Caso Thelma Assis: coerência de famosos também é posicionamento
O verdadeiro compromisso com o antirracismo precisa sobreviver aos convites para a Disney

Quem já foi diminuído pela cor da pele sabe que a dor não termina na hora da ofensa. Ela continua no caminho de volta para casa, no silêncio do quarto, nas lágrimas que ninguém vê e na pergunta que insiste em voltar: “Por que comigo?”.
Para quem nunca passou por isso, é fácil reduzir tudo a exagero. É o famoso “foi só uma brincadeira”, “foi só um apelido”, “foi só um neguinho”. Mas não existe “só” quando uma pessoa é reduzida à sua cor.
O racismo nunca é apenas uma palavra. Ele carrega séculos de violência, exclusão e desumanização.
Reparação histórica
O Brasil ainda deve uma enorme reparação histórica. Somos um país de maioria negra, mas basta olhar para os cargos de comando das grandes empresas, para a tela da TV, para os espaços de maior poder e influência. A representatividade avançou, mas ainda está muito aquém de refletir a realidade do país.
Cada protagonista negro em uma novela, cada jornalista, médico, executivo ou empresário negro que chega ao topo venceu obstáculos que muitos sequer conseguem enxergar.
O caso Thelma Assis
Foi por isso que achei tão importante o posicionamento de Thelminha Assis. A médica venceu na Justiça uma ação movida contra Rodrigo Branco após declarações feitas por ele durante uma live em 2020. O empresário foi condenado por comentários racistas direcionados a ela.
Mas o que mais me chamou atenção não foi apenas a denúncia do racismo. Foi o lembrete de que não basta publicar textos bonitos nas redes sociais quando o assunto está em alta.
Voce precisa parar de andar com o racista se você se diz antiracista. Caso contrário, você só é um racista que se esconde.
Porque combater o racismo exige mais do que palavras. Exige coerência nas escolhas e nas companhias que se decide manter.
Coerência tem preço
O verdadeiro compromisso aparece nas escolhas. É fácil dizer que é contra o racismo. Difícil é abrir mão de conveniências, contratos, convites, viagens, campanhas e relações quando esses benefícios passam a exigir coerência.
A pergunta que fica é simples: até onde vai o compromisso de quem levanta bandeiras nas redes sociais? Ele resiste quando custa dinheiro?
Quando custa um convite? Quando custa uma amizade? Ou termina exatamente onde começam os próprios interesses? E essa minha pergunta vai para famosos como Ivete Sangalo, Simone Mendes, Luciana Gimenez, Deborah Secco, Virginia Fonseca, Livia Andrade e até para o dita amiga de Thelminha, Rafa Kalimann, todas que se dizem antiracistas, mas andam com Rodrigo Branco, condenado recentemente por racismo.
Ninguém é obrigado a romper relações por pressão da internet. Mas quem constrói uma imagem pública baseada em causas sociais inevitavelmente será cobrado quando suas atitudes parecerem contradizer esse discurso.
Combater o racismo não pode ser uma campanha de ocasião. Não pode ser uma legenda pronta no Dia da Consciência Negra ou uma foto com filtro bonito.
É uma escolha diária.
Porque quem sofre o racismo não tem o privilégio de desligá-lo quando fecha o aplicativo. E talvez essa seja a maior diferença entre quem apenas fala sobre racismo e quem realmente está disposto a enfrentá-lo.

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