Réu por expor vidas, Marçal leva ao Ironman coachs despreparados para nadar
Grupo de coachs ligados a Pablo Marçal se inscreveu para participar de um Ironman apesar de várias deles terem medo de nadar

Quase quatro anos depois de levar um grupo de pessoas inexperientes em montanhismo para uma expedição, demandar uma longa operação de resgate e virar réu por colocar vidas em perigo, o ex-coach Pablo Marçal voltou a expor seus seguidores a grave risco. Cerca de 30 dos seus “Legendários” mais próximos se arriscaram em um Ironman no Paraguai sem uma preparação mínima no domingo (11/13). Vários demonstraram medo de nadar. O próprio Marçal precisou ser resgatado da prova de natação, disputada em águas agitadas.
“Eles foram irresponsáveis”, disse à coluna o organizador da prova em Encarnación, o triatleta Rodrigo Recalde Larrea. “Em 23 anos no triatlo, eu nunca vi algo parecido. Apresentamos essa situação ao Ironman global, para entender como encarar uma situação dessas no futuro. Além disso, denunciamos quatro atletas para que eles sejam suspensos por atitude antidesportiva”, contou.
O Ironman é uma franquia mundialmente conhecida de competições de triatlo, com provas em três distâncias. O realizado em Encarnación, no sul do Paraguai, foi na versão 70.3, que prevê 1,9km de natação em águas abertas, 90km de ciclismo e uma meia-maratona (21,1km). Por causa das fortes chuvas nos últimos dias e da correnteza no Rio Paraná, a perna de natação foi mais curta, de 1,5km.
No sábado (10/10), quando os atletas realizam o habitual reconhecimento do local (nadam, pedalam e correm pelo circuito), a organização notou algo inédito: diversos inscritos, todos de um mesmo grupo, não tinham condições de nadar por uma hora a fio em um rio de correnteza. O risco óbvio é de afogamento.
“Notamos que havia um grupo grande de atletas que pareciam ter muito medo de nadar. Da nossa parte, o que podíamos fazer era aumentar a segurança. Colocamos mais 15 pessoas de segurança, para um total de 42 no circuito de natação. Também contratamos 10 caiaques extras”, conta Larrea, que não soube dizer o número de atendimentos realizados. A vazão de água era tão forte que, na segunda (12), a Argentina fechou o acesso Cataratas do Iguaçu.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesPelas regras universais do Ironman, a prova de natação dura no máximo 1h10. Quem excede esse tempo para completar o percurso na água precisa devolver o chip e é automaticamente eliminado. Entre 386 inscritos, 64 extrapolaram o tempo, entre eles 35 brasileiros, pelo menos 18 deles (a maioria) do grupo de Marçal.
À coluna, ele negou envolvimento com a ida dessas pessoas – entre sócios e conselheiros dele – para a prova. “Aqueles que compareceram no grupo foram voluntariamente e sem orientação ou liderança, até porque todos treinaram individualmente e também participaram da prova por conta própria. Como todo tipo de prova, alguns não completaram a prova ou deixaram de fazer alguma modalidade por observar cada um suas próprias condições físicas“, afirmou – leia o posicionamento completo no final da reportagem.
Outro presidenciável participou da prova e causou problemas: Wilson Grassi Jr. Candidato do Democracia Cristã, ele, que é ultramaratonista, participou por conta da prova no Paraguai e, apesar de ter sido desclassificado da prova de natação por ter extrapolado o tempo, se recusou a deixar a competição. Agora, deverá ser suspenso por pelo menos dois anos, por atitude antidesportiva. Dois outros brasileiros, ambos da equipe de Marçal, estão na mesma situação.
Fracasso não aparece no Instagram
No Instagram, desde domingo, parte desses “legendários” têm se orgulhado de participar da prova sem a preparação adequada. É o caso de Wagner Gorgulho, um dos que completou mesmo estando desclassificado. Na rede social, ele disse que decidiu “encarar” a prova com onze dias de antecedência e que seu objetivo era “descobrir até onde a mente consegue levar o corpo”.
É o mesmo caso do também legendário/coach Davidson Silva, que fez diversas postagens relatando que aprendeu a nadar em um dia e que se preparou durante 20 dias para a prova no Paraguai. Os dois estão entre os que encheram seus perfis de mensagens motivacionais defendendo que, com força de vontade e preparação mental, é possível completar um Ironman (na verdade, um meio-Ironman) mesmo sem o treinamento adequado.
O que não vai para as redes sociais são os casos de insucesso. De 25 inscritos tendo como base a cidade de Santana de Parnaíba (SP), onde Marçal mora e tem negócios, só sete completaram, quatro deles com tempos acima de oito horas – o padrão é quem não completar até 7h30 ser eliminado, mas foi aberta exceção em Encarnación por disponibilidade da via.
