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Lorrana Mousinho fala sobre estreia em Três Graças: “Um sabor único”
A atriz conversou com a coluna sobre a misteriosa Cláudia, personagem que surpreende ao se revelar uma espiã dentro da trama das 21h
atualizado
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Lorrana Mousinho vive um momento especial na carreira ao dar vida à misteriosa Cláudia em Três Graças, personagem que surpreende ao se revelar uma espiã dentro da trama. Em conversa exclusiva com a coluna Fábia Oliveira, a atriz falou sobre o convite, que chegou em um momento decisivo e com um significado ainda maior.
“Dei a sorte de a minha primeira novela ser uma obra que tem ganhado o público e que conta com um time de artistas e técnicos de primeira em todos os setores. Começar na faixa das 21h, numa obra de Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva é algo imenso”, afirmou.
A trajetória até o papel, no entanto, não foi linear. Lorrana Mousinho relembra que chamou atenção durante um workshop e chegou a fazer uma participação anterior, mas enfrentou incertezas antes da grande oportunidade surgir. “Eu achei que uma porta ia se abrir a partir daí, mas não. Quando estava novamente sentindo que só nadava pra morrer na praia, o convite para a novela surgiu (…) Fui escolhida por unanimidade”, entregou.
Na novela, a atriz encara o desafio de construir uma personagem com múltiplas camada: “Foi uma experiência desafiadora e ao mesmo tempo muito prazerosa. Tentei construir pra primeira fase uma personagem mais inocente, pensando em comicidade… Uma primeira fase assim também me ajudou a construir uma segunda que pudesse ser totalmente diferente… Onde eu tentei construir uma mulher mais objetiva, estrategista e inteligente. A personalidade verdadeira, que estaria por trás de tudo isso”, explicou.
Leia a entrevista completa com Lorrana Mousinho:
Estrear em novelas em Três Graças tem um gosto especial? Como recebeu o convite?
Sim, um sabor único. Dei a sorte de a minha primeira novela ser uma obra que tem ganhado o público e que conta com um time de artistas e técnicos de primeira em todos os setores. Começar na faixa das 21h, numa obra de Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva é algo imenso.
Eu estava participando de um workshop da preparadora de atores norte-americana Ivana Chubbuck. Também sou professora da metodologia dela de trabalho no Brasil, compondo o grupo da Marina Rigueira, que foi quem trouxe essa metodologia pro país. Era um palco quente, na plateia havia a presença de muitos produtores de elenco e diretores, eu sabia que precisava mandar bem, que era o espaço ideal pra que eu pudesse mostrar o meu trabalho. Consegui fazer uma cena que se destacou, o meu trabalho como atriz se destacou também.
Na sequência, o Guilherme Gobbi, produtor de elenco da novela, me chamou pra fazer uma participação, que foi ótima, em Família é Tudo. Eu achei que uma porta ia se abrir a partir daí, mas não. Quando estava novamente sentindo que só nadava pra morrer na praia, o convite para a novela surgiu, das mãos do Gui, um ano depois. Ele lembrou do meu trabalho, pegou um vídeo de cadastro que eu tinha na Globo e sem que eu soubesse apresentou meu trabalho com esse vídeo à equipe de direção, produção e etc. Fui escolhida por unanimidade.
O que mais te chamou atenção na personagem Cláudia?
O fato dela ter sido uma infiltrada na casa da vilã, e a possibilidade de criação dessas duas personalidades. Isso também me fala muito sobre a coragem dessa personagem e a sua sede por justiça, porque se colocar num lugar como esse envolve um grande risco.
Fiquei numa busca de tentar criar quais seriam as suas motivações mais profundas pra se colocar nesse lugar, nessa empreitada que quase lhe custou a vida e que ainda pode custar. Na torcida por um desfecho bem dramático que una todas essas pontas.
Como foi construir uma personagem que se revela espiã dentro da trama?
Foi uma experiência desafiadora e ao mesmo tempo muito prazerosa. Tentei construir pra primeira fase uma personagem mais inocente, pensando em comicidade, mais “augusta” dentro da casa, pra formar uma boa dupla com a personagem da Grazi [Massafera], que é quem tinha o poder ali naquela situação. Quando há essa variação entre as personagens os jogos cômicos funcionam mais.
Também trabalhei o meu sotaque nessa direção. Mas sempre mantendo a semente interna de que, na verdade, ela se achava esperta, mas não tinha noção de que a estava enganando (risos). Uma primeira fase assim também me ajudou a construir uma segunda que pudesse ser totalmente diferente, mas manter lembranças da primeira em alguns momentos. Onde eu tentei construir uma mulher mais objetiva, estrategista e inteligente. A personalidade verdadeira, que estaria por trás de tudo isso. Papo longo. Muita coisa pra dizer sobre.
Como foi dividir cena com Grazi Massafera e Eduardo Moscovis?
Foi um prazer. Dois artistas talentosos, com muita experiência no que fazem e generosos. Por mais que eu tenha a minha bagagem de experiências, essa é a minha primeira novela. Foi muito importante, é muito importante observar quem faz isso há muito tempo, a gente se inspira muito. Aprendi um tanto com essas observações e dividindo cena.
Existe alguma cena que foi especialmente desafiadora até agora?
As primeiras cenas da volta da personagem se revelando como espiã. Não foram cenas difíceis, mas existia uma tensão em mim pra construção dessa mudança. O nosso trabalho é muito engraçado, porque existe essa tensão, percebo que existem esses medos em mim e ao mesmo tempo é uma delícia ir ali e “vencer” eles, o frio na barriga. Ser um risco e a adrenalina que vem disso parece quase uma condição pra fazê-lo. Bom, é assim comigo, essa montanha-russa de emoções super bem-vinda.
