
É o bicho!Colunas

Miado inédito de onças-pintadas indica comunicação entre mãe e filhote
Os registros de três onças-pintadas emitindo sons parecidos com miados foram feitos por pesquisadores no Parque Nacional do Iguaçu (Paraná)
atualizado
Compartilhar notícia

Para os amantes dos felinos, um dos sons mais agradáveis é poder ouvir o miado de um gatinho fofo. Durante muito tempo, o som foi considerado quase exclusivo dos felinos domésticos e de alguns selvagens de pequeno porte. Entre os predadores, como onças, leões e tigres, o que se conhecia eram apenas os rugidos potentes.
No entanto, um estudo recente, da revista Behaviour, sugeriu que esse conceito pode cair por terra. A pesquisa foi baseada em registros do ambiente selvagem, em que onças-pintadas foram flagradas emitindo sons parecidos com miados.
Realizado no Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, o trabalho envolveu além de pesquisadores do Projeto Onças-Pintadas do Iguaçu, do WWF Brasil e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, estudiosos da Universidade de Salford (Reino Unido) e da Universidade Tecnológica do Atlântico (Irlanda).
Miado de onça?
As imagens e áudios foram captados por câmeras-armadilha instaladas no local, considerado um dos mais importantes na preservação da onça-pintada na Mata Atlântica. No total, foram três gravações — duas de uma fêmea adulta e outra de uma jovem, que tem por volta de um ano.
Os sons emitidos eram agudos e breves, com um padrão semelhante ao dos bichanos domésticos. Para os autores, o fator mais surpreendente é que todas as gravações tem o mesmo perfil sonoro, o que não era visto entre a espécie.
“Até onde sabemos, esta é a primeira vez que se registram onças-pintadas utilizando esse tipo de comunicação, o que nos deixa extremamente entusiasmados”, disse a coautora Marina Duarte, da Universidade de Salford, em comunicado.
O que a ciência acreditava, até então, é que, diferente dos gatos, os grandes felinos do gênero Panthera não emitiriam miados devido à anatomia de sua garganta.

A rigidez flexível do osso hioide e o formato das cordas vocais, adaptados para o rugido, impediriam a produção do som mais agudo. Porém, as novas gravações demonstram que as espécies podem ter uma diversidade de vocalização bem maior do que se sabia até então.
Comunicação de mães e filhotes
Os registros feitos durante a pesquisa aconteceram em cenários de separação temporária entre fêmeas e filhotes. A primeira, de abril de 2022, mostra um onça adulta passando por um trecho em que seu filhote percorreu no dia anterior. Nesse caso, foram gravados três “miados”, com diferença de quatro a cinco segundos.
Depois, em dezembro, a mesma adulta foi vista emitindo um único som, que durou menos de um segundo, enquanto estava acompanhada de um filhote mais novo.

“Esses resultados mostram a importância dos esforços de longo prazo para a conservação dessa espécie icônica da Mata Atlântica e reforçam que ainda há muito a aprender sobre como as onças-pintadas interagem e se comunicam em seu ambiente natural”, afirmou Vania Foster, chefe de pesquisa do Projeto Onças-Pintadas do Iguaçu.
A terceira captação é da felina jovem, emitindo quatro vocalizações, durante uma caminhada com a irmã. Segundo os estudiosos, os chamados, nesse episódio, eram para a mãe, que devia estar em locais próximos.
Para o grupo, esses sons agudos servem como um sistema de rastreamento para que mães e filhotes se reencontrem quando separados. Apesar de o barulho poder sinalizar a presença de presas para outros carnívoros, a proteção da mãe é mais valiosa para a sobrevivência.
