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Demétrio Vecchioli

Perito de Dark Horse tenta convencer Corinthians que Arena está quase paga

Aníbal Castelo Branco, que assina perícia privada contratada pelo filme, alega que cobrança por dívida do Corinthians é indevida

03/09/2026 02:00
José Manuel Idalgo/Agência Corinthians
Imagem do estádio do Corinthians mostra visão desde as cadeiras centrais, com o gramado e as cadeiras vazias

Responsável por assinar o parecer garantindo que todo o dinheiro utilizado em Dark Horse veio do fundo abastecido por Daniel Vorcaro, o administrador de empresas Aníbal Castelo Branco se reuniu com a diretoria do Corinthians na quarta-feira (2/9) para tentar convencê-la de sua tese de que o clube já estaria perto de quitar a dívida com a Caixa pela construção da Neo Química Arena.

Conseguiu a promessa de que ele passará a integrar uma comissão que analisa o contrato e terá acesso aos números e documentos protegidos por sigilo comercial.

A “perícia” feita por ele, que ignora fatos posteriores a 2019, também foi apresentada ao Ministério Público de São Paulo, que abriu um procedimento administrativo para apurar se a Caixa Econômica Federal está cobrando irregularmente o clube – ainda que qualquer processo de interesse do banco federal seja de competência federal.

O documento assinado por Castelo Branco lembra que, quando entrou na Justiça cobrando R$ 536 milhões do Corinthians em 2019, a Caixa informava que o saldo devedor era de R$ 423 milhões. E reconhece que que os documentos juntados aos autos não contêm a memória de cálculo completa de como se chegou a este valor. Mesmo sem acesso a “valores liberados, encargos incidentes, taxas aplicadas, amortizações, pagamentos, incorporações” e outros dados que compunham o montante, ele calculou que na verdade o débito do Corinthians de cerca de R$ 280 milhões.

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Atualizando o valor com juros, segundo o administrador de empresas, a dívida do Corinthians seria R$ 402 milhões menor do que a atual, que calcula-se esteja na casa de R$ 600 milhões. “Além disso, quando o Corinthians deixou de pagar, a Caixa cobrou uma multa de 10% sobre o saldo devedor, de R$ 48 milhões, o que deu os R$ 536 milhões. Mas ela só deveria ter cobrado os 10% sobre o valor em atraso, o que daria R$ 3,7 milhões”, afirma ele.

Como o contrato é sigiloso, e os pagamentos também, Castelo Branco não tem acesso a dados posteriores aos que foram juntados a esse processo de 2019. “Eu me dediquei a entender o que aconteceu até 2019. Tem diferença, então tudo que está para frente está contaminado”, ele diz.

A Caixa nega qualquer tipo de irregularidade. “A contratação original, de 2013, e a renegociação concluída, em 2022, foram submetidas e acompanhadas por efetivo assessoramento técnico e jurídico da CAIXA e do Corinthians, bem como aprovadas por rigorosas regras de governança, de ambos os lados”, disse o banco. Leia a nota completa no final da reportagem.

Quem é o perito Aníbal Castelo Branco

O financiamento da construção da Arena Corinthians começou em 2013, quando o clube levantou R$ 400 milhões junto ao BNDES. Desde então, calcula-se que o Corinthians já tenha pago cerca de R$ 600 milhões, faltando quitar valor semelhante – no final de 2025, o saldo devedor estava em R$ 642 milhões.

O montante agora é contestado por Castelo Branco, que se apresenta como presidente do Instituto de Perícia Investigativa (IPI). Apesar do nome pomposo, o IPI não é um “instituto”, mas uma microempresa individual de capital social de R$ 10 mil, novo nome da Centralizadora de Cálculos Judiciais e Extrajudiciais (CAJESP), microempresa da qual ele se anunciava “presidente”. “A legislação diz que eu posso colocar o nome que eu quiser, a empresa pode ter o nome que comercialmente soa melhor”, explicou à coluna.

Castelo Branco assina como membro do Conselho Regional de Administração e da Ordem dos Peritos Judicias de São Paulo, criada por ele mesmo.

No currículo dele também aparece a presidência da Associação Brasileira dos Peritos Judiciais (ABRAPEJ), que não tem site e cuja atividade no Instagram, suspensa desde 2021, se limitava a venda de um livro escrito por Castelo Branco, do suposto Instituto Brasileiro de Finanças, Perícias e Cálculos, do qual a coluna não encontrou outras referências senão em materiais e entrevistas do próprio contabilista, e do Instituto Matemática Financeira, idem.

