Henrique Zamith cita prazer e desafios ao viver Caetano Veloso nos palcos
O ator interpreta Caetano Veloso no musical Gil: Andar com Fé, dirigido por Miguel Falabella, e que estreou nesta sexta (6/11) em São Paulo

O ator Henrique Zamith recebeu com orgulho uma missão importante na carreira: dar vida ao cantor e compositor Caetano Veloso, de 84 anos, no musical Gil: Andar com Fé, que fala sobre a vida e a obra de Gilberto Gil. Em conversa com a coluna Fábia Oliveira, o artista falou dos desafios do espetáculo, que já está em cartaz em São Paulo.

Receba no seu email as notícias da coluna Fábia Oliveira
Frequência de envio: Diário
Ver todasEspetáculo
Em cartaz até o dia 29 de novembro no Teatro Santander, na capital paulista, o espetáculo é dirigido por Miguel Falabella e atravessa momentos como a Tropicália e a amizade de Gil com outros artistas, como, claro, o próprio Caetano Veloso.
Ao falar sobre o artista, aliás, Henrique Zamith não economizou nos elogios: “É uma pessoa extremamente sensível. Eu não imaginava o quanto ele era poético, filosófico e, ao mesmo tempo, extremamente inteligente social e politicamente”, disse.
O ator também não escondeu que esse é um dos projetos mais marcantes de sua vida. “Eu diria que é o maior trabalho do qual tive a oportunidade de participar até hoje”, resumiu.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesHenrique Zamith começou a estudar teatro aos 9 anos, seguiu para a formação em Artes Cênicas e ampliou sua atuação para o cinema, a música e a dublagem. No audiovisual, participou de diferentes curtas e integrou o longa Silvio Santos Vem Aí, no papel de Dimitrius.
Para viver Caetano Veloso nos palcos, o ator viveu uma preparação intensa. “Meu primeiro trabalho foi entender como Caetano pensa. Queria compreender seus posicionamentos, suas paixões, seus medos, suas inseguranças e também suas esperanças”, contou. A ideia, segundo Henrique, não é imitar o artista, e sim homenageá-lo.
Confira a entrevista completa:
Como foi o processo até conquistar esse papel? Foram quantos testes, seletivas?
O processo começou com o envio de um vídeo cantando uma música do Gilberto Gil. A partir desse material, a banca selecionaria alguns atores para seguir para as fases presenciais. A primeira fase foi a apresentação de uma cena e de uma música. Na segunda, tivemos um teste de canto coral e de coreografia. A terceira fase foi mais afunilada: já trabalhamos com cenas do próprio Caetano Veloso ao lado do Gil e também apresentamos a canção London London para a banca.
Foi um processo longo e muito intenso,mas que de alguma forma passou voando. Depois de aproximadamente um mês da terceira fase, finalmente veio a resposta confirmando que eu tinha passado. Foi um momento de muita felicidade, porque é um projeto que eu me identifico muito.
Você disse que tentou “entender como Caetano pensa”. O que aprendeu sobre ele nesse processo?
Eu aprendi que o Caetano é uma pessoa extremamente sensível. Eu não imaginava o quanto ele era poético, filosófico e, ao mesmo tempo, extremamente inteligente social e politicamente. Ler o livro dele foi muito complexo nesse sentido, porque você entende as posições políticas e sociais dele, mas percebe que existe um universo inteiro por trás daquilo: referências da filosofia, da sociologia, pensadores, ideias. Existe uma rede de pensamentos muito grande por trás do que ele pensa e do que faz ele ser o Caetano.
Além de toda essa dimensão muito politizada, ele é uma pessoa que não esconde o que sente. O Gil, por exemplo, tem uma capacidade muito bonita de, mesmo diante de uma situação ruim, encontrar uma perspectiva positiva. O Caetano me parece diferente. Se ele está sentindo tristeza, ele vai sentir a tristeza. Se está sentindo ânimo, vai sentir o ânimo. Ele não tenta necessariamente transformar aquilo em outra coisa. E existe nele uma certa impulsividade quando algo é muito emocional.
Ao mesmo tempo, ele é extremamente racional. O que acontece emocionalmente com ele, ele tenta compreender racionalmente. Ele busca quase que de maneira exata entender por que está sentindo aquilo, por que está vivendo determinado momento. Essa espécie de sinapse entre emoção e razão me ajudou muito a compreender o comportamento dele diante das situações que aparecem na vida: a ditadura, os términos, os acontecimentos importantes, as perdas e as transformações.
