José Junior revela arrependimentos, fala de trajetória e detalha nova série
Em conversa exclusiva, fundador do AfroReggae falou sobre Verônika com K e os caminhos que percorreu ao longo de mais de três décadas

Em conversa exclusiva com a coluna Fábia Oliveira, José Junior abriu detalhes sobre Verônika com K, nova série do Globoplay protagonizada por Roberta Rodrigues, e revelou o que o público pode esperar da produção. No papo, o fundador do AfroReggae falou sobre o impacto social do seu trabalho, sua relação com temas como violência e segurança pública e os caminhos que percorreu ao longo de mais de três décadas. Em um dos momentos mais pessoais da conversa, ele admitiu que faria algumas coisas de forma diferente se pudesse voltar no tempo.
“Eu me arrependo de muita coisa que eu fiz e também me arrependo de muita coisa que eu não fiz”, confessou.
Entre os arrependimentos, citou a falta de presença na vida da mãe, que morreu recentemente, e dos próprios filhos. Ao mesmo tempo, destacou que manter a integridade e os ideais foi fundamental para sua trajetória. “Eu tenho muito orgulho de nunca ter ido para a área errada”, afirmou.

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Segundo José Junior, Verônika com K, que estreia em outubro, terá uma “pegada diferente”, misturando o universo jurídico com ação policial, troca de tiros e conflitos que também se conectam a outras produções do chamado Afroverso. Na nova produção, Verônika é uma advogada criminalista negra que enfrenta altos e baixos enquanto lida com questões envolvendo o crime organizado.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“Ela traz um bastidor do Tribunal de Justiça, de advogados criminalistas, que eu acho que ainda não foi mostrado no audiovisual brasileiro”, afirmou.
Verônika com K faz parte do chamado Afroverso, conjunto de produções interligadas do Globoplay que reúne A Divisão, Arcanjo Renegado, O Jogo que Mudou a História e agora a nova série. De acordo com José Junior, a conexão entre as tramas vai além de referências pontuais. “Às vezes a trama de uma dessas séries começa numa série e termina na outra”, explicou. Um dos exemplos está na participação de Marcello Melo Jr., que volta a interpretar Mikhael, personagem de Arcanjo Renegado.
Confira a entrevista completa com José Junior:
O que você pode adiantar sobre a história de Verônika com K sem entregar spoilers?
Verônika com K é uma série que tá dentro do que a gente chama de Afroverso, que são as séries da AfroReggae Audiovisual interligadas do Globoplay: A Divisão, Arcanjo Renegado, O Jogo que Mudou a História e agora Verônika com K. Por mais que eu tenha feito outras séries, como Betinho: No Fio da Navalha, não tá no Afroverso, não tá interligada, né? O que que é essa que eu chamo de interligada? É quando às vezes a trama de uma dessas séries começa numa série e termina na outra. O próprio Marcello Melo Jr. faz o Mikhael no Arcanjo Renegado e no Verônika ele faz uma participação como Mikhael também.
Nesse elenco, além da Roberta Rodrigues, que é a protagonista, a gente tem o Déo Garcez, o Marcelo Serrado, o André Luiz Miranda, a Maria Ceiça… É uma série que vai ter a parte religiosa muito forte, tanto do Candomblé quanto do Cristianismo. É uma advogada negra que criminalista, que vai viver muitos altos e baixos. Nós gravamos muitas cenas no Morro do São Carlos, no Tribunal de Justiça. E o que eu posso falar é que vai ter ação policial, vai ter troca de tiro, mas a principal ação dessa série é no Tribunal de Justiça. Com a performance dessa advogada interpretada brilhantemente pela Roberta Rodrigues.
Quem é a Verônika que vamos encontrar nessa nova produção e o que mudou na personagem desde sua primeira aparição?
A primeira aparição da Verônika foi na terceira temporada do Arcanjo Renegado. E aí é curioso, porque a treta que ela vai ter na sua série, ela ecoa na terceira temporada do Arcanjo e na quinta do Arcanjo também, que vai estrear em novembro. Tem uma treta ali entre personagens.
O que você acha que vai surpreender o público quando a série estrear?
Olha, eu acho que o público vai gostar bastante, porque ela traz um bastidor do Tribunal de Justiça, de advogados criminalistas, que eu acho que ainda não foi mostrado no audiovisual brasileiro. Então, eu acho que vai ter um impacto e numa linguagem que o público vai gostar, vai curtir, não é aquela coisa chata, né? Que muitas vezes as pessoas falam: “Ah, não quero ver isso aqui, isso aqui é muito texto, muito maçante”, não. Aqui tem uma pegada diferente e dentro desse universo que a gente lida muito bem, que é o universo da ação.