De acordo com o site do IPI, a microempresa de Castelo Branco tem mais de 7 mil laudos produzidos e mais de mil escritórios atendidos, números que contrastam com bancos de dados públicos, como o JusBrasil, que citam laudos ou pericias de Castelo Branco, o IPI, ou a CAJESP em raros processos, todos de baixo valor.

“Eu já tive outros trabalhos bem sucedidos, várias coisas bem feitas. Eu realmente estou trabalhando sempre em casos interessantes. Faço meu trabalho. Não fico preocupado com essas questões aí, de citação. Estou há 20 anos no mercado como perito. Tem decisões judiciais citando meu nome, especificamente meu nome”, disse Castelo Branco quando questionado sobre outros processos relevantes em que tenha atuado como perito auxiliar e que demonstrassem sua notoriedade.

A atuação mais conhecida dele foi como interventor judicial, durante dois anos, da Associação Metropolitana de Gestão (AMG), organização de saúde que que havia sido alvo de uma operação da Polícia Federal e teve seus administradores afastados pela Justiça, em 2021.

No site do Cajesp, ele cita ter atuado como perito em três processos. Em todos, por indicação do advogado Ricardo Sayeg. Seus dois atuais trabalhos também são para Sayeg.

Sayeg é o advogado do ex-presidente do Corinthians Augusto Melo,

Processos ligados ao Master

Atualmente Castelo Branco está em duas ações de grande repercussão, que estão diretamente relacionadas: ele foi contratado pelo Instituto de Previdência Social dos Servidores de Cajamar (IPSSC), que sofreu um rombo de R$ 87 milhões ao investir dinheiro no Banco Master, e pela produtora GoUp, que recebeu R$ 61 milhões de Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master.

Ambos os casos são investigados pela Polícia Federal. Em Cajamar (SP), a PF apura a responsabilidade do IPSSC e dos gestores do instituto pela aplicação de R$ 87 milhões em letras de crédito do Master sem garantias. Castelo Branco foi contratado para demonstrar que, na verdade, os responsáveis por lesar os aposentados e pensionistas são o Banco Central, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a consultoria KPM e a Secretaria Nacional de Previdência, não o instituto ou a empresa que prestava consultoria, a Crédito & Mercado.

“Todas essas entidades falharam na fiscalização, cada um no seu limite, e não protegeram os fundos de previdência. O fundo decidiu colocar dinheiro nesse local porque todos os órgãos de fiscalização disseram que era seguro para ele investir. No caso de Cajamar, estou procurando todos os elementos para justificar quem errou. O Banco Central já é certeza”, afirma o perito, que também foi contratado pelo escritório do advogado Ricardo Hasson Sayeg para o serviço.

Foi o mesmo escritório que o chamou para periciar as contas de Dark Horse, como assistente da defesa da produtora GoUp. O laudo produzido por ele, revelado em junho pelo Metrópoles, não detalha o destino de transferências no valor de US$ 13,3 milhões (equivalente a R$ 75 milhões). O documento menciona, de forma genérica, supostas etapas da produção, sem explicar o que ocorre em cada uma delas.

Segundo a perícia, até o dia 10 de junho, o fundo Havengate Development LP, usado para a captação de recursos, havia enviado os US$ 13,3 milhões (R$ 75 milhões) para o filme.

Confira a nota da Caixa:

A CAIXA informa que o contrato de financiamento firmado com o Sport Club Corinthians observou rigorosamente a legislação vigente, as normas do Banco Central do Brasil e do Sistema Financeiro Nacional, não havendo qualquer aspecto da operação que extrapole o regime jurídico aplicável a contratos dessa natureza.
A contratação original, de 2013, e a renegociação concluída, em 2022, foram submetidas e acompanhadas por efetivo assessoramento técnico e jurídico da CAIXA e do Corinthians, bem como aprovadas por rigorosas regras de governança, de ambos os lados.

A CAIXA ressalta, ainda, que informações específicas sobre operações de crédito e seus termos contratuais estão protegidas pelo sigilo bancário, nos termos da Lei Complementar n° 105/2001. Por esse motivo, a instituição não pode comentar detalhes do contrato, limitando-se a reafirmar que sua atuação observou a legislação aplicável, normativos internos, controles e compliance, tanto da CAIXA, quanto do Corinthians.