Fábia Oliveira

Após crítica de Rafael Portugal, especialistas alertam sobre red pills

Ao comentar o tema publicamente, o artista denunciou o que chamou de uma rede de misoginia que se fortalece principalmente na internet

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Rafael Portugal chamou atenção nas redes sociais ao criticar a cultura conhecida como red pill, associada a comunidades digitais que propagam discursos de antagonismo entre homens e mulheres. Ao comentar o tema publicamente, o artista denunciou o que chamou de uma rede de misoginia que se fortalece principalmente na internet e influencia jovens em formação.

Para especialistas em saúde mental e comportamento, o fenômeno é mais complexo do que parece à primeira vista. A chamada cultura red pill não é necessariamente um movimento formal, mas um conjunto de ideias disseminadas em fóruns, vídeos e perfis nas redes sociais que prometem revelar uma suposta “verdade” sobre relacionamentos e papéis de gênero.

A psicanalista e terapeuta Gláucia Santana explica que esse tipo de narrativa costuma funcionar como uma forma de lidar com frustrações emocionais.

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“Quando falamos de Red Pill, estamos falando menos de um movimento organizado e mais de um ecossistema digital de ideias presente em vídeos, fóruns e perfis que prometem revelar uma suposta verdade sobre relacionamentos. A narrativa costuma sugerir que os homens foram enganados por uma sociedade que favoreceria as mulheres e que, para não sofrer, eles precisariam ‘acordar’, endurecer e aprender a jogar o jogo das relações”, disse ela à coluna.

E seguiu: “Do ponto de vista psicanalítico, isso muitas vezes funciona como uma proteção emocional. O discurso oferece respostas simples para dores complexas, como rejeição, frustração, sensação de inadequação ou medo de não ser escolhido. Para muitos jovens, esse tipo de explicação traz um alívio narcísico, porque desloca a responsabilidade para fora. O risco é que a vulnerabilidade masculina, que é legítima, acaba sendo transformada em ressentimento”

Segundo a especialista, quando esse ressentimento encontra comunidade e linguagem, ele pode se tornar parte da identidade do indivíduo.

“O Red Pill promete força, mas frequentemente entrega medo travestido de controle. Em vez de o sujeito elaborar sua própria dor e desenvolver maturidade emocional, ele passa a buscar poder como forma de anestesia. Esse poder aparece na tentativa de dominar o vínculo, controlar emoções e transformar relações em jogos de estratégia. Quando o vínculo vira jogo, a empatia passa a ser vista como fraqueza. E é nesse ponto que comportamentos de desqualificação, manipulação emocional e controle podem começar a ser normalizados”.

A psiquiatra Jessica Martani destaca que comunidades digitais como essas também oferecem uma sensação de pertencimento para quem se sente excluído.

“Esses movimentos costumam surgir dentro de comunidades online que compartilham uma visão específica sobre relações de gênero, muitas vezes marcada por frustração, ressentimento ou sensação de exclusão social. Do ponto de vista da saúde mental, é importante entender que esses grupos oferecem narrativas simplificadas para explicar dificuldades pessoais, como rejeição afetiva, insegurança ou baixa autoestima”, disse.

E completou: “Para muitas pessoas, é mais fácil colocar a culpa no outro do que parar para refletir sobre si mesmo. Ter um inimigo em comum e fazer parte de um grupo cria a sensação de pertencimento e de estar do lado certo da história. O problema é que essas narrativas acabam reforçando a ideia de antagonismo entre homens e mulheres, o que pode distorcer a percepção da realidade e dificultar a construção de relações saudáveis”.

A especialista afirma que, para as mulheres, o impacto vai além das discussões na internet: “Quando discursos que culpabilizam ou desumanizam as mulheres ganham espaço, o efeito ultrapassa o ambiente virtual. Esse tipo de narrativa pode reforçar estereótipos negativos, alimentar hostilidade e legitimar comportamentos de desrespeito. Muitas mulheres passam a enfrentar ataques nas redes sociais, assédio e discursos de ódio com mais frequência. Do ponto de vista psicológico, viver em um ambiente social em que sua dignidade ou autonomia é constantemente questionada pode gerar insegurança, ansiedade e sensação permanente de vulnerabilidade”.

Entre jovens, o efeito também preocupa especialistas. Segundo a psiquiatra, o discurso pode influenciar a forma como emoções difíceis são interpretadas.

“Durante a juventude, muitas pessoas ainda estão formando sua identidade emocional. Quando frustrações pessoais passam a ser interpretadas como resultado de uma suposta injustiça causada por mulheres ou pela sociedade, existe o risco de transformar sofrimento psicológico em raiva direcionada. Alguns jovens passam a validar comportamentos agressivos ou a enxergar a violência como forma de afirmação ou vingança. Na psiquiatria sabemos que sentimentos de rejeição, isolamento e baixa autoestima precisam ser trabalhados de maneira saudável, e não canalizados para narrativas que reforçam hostilidade”, destacou.

A ativista feminista e conservadora Vann Ferreira também avalia que o fenômeno pode representar um retrocesso social. “O movimento chamado Red Pill surgiu na internet e reúne grupos de homens que acreditam que a sociedade enganou os homens sobre como funcionam os relacionamentos. Eles dizem que estão abrindo os olhos dos homens para essa realidade. O problema é que, em muitos desses espaços, acaba surgindo um discurso de desconfiança e até de hostilidade contra as mulheres. Isso pode influenciar principalmente jovens que ainda estão formando sua visão sobre relacionamentos”, explicou.

Para ela, o risco está na normalização do desrespeito. “Quando esse tipo de conteúdo reforça raiva ou desprezo pelas mulheres, existe o risco de normalizar comportamentos agressivos. Na minha visão, esse tipo de movimento pode representar um retrocesso, porque em vez de promover diálogo e equilíbrio entre homens e mulheres, acaba estimulando a ideia de conflito permanente entre os dois. A sociedade precisa avançar para relações mais maduras e respeitosas, não para uma guerra entre homens e mulheres”.

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