
Fábia OliveiraColunas

Convocação de Neymar traz debate sobre pressão e maturidade no futebol
Especialistas analisam se frustração do jogador poderia ser interpretada como “birra” e explicam os impactos psicológicos da Copa do Mundo
atualizado
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A confirmação de Neymar Jr. na próxima Copa do Mundo encerrou uma onda de especulações sobre uma possível ausência do craque no torneio, mas abriu espaço para outro debate: como o jogador lidaria emocionalmente caso ficasse fora da convocação? E, agora confirmado, ele está preparado para suportar novamente a pressão extrema da competição?
A repercussão aumentou após Bruna Biancardi revelar preocupação com o estado psicológico do atleta diante da possibilidade de não disputar o Mundial. Nas redes sociais, parte do público interpretou a situação como excesso de sensibilidade ou até uma possível “birra” do jogador diante da frustração.
Para especialistas em saúde mental, porém, reduzir a situação a um comportamento mimado simplifica uma questão emocional muito mais profunda. Segundo Glaucia Santana, terapeuta e psicanalista, uma eventual ausência de Neymar na Copa teria um impacto simbólico importante na trajetória do atleta.
“Não dá para reduzir uma possível frustração de um atleta ao termo ‘birra’. Quando falamos de um jogador como Neymar, estamos falando de alguém cuja identidade pública, profissional e emocional foi construída desde muito cedo em torno do futebol, da performance e da Seleção Brasileira”, explicou.
A especialista afirma que, para atletas de alta performance, a Copa representa muito mais do que um campeonato. “Ela simboliza pertencimento, reconhecimento, legado e até reparação emocional. Ficar fora poderia ser vivido como uma perda extremamente significativa”, disse.
Ao longo da carreira, Neymar se tornou uma das figuras mais expostas do esporte brasileiro, convivendo constantemente com críticas sobre desempenho, comportamento e vida pessoal. Esse nível de exposição, segundo Glaucia, pode intensificar o impacto emocional das cobranças.
“A Copa amplia tudo: expectativa, pressão, medo de errar e exposição. Para alguém que não lida bem com críticas, o torneio pode funcionar como um grande gatilho de ansiedade de desempenho”, destacou.
A terapeuta explica que o sofrimento emocional do atleta não está apenas ligado ao resultado dentro de campo, mas principalmente à forma como ele interpreta as críticas recebidas. “Quando um atleta confunde crítica ao desempenho com crítica ao seu valor como pessoa, a Copa deixa de ser apenas competição e vira um teste emocional de identidade”, falou ela.
Segundo Glaucia Santana, isso pode gerar irritabilidade, desgaste psicológico, retraimento emocional e uma necessidade constante de provar valor ao público. Ainda assim, a convocação também pode funcionar como um fator positivo para Neymar. A especialista afirma que o reconhecimento da Seleção pode trazer sensação de pertencimento, retomada de propósito e motivação emocional.
“O fator decisivo é o suporte emocional em volta dele: família, acompanhamento psicológico, equipe técnica, rotina saudável e capacidade de separar performance de valor pessoal”, disparou.
Para Glaucia, existe uma diferença importante entre imaturidade emocional e sofrimento legítimo diante de uma pressão extrema. “Birra é uma reação desproporcional diante de um limite comum. Já o sofrimento de um atleta em torno da Copa envolve carreira, identidade, imagem pública e história pessoal”, explicou.









