contra influenciadores, mas uma cobrança por profissionalização: “Influência não pode mais ser vendida no grito. Precisa de dado, contrato bem feito, auditoria, relatório e responsabilidade. Quem entrega resultado não tem o que temer. Quem vende ilusão, talvez tenha”, esclareceu.
O novo mercado
Para Marcelo Calone, o novo mercado não será comandado por quem tem mais seguidores, mas por quem realmente consegue mover comportamento: “Hoje, a pergunta que uma marca deve fazer não é: quantos seguidores essa pessoa tem? A pergunta certa é: quantas pessoas ela realmente influencia a agir?” aconselhou.
E a mudança já começou a alterar a lógica dos cachês. Celebridades que antes justificavam valores altos apenas pelo tamanho da audiência agora precisam provar relevância, reputação e performance.
“O tempo do ‘me contrata porque eu sou famoso’ está acabando. O mercado entrou na era da investigação da influência. E isso vai separar quem tem audiência de verdade de quem só tem vitrine”, concluiu.