Demétrio Vecchioli

PF: prefeito tiktoker é líder de esquema que lavou dinheiro em igreja

Defesa de Rodrigo Manga alega que investigação “é fruto de perseguição política”; prefeito foi afastado por decisão judicial

atualizado

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1 de 1 Imagem colorida mostra homem branco vestindo blazer azul marinho e camisa azul claro. Ele é calvo e olha para a câmera - Metrópoles - Foto: Reprodução/ Instagram

Depósitos “colossais” em dinheiro fracionado na conta da igreja dos cunhados de Rodrigo Manga (Republicanos) eram seguidos de pagamentos por serviços não prestados pela esposa do próprio Manga. Para a Polícia Federal (PF), esses são alguns dos indícios de que um grupo criminoso que tinha como líder o prefeito de Sorocaba (SP) lavava dinheiro de origem ilícita, beneficiando o político famoso no TikTok. Manga foi afastado do cargo por decisão da Justiça, após pedido da PF.

As investigações que deram origem à segunda fase da Operação Copia e Cola, desencadeada na última quinta-feira (6/11), apontam que a lavagem de dinheiro continuou até, pelo menos, a véspera da primeira fase da operação, em abril.

Na ocasião, a PF encontrou R$ 903 mil em dinheiro na casa dos cunhados de Manga e R$ 646 na residência do empresário Marco Mott, amigo de infância do prefeito agora afastado. Mott e o “bispo” Josivaldo, concunhado de Manga, estão presos. A “bispa” Simone, sua cunhada, está foragida.

A quebra de sigilos bancários mostrou que, entre o início do mandato de Manga, em 1º de janeiro de 2021, e abril de 2025, foram feitos:

  • 2.221 depósitos em dinheiro na conta corrente de Josivaldo Batista de Souza, no total de R$ 2,917 milhões;
  • 958 depósitos em dinheiro na conta da Cruzada dos Milagres dos Filhos de Deus, igreja de Josivaldo e sua esposa Simone, no total de R$ 1,730 milhão;
  • 258 depósitos em dinheiro na conta do empresário Marco Mott, no total de R$ 6,520 milhões.

Tão logo Manga assumiu a prefeitura de Sorocaba, ainda em janeiro de 2021, a Cruzada dos Milagres e o estacionamento Mosteiro Park, de propriedade de Mott, firmaram contratos de marketing digital com a empresa à época denominada Sirlange Rodrigues Frate Maganhato – ME (atual 2M Comunicação). Sirlange é a esposa de Manga.

Por esses contratos, idênticos, a primeira-dama recebia R$ 30.000 por mês da igreja da irmã e R$ 8.500 do estacionamento.

Para a PF, os contratos “não passam de ficção, um estratagema elaborado com a finalidade de reinserir na economia formal os vultosos valores de origem ilícita, provenientes da atividade criminosa desenvolvida pelo grupo, intrinsecamente vinculada ao exercício do nobre cargo eletivo de prefeito municipal.”

Celulares mostram que serviços não eram realizados

Durante a primeira fase da Copia e Cola, os policiais apreenderam também três aparelhos celulares com Mott e outros dois com o pastor Josivaldo. Neles, conversas mostram que ambos tinham contratos reais de marketing digital  com outras empresas.

No caso do empresário, já em 2024 – enquanto continuava pagando os serviços da primeira-dama –, Mott contratou uma empresa para cuidar das redes sociais do estacionamento pagando R$ 2,5 mil/mês, o que para a PF é mais um indício de que o contrato de R$ 8,5 mil fechado em 2021 era fajuto. Após mais de três anos de serviço, o Instagram do Mosteiro Park tinha 87 seguidores.

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Foram identificados atos de lavagem de dinheiro, por meio de depósitos em espécie, pagamento de boletos e negociações imobiliárias
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Operação Copia e Cola
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Operação Copia e Cola

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Carro apreendido pela PF
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Carro apreendido pela PF

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Já a igreja Cruzada dos Milagres tem uma equipe própria de marketing digital, apesar de pagar R$ 30 mil por mês à primeira-dama. Em julho de 2024, quem cuidava das redes sociais dos pastores, como mostram relatórios de resultados, era a VB Creations, especializada em perfis evangélicos.

“Os contratos de publicidade firmados com a pessoa jurídica 2M Comunicação revelam de maneira irrefutável a prática de lavagem de dinheiro, pois os contratos dissimulados serviram de lastro aparente para que o grupo criminoso esquentasse, bem como para que continuasse esquentando colossais quantias de valores provenientes de atividades criminosas”, alega a PF.

Ainda segundo a PF, esses pagamentos, que ligam Manga ao suposto esquema de desvio de recursos públicos, continuavam ocorrendo até abril, o que refuta a alegação da defesa do prefeito de que as investigações tratam de situações ocorridas em 2021.

Contratos emergenciais

A Polícia Federal iniciou a investigação  aponta que o dinheiro era desviado de dois contratos da prefeitura de Sorocaba com a organização social IASE (antiga ACENI), firmados de forma emergencial em 2021, para gerir da UPA do bairro do Éden, e em 2022, para administrar a UPH Zona Oeste. Esta segunda contratação seguiu em vigor até maio passado.

Entre os documentos encontrados na casa de Sergio Peralta, presidente do IASE, estava um ofício da prefeitura de Cubatão (SP) para outra OS, o Instituto Alpha, concorrente do IASE na contratação emergencial de 2021. Para a polícia, o documento demonstra relação entre Peralta e o instituto que, “não por mera coincidência” apresentou orçamento superior ao do IASE, o que comprovaria o direcionamento da contratação.

Já entre as muitas mensagens encontradas no celular do ex-secretário de administração Fausto Bossolo apresentadas na denúncia da PF aparece uma da esposa de Manga, em 5 de julho de 2021, afirmando que a IASE  “Vai assumir a UPA do Eden”. A concorrência só ocorreu três dias depois.

“Peralta” é um dos nomes que aparece na contabilidade paralela de Josivaldo, encontrada em um bloco de notas no celular dele. Sempre de acordo com a PF, a contabilidade mostrava três “entradas” de “150” em nome de “Peralt” e “pelta”.

Mott também aparece como intermediário de uma série de reuniões envolvendo Manga, de quem era amigo pessoal, e Bossolo, que também recebia frequentemente o pastor concunhado do prefeito.

Quando questionado pela PF se conhecia Josivaldo, Mott disse que não tinha nenhuma relação com o pastor. “Nenhuma relação, zero”, afirmou, relatando ainda que só esteve uma vez com o concunhado de Manga, no estacionamento. Os celulares apreendidos mostram que eles realizaram 116 ligações de vídeo ou áudio em 14 meses entre eles.

O que dizem os investigados

A defesa da primeira-dama diz que “todas as operações financeiras mencionadas na investigação são lícitas, corroboradas por documentação e devidamente declaradas em imposto de renda”. “Ademais, informa que todos os serviços mencionados foram efetivamente prestados e os valores faturados correspondem às atividades executadas. Aliás, esclarece que todos os impostos devidos foram devidamente recolhidos, evidenciando que não houve qualquer ilegalidade ou ilicitude. A Defesa rechaça veementemente as acusações e aguarda que a investigação seja arquivada com brevidade, elidindo-se as injustas ilações vazadas.”

Já a defesa de Rodrigo Manga disse que ” a investigação conduzida pela Polícia Federal de Sorocaba é completamente nula, porque foi iniciada de forma ilegal e conduzida por autoridade manifestamente incompetente. Além disso, é fruto de perseguição política, não havendo nada de concreto a relacionar o prefeito nesse inquérito policial.”

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