Como foi “sair” do teatro — onde você tem uma trajetória consolidada — para a televisão?
Na verdade, eu não saí do teatro. Nem pretendo fazer isso, sabe. É o meu principal lugar de prática artística, sinto uma alegria infinita sempre que ocupo esse espaço e me apresento. É mais do que alegria, não sei dizer o que é, acho que posso resumir como um lugar com muita pulsão de vida. Estar em cena é muito isso pra mim, na verdade, seja no teatro, seja no audiovisual.
Eu já tinha experiências com audiovisual no campo da preparação, fiz preparação de elenco infantil e adulto no cinema. Na Globo fiz algumas participações como atriz. Só que estar atrás das câmeras é uma coisa, estar na frente é outra história. Mas as bases de estudo são as mesmas, a trajetória no teatro ilumina essa experiência de agora.
E em relação aos aspectos técnicos, que são diferentes em cada área (lidar com os elementos técnicos do palco é diferente de lidar com os elementos de um set de gravação), por mais que você estude é preciso viver, viver na frente das câmeras. O nosso conhecimento nessa área é “fazedor”, só fazendo, por anos, insistentemente, pra que se incorpore na gente. Não tem como pular etapas, é preciso constância e persistência como em toda forma de arte.
Existe diferença emocional entre estar no palco e estar diante das câmeras?
Emocional eu diria que não. As intensidades são as mesmas, você só precisa entender o quanto é preciso expressar. Mas eu não acredito naquelas frases feitas de que teatro é exagerado, é preciso fazer mais e no audiovisual é preciso menos. Isso é tão reducionista e pouco reflexivo. Existem muitas formas de fazer teatro e muitas de trabalhar com audiovisual. A gente precisa se adaptar às linguagens de cada obra, existe uma multiplicidade de linguagens.
Você pode ir ao teatro hoje e encontrar obras totalmente minimalistas, no que diz respeito à performance dos atores e atrizes e você pode ver um filme de comédia, por exemplo e perceber os atores super expressivos, revelando mais os seus trabalhos internos. Tudo depende da obra, da linguagem escolhida pra contar a história e de ajustes técnicos em relação à maneira como cada linguagem opera. Puxa esse assunto e eu já começo a falar como se estivesse dando aula (risos).
Como nasceu o Projeto Teatro Nômade? O que você já viu transformar na vida desses alunos através do teatro?
O Nômade nasceu em 2016. Fundado pela minha amiga, Luísa Reis e eu, ambas formadas em Licenciatura em Teatro pela UNIRIO. Vamos fazer dez anos esse ano! Inspiradas em um projeto de extensão que existia dentro da faculdade, onde demos aulas de teatro por muitos anos na Biblioteca Infanto-juvenil de lá, pra jovens estudantes de instituições públicas. Decidimos dar continuidade a essa ideia do lado de fora e começar a trazer mais camadas importantes pra nós, descobrindo o que seria o nosso próprio projeto.
Hoje, o Nômade conta com diversas turmas espalhadas pelo Centro do Rio e pela Baixada Fluminense, meu local de origem. Até hoje já passaram pelas nossas turmas centenas de alunos e alunas, todos jovens ditos periféricos, oriundos de instituições públicas de ensino. Ao longo do ano damos aulas regulares gratuitas de teatro para as turmas e no final do ano fazemos montagens de espetáculos. Muitos alunos optaram ao longo dos anos por permanecerem no projeto e hoje são nossos colaboradores, o Nômade hoje é construído a muitas mãos e afetos.
Sobre o que eu vi de transformação na vida das pessoas é até difícil de falar sem escrever 200 páginas (risos), mas acho que o principal é saber que ser acolhido, ter espaço para ser quem se é, poder expressar seus pensamentos, emoções e refletir criticamente na coletividade sobre o mundo que nos cerca, salva vidas. Salvou a minha, sei lá o que seria de mim se não tivesse esse refúgio que é fazer arte e sei que é o que todas as professoras do Nômade testemunham em cada uma das nossas aulas.
Depois de conquistar a estreia em novela, qual é o próximo sonho?
Continuar trabalhando (risos). Pra mim e pra muitos nada está dado, estamos naquele momento da carreira ainda de muitas buscas. Eu espero sinceramente, conseguir fazer mais novelas, ter mais experiências no audiovisual, fazer filmes, séries. Continuar fazendo teatro, com mais estrutura e dignidade de trabalho. Quero conseguir patrocínio pras minhas peças e pro Nômade! Patrocínio vitalício pro Nômade! Quero que a gente tenha uma sede pro projeto também, quero ter uma escola de teatro com a minha irmã.
Gente, é tanta coisa. Talvez fosse bom sonhar com férias também (risos) e com uma vida que se equilibre bem entre trabalhar com o que se ama e ter acesso à possibilidade do descanso, raridade nos dias de hoje em quase todos os ramos de trabalho. Ter acesso ao tempo pra cuidar de si mesmo. Chega respirei escrevendo isso agora.
O que você diria para a Lorrana do início da carreira?
Você é uma pessoa incrível, não te faltam qualidades. Não perde tempo se punindo e tentando desesperadamente acertar. Não precisa tirar 10 sempre. Tá tudo bem. Calma (risos). Começa logo agora a terapia, vai ser bom. Cuida muito de você, da sua autoestima. Não precisa ficar ansiosa com tudo, dê tempo ao tempo, relaxa mais, se diverte mais, não precisa amadurecer tão cedo. As coisas demoram, mas elas acontecem. Aproveita mais o caminho.