Se você tivesse que definir Verônika com K em três palavras, quais seriam?
Definir a Verônika em três palavras: determinada, focada e competente.
Quantas pessoas hoje conseguem trabalhar direta ou indiretamente por causa dos projetos do AfroReggae?
Esse impacto de quantas pessoas a gente consegue trabalhar, eu não tenho esse número exatamente. Mas é um número bastante significativo, né? Porque você tem ali, vamos dizer assim, a equipe técnica, o elenco, a figuração, os moradores em torno de onde a gente faz as séries e os filmes. É muita gente. E fora o público, né? Aí quando você chega no público, aí são milhões de pessoas.
Você trabalha há décadas com violência, desigualdade, histórias de pessoas que passaram por situações extremas e agora transforma muitas dessas experiências em ficção. Como você impede que esse contato constante com histórias tão pesadas afete sua própria saúde mental?
Eu te confesso que eu não preciso de nada para me desconectar desses temas, porque são temas que eu lido há muitos anos. Só no AfroReggae são 33 anos. Não que a gente só trabalhe com essa questão: segurança pública, violência, tráfico, polícia, bandido, né? Então assim, para mim é algo que vou fazer uma analogia aqui: Eu acho que eu sou um bom surfista de tsunami. Eu já me acostumei.
Durante muitos anos, eu mediava guerra em favela quando tinha essas confusões. Isso esteve muito presente, né? Fiz isso durante muitos anos. Fiz isso durante 25 ou 26 anos. E aí quando eu deixo de ser executivo da ONG, entre 2015, e criei a produtora, eu parei de mediar a guerra. Então, eu sempre tive esse lado muito bem resolvido, que eu acho que tem muito a ver com a espiritualidade. Eu tenho uma relação muito forte com Deus, né, com as divindades: Shiva, Oghun, Xangô, Nossa Senhora de Fátima, São Miguel. Tenho uma relação muito forte também com o Padre João Cláudio, que era o padre de Niterói, da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima. Tenho uma relação forte com alguns babalaôs também. Eu faço meu mapa astral todo mês. Então, eu crio um ciclo de proteção astral, mental, espiritual, que me protege e acaba me conectando com outros tipos de forças e energias que me fazem muito bem.
Você transita entre pessoas da favela, policiais, ex-traficantes, artistas, políticos e empresários. Essa capacidade de circular por mundos tão diferentes é uma das maiores forças do seu trabalho?
Eu falo uma frase há muitos anos, que é criar uma ponte numa vida de mão dupla, onde você integra classes sociais diferentes, culturas diferentes, pessoas diferentes. Eu acho que isso é uma marca do AfroReggae. E esse acesso, esse networking que eu tenho, que nós temos, eu acho que é um grande ativo. Eu já vi situações que eu estava numa reunião, na época com o presidente do Santander, e sair de uma reunião com ele e ir encontrar com um líder comunitário e, no final da noite, ir para um espetáculo de circo do AfroReggae. Então assim, eu acho que esse ativo é um ativo único, é um ativo ímpar que nós temos.
Se você pudesse voltar ao José Junior que começou o AfroReggae, o que diria para ele?
Ao contrário das pessoas que dizem que não se arrependem de nada, eu não sei se eu faria tudo igual, não. Eu acho que eu não faria tudo igual. Eu acho que eu faria diferente. Eu me arrependo de muita coisa que eu fiz e também me arrependo de muita coisa que eu não fiz. Eu acho que eu estaria mais presente com a minha mãe, que foi uma pessoa que eu perdi recentemente, com os meus próprios filhos também. Algumas decisões eu teria revisto.
Agora, o conselho que eu daria para mim mesmo é manter a integridade, não se vender, suas escolhas, seus ideais, é algo que realmente não importa a crise, não importa o problema, sempre vai dar certo. Já vivi muitos altos e baixos, e eu tenho muito orgulho de nunca ter ido para a área errada. Isso desde a minha adolescência. Nunca vivi com uso de droga, nunca nem experimentei nada. Eu nunca me envolvi por causa da minha mãe, tinha muito medo de magoar minha mãe. Então esse amor pela minha mãe eu acho que me ajudou muito a ser quem eu sou. Minha mãe sofreu muito no passado. E isso eu acho que foi também um divisor de águas pro meu caráter.
Então eu acho que manter isso, os ideais, o foco, você manter a conexão com Deus é talvez o principal conselho que eu daria para mim mesmo. Mas, ao mesmo tempo, eu seria um filho mais presente, um pai mais presente. E eu teria sido menos duro comigo mesmo. Eu acho que eu sou uma pessoa que fui muito dura e que eu cobrei muito fui eu mesmo. E isso me fez pagar um preço muito alto.

















