
Fábia OliveiraColunas

Figurinista de A Viagem critica onda de remakes: “Regressão eterna”
Figurinista responsável pelo visual do personagem Alexandre em A Viagem afirma que excesso de releituras revela crise criativa na TV
atualizado
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O retorno de clássicos da televisão brasileira às telas voltou a dividir opiniões após o anúncio da nova adaptação de A Viagem. Para Heitor Werneck, produtor cultural, ativista e figurinista responsável pela construção visual do personagem Alexandre na versão original da novela, exibida pela Globo nos anos 1990, a indústria audiovisual vive hoje uma espécie de “regressão criativa”.
Na avaliação dele, o excesso de remakes revela uma dificuldade crescente de criar novas narrativas com personalidade própria. “Falta de criatividade. Fazer remake é perigoso. Regressão eterna. Cadê os roteiristas? Cadê os temas atuais?”, questionou.
Conhecido por seu trabalho ligado à cena underground paulistana e pela estética provocativa que marcou parte da televisão dos anos 1980 e 1990, Heitor acredita que personagens como Alexandre se tornaram memoráveis justamente porque não tentavam agradar ou parecer comerciais.
“O Alexandre causava desconforto. Era intenso, teatral, sombrio. Existia uma identidade visual muito forte ali. Hoje parece que tudo precisa ser suavizado para ficar mais aceitável”, afirmou.
Segundo ele, a força da novela estava justamente na coragem estética e emocional da produção. “A novela tinha exagero, tensão psicológica, espiritualidade e uma estética pesada em alguns momentos. Não existia preocupação em deixar tudo limpo ou delicado. Existia personalidade”, disse.
Para Heitor, parte das produções atuais confunde modernização com neutralização visual. “O problema não é atualizar. O problema é tirar a estranheza, a intensidade e a assinatura estética da obra para transformar tudo em um produto confortável comercialmente”, criticou.
O produtor cultural também afirma que a televisão brasileira perdeu parte da ousadia artística que marcou produções de décadas anteriores.
“Nos anos 90 existia mais liberdade estética. Os personagens podiam ser exagerados, visuais marcantes eram permitidos e existia espaço para o estranho, para o incômodo. Hoje tudo parece seguir a mesma fórmula visual”, afirmou.
Na visão dele, Alexandre se transformou em um personagem simbólico justamente porque fugia do convencional. “A tensão emocional, o visual sombrio e até a teatralidade ajudaram a transformar o personagem em algo inesquecível. Não era apenas um vilão comum”, destacou.
Além das críticas aos remakes, Heitor também questiona a falta de produções voltadas a temas ligados à cultura brasileira contemporânea e às religiões de matriz africana. “Por que não falamos sobre Pomba Gira? Existem tantas histórias brasileiras atuais, culturais e espirituais que poderiam virar séries, novelas e filmes”.
Ele cita ainda o filme Iemanjá – Deusa do Oceano, produzido pela Warner Bros. Pictures em parceria com a Ventre Studio, como exemplo do que considera uma descaracterização simbólica de elementos culturais brasileiros. “A Iemanjá vai virar super-heroína de gibi, ninguém fala sobre isso? Eu considero um retrocesso da cultura brasileira”, criticou.
Mesmo fazendo ressalvas às releituras atuais, Heitor afirma não ser contra revisitar obras clássicas. Para ele, o problema está em retirar justamente os elementos que tornaram essas produções marcantes.
“Os grandes clássicos permanecem vivos porque tinham identidade. Quando você remove isso para deixar tudo mais seguro, sobra apenas uma versão domesticada da obra”, concluiu.