Nos perfis dos eliminados – como Izaque Lima, Paulo Corrales, Adonis Carnevale e Leandro Cita, todos coachs ligados a Marçal – nenhuma postagem sobre não terem conseguido chegar completar a parte nadada. Pablo Marçal e a esposa também não contou aos seguidores que não completaram a prova e precisaram de um jet ski para sair da água.
Dos poucos a admitir que não chegou onde queria foi Paulo Henriques, que se apresenta nas redes sociais como sócio de Marçal e foi eliminado na natação. Ele recomendou que os seguidores, para fazer uma prova do tipo, “treinem de verdade”.
“Nosso grupo tinha umas 60 pessoas, a gente estava fazendo esse Ironman com 15 dias de preparação. Pouquíssimas conseguiram completar, por motivos óbvios. Não tem como se preparar para uma prova dessas em 15 dias. Se você quer vir para uma prova dessa, treine de verdade. Tem que fazer uns 6 meses de preparação, no mínimo. Sou atleta de outras modalidades e não tem nada a ver. Foi difícil demais”, reconheceu.
Proibido no Brasil
Desde 2022, Pablo Marçal está proibido de promover qualquer atividade externa – como em montanhas, picos, rios, lagos e mares – sem prévia e expressa autorização da Polícia Militar (incluindo Corpo de Bombeiros), da prefeitura e da Defesa Civil local.
O coach é réu em processo que corre no interior do estado com base no artigo 132 do Código Penal, que trata de expor a vida ou a saúde de outra pessoa a perigo direto e iminente. Em 2022, ele liderou uma expedição ao Pico dos Marins, em Piquete (SP), que quase terminou em tragédia e mobilizou o Corpo de Bombeiros para o resgate de 32 pessoas, em operação que levou nove horas.
Agora, ele conseguiu inscrever pelo menos 5 pessoas de última hora no Ironman Encarnación aproveitando-se do fato de a modalidade ainda estar engatinhando naquele país – a primeira edição do Iron no Paraguai foi no ano passado. No Brasil, as provas costumam ter inscrições esgotadas rapidamente, diante de um boom do triatlo, especialmente entre empresários.
Os organizadores dizem que não tinham como saber que os inscritos não estavam preparados para competir porque não têm acesso a dados históricos dos “atletas” e a ficha de inscrição apenas detalha se ele tem alergias, asmas ou outros problemas de saúde, o que não seria o caso dos Legendários. Agora, corre discute com o Ironman global como evitar que isso se repita em outros eventos da rede.
Atitude antidesportiva
Dos 64 eliminados após a natação, quatro – dos quais três brasileiros – se recusaram a cumprir as regras do Ironman e rejeitaram entregar o chip e abandonar a disputa. A organização optou por não informar os nomes, mas ao menos dois são do grupo de Marçal. Eles devem ficar suspensos de dois a quatro anos.
“Valorizamos muito a colaboração dos voluntários, eventos dessa magnitude não podem ser realizados sem ajuda de polícia, guardas, voluntários. Uma conduta que é penalizada com sanções de anos sem poder participar é uma penalização muito grave, de maltrato às pessoas voluntários, qualquer pessoa que represente a empresa. Essa é uma conduta antidesportiva que nós não toleramos”, explicou o organizador.
O outro brasileiro envolvido é Wilson Grassi Junior”, que chegou à linha final em 8h22, conforme mostrou nas redes sociais, mas formalmente foi eliminado depois de extrapolar o tempo de natação. À coluna, ele reconheceu a infração e disse que cumprirá eventual suspensão. Mas pediu para ser diferenciado do grupo de Marçal, composto por gente sem preparação.
“Choveu muito e tinha muita correnteza no rio. Esse trecho da natação foi muito difícil e perigoso. Em minha defesa, eu estava preparado , mas realmente devido as chuvas o rio estava muito agitado. Se eu tiver que ser punido, aceito, temos que assumir. Eu acho que não fui irresponsável, mas se for punido, aceitarei”, afirmou, relatando que o grupo de Marçal terminou a prova xingando Lula.
O que diz Marçal:
À coluna, a equipe de Marçal negou a participação dele na organização do grupo que competiu e disse desconhecer qualquer tipo de desordem. “Estiveram dezenas de brasileiros no Paraguai para realizar a prova do Ironman e não conhecemos muitos brasileiros que estiveram ali. Aqueles que compareceram no grupo foram voluntariamente e sem orientação ou liderança, até porque todos treinaram individualmente e também participaram da prova por conta própria. Como todo tipo de prova, alguns não completaram a prova ou deixaram de fazer alguma modalidade por observar cada um suas próprias condições físicas. Não temos notícia de qualquer desordem ou violação das regras do evento. Da mesma forma, não há qualquer relação com eventos anteriores ou provas anteriores que o Pablo esteve presente“.