Você tem um longa carreira nas artes, mas o que este papel significa para sua vida profissional?
Esse papel, com certeza, é um marco muito grande na minha carreira. Principalmente pela responsabilidade de interpretar uma figura como Caetano Veloso no palco, dentro de um projeto que tem uma dimensão tão grande. Eu diria que é o maior trabalho do qual tive a oportunidade de participar até hoje.
É um projeto de alto investimento, com profissionais que admiro muito e que são referências para mim, e isso faz com que o alcance também seja muito grande. É muito especial saber que pessoas e artistas que admiro vão assistir ao meu trabalho e, de alguma forma, acompanhar essa trajetória.
Ao mesmo tempo, eu sinto que esse papel representa uma virada. Eu espero que esse marco na minha vida profissional abra portas para trabalhos cada vez maiores e mais desafiadores. Mas, acima de tudo, quero que ele seja uma oportunidade de mostrar o meu trabalho, a minha capacidade como ator e cantor e a maneira como eu enxergo a arte.
Como foi o processo técnico para se preparar para esse papel? Você fez aulas de canto, por exemplo?
Eu venho do estudo do canto lírico e faço aulas de canto lírico já fazem 3 anos. Mas quando eu passei, tinha dado uma pausa nas aulas. Procurei achar o timbre, a personalidade e a forma como Caetano canta de forma mais independente. Foram horas e horas de músicas dele soando em meus ouvidos até meu timbre ficar o mais próximo possível do dele.
Em questão corporal, tive muita sorte em ter auxílio técnico e cênico de Erica Montanheiro (nossa preparadora) e Leilane Teles (nossa coreógrafa). Através de vários exercícios cênicos fomos buscando o melhor corpo e gestos de Caetano, sem cair na mímese ou caricatura.
Onde tive mais dificuldade técnica foi no sotaque baiano. Não queria que soasse artificial ou que doesse no ouvido de quem ouvisse, então tive um trabalho intenso com alguns companheiros de cena baianos (como Calu Manhães, que interpreta Maria Bethânia) que me ajudaram muito a chegar no sotaque baiano mais natural possível.
Qual a importância de levar para o palco figuras tão importantes da cultura brasileira?
Eu sempre pensei que, com o fim da ditadura militar no Brasil, a sociedade fosse abandonar cada vez mais o pensamento reacionário, o conservadorismo absoluto e esses ideais autoritários. Só que, hoje, a gente percebe que esse tipo de pensamento ainda está muito presente ao nosso redor.
Então eu acho que levar essas figuras para o palco também é um papel nosso, como artistas. É uma forma de reafirmar uma luta que, aparentemente, nunca cessa. Caetano e Gil enfrentaram um momento muito duro da história do Brasil através da arte, da música e do amor. Eles tinham, através das músicas, uma força muito grande para fazer as pessoas resistirem ao que estava acontecendo e dizerem “não” para aquilo que precisava ser combatido.
E acho que é muito importante que uma geração mais nova tenha contato com essas histórias. Não só para conhecer Caetano e Gil como grandes artistas, mas para entender o que eles viveram e a força que a arte pode ter em momentos como aquele.
Como você enxerga a polêmica por conta da presença de influencers ocupando o espaço de atores?
Eu acho muito triste que isso esteja acontecendo, porque acaba invalidando uma luta e uma resiliência gigantesca de todos nós, atores. Existe uma ideia de que atuar é simplesmente ligar a câmera, viver aquela situação, falar o texto e pronto. Mas é muito mais complexo do que isso.
Quem escolhe a atuação como profissão dedica horas, semanas, meses e anos de estudo para chegar o mais próximo possível da realidade. É um trabalho muito sensível e muito delicado. Não é simplesmente “vai lá e faz”. Existe uma técnica, existe um estudo e uma complexidade enorme por trás daquilo.
Mas também acho que é importante não colocar toda a culpa neles. O grande problema, para mim, está nas próprias produtoras e empresas que fazem essas escolhas. Muitas vezes, colocar um influencer em determinado projeto já resolve uma parte do marketing, porque ele traz um público e ajuda a vender aquela produção.
Só que isso tem um preço. A gente pode até conseguir mais audiência, mas existe o risco de comprometer o resultado artístico. E quando isso acontece, a crítica acaba recaindo sobre o influencer, quando, na verdade, ele também está sendo colocado em uma posição para a qual talvez não tenha a preparação necessária. Eu espero muito que as produções entendam que a arte não pode ser pensada apenas como uma ferramenta para vender um projeto.













